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2 CONSIDERAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS

2.6 A TEORIA DO CAPITAL HUMANO (TCH) E QUALIFICAÇÃO COMO “MITO”

A TCH foi formulada e propagada, ainda na década de 1960 e 1970, chegando a compor importante campo de pesquisa nos países desenvolvidos, principalmente nos Estados Unidos, expandindo-se posteriormente aos países subdesenvolvidos (FRIGOTTO, 2010). Subscrita sobre determinada “visão de mundo” e assentada sobre determinada concepção de homem, do ponto de vista macroeconômico a TCH pauta-se na ideia de que os investimentos em educação, ou seja, o investimento em “fator humano” seriam a chave para o desenvolvimento econômico, o aumento da produtividade e a superação do atraso econômico. Preocupados com problema de ordem prática, os teóricos da TCH ocuparam-se em desenvolver o planejamento dos recursos humanos diante de um mercado em crescente expansão pautando-se pela promessa da universalização do emprego (GENTILLI, 1998).

Assim, a TCH surge na tentativa de produzir uma explicação para dar conta dos fatores explicativos do desenvolvimento econômico, hipótese que foi formulada a partir da “observação de que o somatório imputado à produtividade do estoque de capital físico e estoque de trabalho da economia, ao longo de determinado tempo, explicava apenas uma parcela do crescimento econômico desta economia” e que, portanto o resíduo não explicado pelo estoque de capital e de trabalho “poderia ser atribuído ao investimento nos indivíduos, denominado analogicamente capital humano” (FRIGOTTO, 2010, p. 50).

Do ponto de vista microeconômico essa teoria postula que quanto mais os indivíduos se dedicarem aos estudos, tanto mais terão chances de calcarem postos

mais elevados na estrutura social. Todo contrário disso justificaria a condição social daquelas pessoas que vivem em condições de pobreza, ou seja, o acesso aos padrões mais elevados de consumo estaria associado a fatores inscritos na perspectiva individual, negando a divisão da sociedade em classes sociais e celebrando a sociedade do mérito, organizada por estratos sociais (FRIGOTTO, 2010).

A TCH desenvolveu-se sobre uma análise a-histórica e determinista ao pregar que o investimento em educação elevaria os padrões de produção das nações por um lado, e elevaria ao alcance do patamar de desenvolvimento por outro, escondendo a contradição histórica fundamental que sedimenta a sociedade capitalista: que é o fato de que ao produzir as maiores riquezas, produz a maior miséria, e que sem esse mecanismo de produção de desigualdade, esse sistema é inviável (MARX, 2010b).

Mais do que isso, a linha de raciocínio estabelecida pelos teóricos da TCH, ao promover um vínculo entre desenvolvimento econômico e educação, configura-se importante elemento para reflexão sobre o poder que esta teoria exerce ao “mascarar a verdadeira natureza desses vínculos no interior das relações sociais de produção da sociedade capitalista (FRIGOTTO, 2010, p. 29)”.

Segundo Gentilli (1998), é somente com o advento da hegemonia neoliberal, no pós 3º Revolução Industrial, momento em que se evidenciou que o crescimento era possível mantendo-se os altos índices de exclusão, que o argumento da TCH foi contestado fortemente pelos pesquisadores da área educacional.

No entanto, é também sob a égide neoliberal mesclaram-se as tendências educacionais impostas pela TCH, acrescida do conceito de empregabilidade, promovendo o rejuvenescimento da Teoria. Sobre essa ótica, os cidadãos passam a ser vistos como consumidores racionais que devem saber aproveitar as oportunidades.

De forma resumida (e talvez simplista de mais), podemos dizer que a teoria do capital humano teve como função legitimar as formas de exclusão educacional no contexto de um sistema escolar em processo de expansão. Por outro lado, os enfoques neoeconomicistas tem hoje a função de

legitimar novos e velhos processos de exclusão em sistemas já relativamente expandidos (embora ainda com altos graus de discriminação) e submetidos a uma interna dinâmica de diferenciação e segmentação interna. As perspectivas neoeconomicistas pretendem legitimar e cristalizar tais dinâmicas (GETILLI, 1998, p. 110).

O conceito de empregabilidade esta associado à flexibilidade, à adaptabilidade, ao espírito empreendedor e à cooperação que irão se configurar em novas competências requeridas aos trabalhadores, passando a influenciar o campo pedagógico.

A ideologia da empregabilidade sustentou a responsabilização dos próprios trabalhadores pelo desemprego, sendo que a qualificação e a requalificação profissional foram consideradas meios de acesso a setores ocupacionais, prevalecendo, para a maioria dos trabalhadores, a periferia da produção (CIAVATTA; RAMOS, 2011).

Nesse ínterim, à escola é posto o desafio de formar para um mercado cada vez mais restrito no qual é preciso “esforça-se, trabalhar e competir para ser um consumidor racional, responsável e empreendedor” (GENTILLI, 1998, p.114). No campo politico, a educação é dissociada do direito social e alocada na esfera do mercado para ser entendida como um bem de consumo.

Assim, no capitalismo, a qualificação ou a desqualificação torna-se um “mito” utilizado para justificar e legitimar as desigualdades estruturais produzidas no interior do próprio sistema. Segundo o dicionário Michaelis a palavra mito tem os seguintes significados:

sm (gr mythos) 1 Fábula que relata a história dos deuses, semideuses e heróis da Antiguidade pagã. 2 Interpretação primitiva e ingênua do mundo e de sua origem. 3 Tradição que, sob forma alegórica, deixa entrever um fato natural, histórico ou filosófico. 4 Exposição simbólica de um fato. 5 Coisa inacreditável. 6Enigma. 7 Utopia. 8 Pessoa ou coisa incompreensível. (MITO, 2016).

Ou seja, mito é tudo aquilo que remete a algo que não encontra explicação na materialidade, e que pode ser atribuído a algo exterior aos indivíduos, explicado de forma alegórica, constituindo objeto de crença.

Segundo Pochmann (2001), a década de 1990 foi marcada pela formulação de teses neoliberais hegemônicas que instalaram uma série de mitos. Na década de 1990 a TCH é rejuvenescida pelo neoliberalismo e nesse contexto fortalece o “mito” da

qualificação como saída individualizada apresentada à classe trabalhadora para escapar, sozinha, da crise, ou seja, “o mito da qualificação cria uma situação que põe o trabalhador como grande culpado pelo seu desemprego [...]. A TCH força cada vez mais o trabalhador a “acreditar” que quanto mais “capacitado” ele for, mais chance ele tem de se inserir no mercado” (LIMA; SPERANDIO, 2015, p. 96), efetivando-se como discurso capaz de produzir a contenção social das camadas populares, situadas como as “únicas” responsáveis pela situação na qual se encontram ao mesmo tempo em que produz uma espessa camada de trabalhadores desempregados, embora qualificados11.

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