2. TEORIA DO CONHECIMENTO E SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA: DEFININDO UMA ENDOXOGRAFIA E OS AXIOMAS DA INVESTIGAÇÃO
2.2 TEORIA DO CONHECIMENTO
2.2.7 Teoria do Conhecimento no Séc
Neste tópico, o texto já se encontra no séc. XX. Dois importantes autores serão abordados antes do tema fazer uma conversão da filosofia – do campo epistemológico – para a sociologia. Ainda no início do século passado, a teoria do conhecimento tinha o monopólio sobre a discussão epistemológica. Neste e no próximo tópico os autores ainda abordam o tema como um problema filosófico, ainda que Kuhn tenha introduzido o fator histórico em suas obras.
2.2.7.1 Sobre Lógica Dedutiva
Silveira (1996) diz que o racionalismo crítico de Popper constitui uma crítica ao positivismo lógico. A corrente filosófica popperiana defende a concepção de que todo o conhecimento é falível e corrigível, o que o torna provisório. Popper (2013) diz que sua teoria poderia ser chamada de Teoria do Método Dedutivo de Prova, segundo a qual uma hipótese só admite prova empírica após haver sido formulada. O autor também diz que sua concepção poderia ser chamada de dedutivismo, em oposição ao indutivismo. Silveira (1996) diz que a lógica dedutiva de Popper é a) transmissora da verdade – sendo verdadeiras as leis e condições específicas de um determinado experimento, será necessariamente verdadeira a conclusão; b) retransmissora da falsidade – se a conclusão de um determinado experimento é falsa, uma ou mais premissas também serão; e c) não- retransmissora da verdade – de premissas falsas é possível se obter conclusões verdadeiras. O Quadro 2.2 esquematiza o raciocínio dedutivista de Popper:
A Lógica Dedutivista de Popper Transmissão de verdade – leis e condições do
experimento verdadeiras que levam a uma conclusão verdadeira
Hipótese 1: Quando a água é aquecida a 100°C no nível do mar ela entra em ebulição.
Ambas as condições e conclusão do experimento são verdadeiras.
Transmissão de falsidade – Conclusão do experimento falsa o que torna ao menos uma das premissas falsa.
Hipótese 2: A água aquecida a menos de 100°C no nível do mar já entra em ebulição.
O experimento falseou a hipótese. Se replicado, daria um resultado diferente da hipótese o que torna as premissas também falsas.
Não-retransmissão da verdade – Mesmo por meio de premissas falsas, chegou-se a uma conclusão verdadeira
Hipótese 3: A água não precisa ser aquecida até os 100°C para entrar em ebulição em qualquer altitude. Se o teste for feito em altitudes acima do nível do mar, a conclusão será verdadeira e a água mudará de estado antes de atingir 100°C, mesmo que a premissa sobre a altitude seja falsa, já que no nível do mar a água precisa ser aquecida a pelo menos 100°C para entrar em ebulição.
Quadro 2.2 – Descrição do pensamento dedutivista de Popper
Fonte: Autoria própria baseado em Silveira (1996).
Como se pode notar pelo Quadro 2.1 acima, mesmo uma conclusão verdadeira que corrobora determinada hipótese pode ter partido de uma premissa falsa. O que leva a uma compreensão errônea do fenômeno observado. Por isso a importância, no pensamento de Popper, da falseabilidade e o teste de hipótese – o que inclui replicar testes já realizados com intuito de corroborar ou falsear uma afirmação. Ou seja, nada está livre de ser testado, mesmo algo que já passou por testes, e, segundo o filósofo austríaco, todo o conhecimento só pode ser provisório.
2.2.7.2 Sobre Indução
Para Popper (2013) uma inferência é indutiva caso ela conduza de enunciados singulares – por vezes também chamados enunciados particulares, tais como descrições e resultados de observações ou experimentos – para enunciados universais, tais como hipóteses ou teorias. Ou seja, uma observação particular é usada para corroborar uma teoria de caráter mais geral. No entanto, o filósofo também afirma que inferir por meio da indução, independentemente do quão numerosos sejam os enunciados singulares utilizados, pode sempre levar a uma conclusão falsa. Usando a metáfora do cisne branco, ele ilustra que, independente de quantos cisnes brancos podemos observar, isso não justifica que todos os cisnes são brancos. Para justificar um princípio indutivo, teremos de recorrer a um outro princípio indutivo mais elevado, mais generalizado, e assim por diante. Desta forma, para Popper, alicerçar o princípio indutivo na experiência não é possível, pois conduz a uma regressão infinita. Mesmo tomando o princípio da indução não como verdadeiro, mas como provável, o mesmo problema da regressão infinita se mantém, ou se instala uma doutrina do apriorismo.
A resposta de Popper para o problema da indução, então, é negativa. Se a lógica dedutiva não é retransmissora da verdade – se é possível extrair uma conclusão verdadeira de premissas falsas – não é possível justificar a verdade de uma teoria. A questão é que o conflito da teoria com os testes nunca é direto, pois somente é possível testar sob condições específicas e derivar hipóteses e conclusões de baixo nível de generalidade. Mas são justamente estas hipóteses de baixo nível de generalidade que podem ser confrontadas com os fatos. Se os fatos apoiarem as conclusões, não há retransmissão de verdade para hipóteses com nível alto de generalidade. Já que é possível obter conclusões verdadeiras de premissas falsas, não importa quantas afirmações de uma teoria sejam encontradas em observações particulares, logicamente é sempre possível que uma conclusão no futuro não seja confirmada e a teoria não se corrobore. No entanto, para um refutacionismo ingênuo, qualquer teoria estaria automaticamente refutada assim que os resultados observacionais fossem incompatíveis com tal teoria. No entanto, para Popper, todo conhecimento é conjectural, inclusive as falsificações das teorias. Portanto, qualquer falsificação pode ser testada (SILVEIRA, 1996).
Ainda segundo Silveira (1996), outro problema do indutivismo é que um conjunto de fatos pode ser compatível com mais de uma generalização. Usando o exemplo de que todos os cisnes observados até hoje são brancos, pode-se derivar as seguintes generalizações: a) todos os cisnes são brancos; b) todos os cisnes são brancos ou negros; ou c) todos os cisnes são brancos ou vermelhos ou azuis. Todas as três generalizações são apoiadas em algum grau pela observação de cisnes brancos, mesmo que não sejam verdadeiras. Diante de tais afirmações, Popper então passa a se preocupar com um critério de demarcação do que seria um pensamento científico.
2.2.7.3 Critério de Demarcação
O critério de demarcação de Popper é composto por testabilidade, refutabilidade ou falsificabilidade de teorias científicas. Para que algo seja falseável e, portanto, científico, deve existir pelo menos um enunciado que descreva um fato logicamente possível que entre em conflito com a teoria. Teorias pseudocientíficas, não científicas ou metafísicas são irrefutáveis, pois não possuem falsificadores potenciais (SILVEIRA, 1996).
reconhece que pode existir um papel para a metafísica no fazer científico. Popper dá exemplos de teorias metafísicas que impulsionaram a ciência e outros que geraram problemas. A pedra filosofal perseguida pelos alquimistas medievais acabou por gerar um grande número de descobertas científicas. Perseguições religiosas ou políticas de cientistas ao longo da história tiveram impactos negativos. Isso se dá porque Popper admite que processos não-racionais como a imaginação, a criatividade e até mesmo as teorias metafísicas podem desempenhar um papel importante já que considerava que as teorias eram livres criações de nossas mentes (SILVEIRA, 1996).
Outro critério importante para o filósofo é a questão objetividade e da subjetividade. Popper (2013) afirma que faz uso dos termos objetivo e subjetivo no mesmo sentido que Kant. Uma justificação será objetiva se puder ser colocada à prova e entendida por todos. Popper afirma que a objetividade dos enunciados científicos reside na circunstância de poderem ser intersubjetivamente submetidos a teste. Ou seja, os indivíduos devem poder submeter os enunciados a testes e chegarem às mesmas conclusões. Já o termo subjetivo é utilizado para denominar nossos sentimentos de convicção (de variados graus). Por mais intenso que seja um sentimento de convicção (subjetividade), ele jamais pode justificar um enunciado científico. Ao exigir objetividade para os enunciados científicos, reduzem-se as possibilidades de reduzir os enunciados científicos a experiências pessoais. Assim, não podem existir enunciados definitivos em ciência porque os enunciados básicos devem ser suscetíveis de teste intersubjetivo – não pode haver, em ciência, enunciado que não admita, em princípio, refutação pelo falseamento de algumas das conclusões que dele possam ser deduzidas (POPPER, 2013).
Popper (2013) também fala sobre uma atitude que denomina de dogmática, que seria a atitude que vai em oposição à chamada crítica. A atitude dogmática seria a defesa de certas teorias científicas por meio do não reconhecimento de resultados experimentais que as refutariam. Um dogmático afirmaria que resultados experimentais não seriam dignos de crédito, ou que certas discrepâncias são apenas aparentes e desaparecerão com o avanço de nossa compreensão sobre o fenômeno em questão. Popper chega a dizer que esses argumentos são muito utilizados na área das Ciências Sociais. Isso aconteceria quando certos cientistas tentam defender da crítica um sistema enquanto ele não for refutado de modo conclusivo. Ou seja, na postura dogmática, em vez de se tentar ajustar a teoria diante de ataques que não a corrobore, o dogmático tenta defendê-la e faz
contra-ataques (em vez de fazer seus próprios testes ou de ajustar a teoria). Nesse caso, estar-se-ia diante de uma pseudociência, já que a postura dogmática não se encaixa nos critérios de demarcação popperianos. Popper (2013) ainda oferece dois exemplos de regra metodológica: a) o jogo da ciência é interminável. Quem decidir que os enunciados científicos não necessitam mais de prova deve retirar-se do jogo; e b) uma vez proposta e submetida uma hipótese e ela tendo resistido às provas, não se pode permitir seu afastamento sem uma boa razão como a substituição por uma outra hipótese mais resistente às provas ou o falseamento de uma consequência da primeira hipótese. Em verdade, Popper só admite hipóteses auxiliares a uma teoria se ela aumentar o grau de falseabilidade e não o diminuir.
2.2.7.4 Sistemas Teóricos
Popper (2013) defende um sistema teórico formulado de maneira suficientemente clara e completa de forma que um pressuposto novo dentro desse sistema só poderia ser considerado uma revisão ou modificação. Esse sistema rigoroso seria chamado de sistema axiomatizado, por ser composto de axiomas. Os axiomas são usados de forma que todos os outros enunciados pertencentes ao sistema derivam deles por meio de transformações puramente lógicas ou matemáticas. Para que isto ocorra, segundo o filósofo, são necessários os seguintes requisitos: a) o sistema de axiomas deve estar livre de contradições; b) um axioma não pode ser deduzível de outro axioma; c) os axiomas devem ser suficientes para deduzir todos os enunciados da teoria e; d) todos os axiomas são necessários para o mesmo propósito de deduzir os enunciados. Um sistema assim axiomatizado permitiria investigar a dependência mútua de diversas partes do sistema. Esse sistema, ainda segundo Popper, também permitiria que falsificações de determinados enunciados não afetariam necessariamente todo o sistema, mas somente parte dele. Por fim, Popper diz entender os axiomas como convenções ou mesmo que deveriam ser encarados como hipóteses empíricas ou científicas.
Popper (2013) compara o enunciado de um sistema axiomático com uma equação. Numa equação, valores de incógnitas permitidos são determinados pelo próprio sistema, não cabendo incógnitas ou variáveis consideradas inadmissíveis pelo sistema para sua resolução. Popper estende a lógica da equação para um sistema baseado em conceitos.
Um conceito seria uma equação-enunciado e seguiria a mesma lógica da resolução matemática, admitindo apenas “valores” que tornem a equação num enunciado verdadeiro.
2.2.7.5 Teoria do Conhecimento e Método Científico no Dedutivismo
Segundo Silveira (1996), para Popper toda observação é antecedida por um problema. Algo que interessa ao observador que é especulativo ou teórico. Não há como planejar uma observação sem antes ter uma hipótese, conjectura ou teoria. Como não é possível observar tudo, é necessário que as observações sejam seletivas. A aprendizagem com a experiência depende de mudanças internas – maturação do organismo – e de mudanças externas, ligadas ao ambiente. A aprendizagem também está intimamente ligada com a expectativa, que seria uma disposição para reagir. Essa expectativa poderia ser contemplada ou frustrada, o que levaria a correções ao longo da aprendizagem. Portanto, a observação necessariamente pressupõe um sistema de expectativas. Tal observação deverá refutar ou comprovar o sistema de expectativas. Popper chama de teoria do holofote sua teoria do conhecimento que diz que as observações são secundárias às hipóteses, pois são destas últimas que se decide o que e como se deve observar.
O método popperiano se caracteriza pelas seguintes fases: a) P1 é o problema de partida; b) TS é a tentativa de solução que corresponde à hipótese, podendo haver mais de uma; c) EE é o processo de eliminação do erro através da crítica e; d) P2 é um novo problema que emerge (SILVEIRA, 1996). Como mencionado anteriormente, para Popper, uma teoria irrefutável não pode ser falseada, portanto, não pode ser científica. Desta forma, o método dedutivo sempre implica em novos problemas. Marconi e Lakatos (2003), aos descreverem o método hipotético-dedutivo de Popper, listam três momentos no processo investigatório: a) problema que em geral surge de conflitos ante expectativas e teorias já existentes; b) uma solução proposta sugerindo uma nova teoria por meio de conjecturas e; c) testes de falseamento, que são tentativas de refutação pela experimentação e observação. Se a hipótese não superar os testes, estará falseada, ou refutada, exigindo uma nova formulação da hipótese. A observação do item ‘c’ não pode ser feita no vácuo. Ela é precedida por uma teoria anterior. Ou seja, nosso conhecimento
prévio e nossas expectativas. A Figura 2.7 contém um fluxograma que descreve o método dedutivo de Popper.
Figura 2.7 – Fluxograma descrevendo o método dedutivo de Popper
Fonte: Autoria própria baseado em Silveira (1996) e Marconi e Lakatos (2003).
Por fim, Popper também formula em conjunto com o neurofisiologista John Eccles a chamada Teoria dos Três Mundos. Essa teoria argumenta que existem três mundos, sendo que um vem a partir do outro. No a) Mundo 1, estão os objetos e estados físicos; tudo que é do mundo natural e construído pelo ser humano; no b) Mundo 2 estão os estados mentais subjetivos, das experiências pessoais de cada um; e no c) Mundo 3, o conhecimento objetivo: mitos, teorias científicas, a cultura. Este mundo é produto da mente humana, mas passa a ter uma existência independente dos seus indivíduos criadores. O Mundo 3 se assemelha ao mundo das ideias de Platão. Mas tem a diferença de ser criação da mente humana e passível de mudanças. Não é algo imutável e acessado pela mente humana, como defendia o filósofo da antiguidade – em vez disso, ele seria criado por ela (SILVEIRA, 1996).
Portanto, o método de Popper possui semelhanças com o Aristotélico descrito no início do texto, como o teste empírico e a partida de uma teoria – endoxon – mas, para Popper, o intuito é falsear, refutar a teoria, enquanto Aristóteles pretendia comprová-la. Popper se assemelha ao racionalismo de Descartes ao propor uma visão axiomatizada baseada em uma lógica matemática e da divisão entre enunciados singulares e universais, mas rejeita a ideia de conhecimentos inquestionáveis. Também flerta com o racionalismo platônico, ao dizer que existe um mundo das ideias em contrapartida do mundo natural,
mas separa o mundo mental subjetivo do objetivo. Se aproxima de Kant, ao dizer que existem estruturas a priori no processo de construção do conhecimento, mas discorda do prussiano ao não admitir que o conhecimento começa pela experiência, e sim pela teoria. Já que Popper determina que é a hipótese que condicionará a experiência, o conhecimento começa sempre a priori.