CAPÍTULO 2 – FUNDAMENTANDO A PESQUISA: CONCEITOS
2.1 TEORIA DO FRAMING
Ainda dentro da discussão teórica, ressalta-se o enquadramento ou framing – um sistema de seleção natural e cognitivo que tem a capacidade de reduzir o grau de complexidade das coisas e está presente em várias áreas do conhecimento (sociologia, psicologia, comunicação) e também no jornalismo. No caso do jornalismo regional, ele pode ser considerado a partir do momento em que se elege expor um município mais que o outro, certos temas em detrimento de outros e assim por diante, caracterizando aspectos de uma determinada região.
Robert Entman, Jorg Matthes e Lynn Pellicano (2009, p. 177) explicam o que é um quadro no sentido que está sendo analisado: trata-se de uma moldura que repetidamente invoca os mesmos objetos e traços, palavras e símbolos em uma série de comunicações que se concentram num determinado período. O objetivo desses quadros é promover, segundo eles, a interpretação de uma situação e/ou ator e, assim, forçar uma resposta. Em meio a esse processo, reconhecem os autores, estão julgamentos morais que aparecem por conta da carga emocional. No jornalismo, isso é bastante visível quando um mesmo tema é pautado quase que diariamente e, por conta disso, as pessoas já fazem seu pré-julgamento.
Entman (1993, p. 52) sinaliza que os quadros (frames) também são chamados de esquemas e eles têm pelo menos quatro locais no processo de comunicação: o comunicador, o texto, o receptor e a cultura. As funções do enquadramento, de acordo com o autor, são selecionar e destacar certos elementos e o uso desses destaques são utilizados na construção de argumentos seja para causas e problemas ou avaliação e/ou solução (ENTMAN, 1993, p. 53). “Assim, enquadramentos são esquemas interpretativos socialmente construídos que nos permitem reconhecer e situarmo-nos frente a eventos e situações”. (ANTUNES, 2009, p. 92).
Exemplos de enquadramento nos dias atuais são a Operação Lava-Jato16 e o acidente com o time da Chapecoense17. Sempre que se lembra desses episódios – aos quais a maior parte da população brasileira teve acesso por meio da mídia – vêm à mente uma série de quadros sobre os dois acontecimentos; molduras produzidas pela imprensa. Por isso, Entman, Matthes
16 Informações sobre o caso podem ser acessadas por este link: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-
jato/entenda-o-caso. Acesso em 10 abr.2019.
17 Informações sobre o caso podem ser acessadas por este link: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/11/aviao-
e Pellicano (2009, p. 181) consideram que esses enquadramentos produzidos pela mídia afetam a formação da opinião pública.
Por outro lado, há aqueles assuntos que permanecem desconhecidos porque a mídia não trata deles. No caso do jornalismo regional, é impossível atestar a quantidade de informações e dados que podem render notícias sobre as cidades dos Campos Gerais, mas não o são porque os meios de comunicação não os incluem, não os investigam. Neste sentido, Entman (1993, p. 54) ressalta que a exclusão de interpretações por quadros é tão significativa para os resultados quanto a inclusão. Ainda segundo o mesmo autor, as respostas dos receptores são claramente afetadas se percebem e processam informações sobre uma interpretação e possuem poucos ou incomensuráveis dados sobre alternativas.
Além de salientar e selecionar elementos, o framing também pode jogar uma luz negativa ou positiva sobre determinado acontecimento e, assim, gerar reações e impactos distintos no público. “Vários estudos têm mostrado que uma mensagem negativamente enquadrada enfatizando perdas tende a ter um impacto maior sobre um determinado comportamento do que a mensagem logicamente equivalente, positivamente enquadrada”.18 (ENTMAN; MATTHES; PELLICANO, 2009, p. 182, tradução nossa).
O trio afirma que o framing ultrapassa o processo psicológico individual, tornando-se uma estratégia para a comunicação política. Segundo os autores, os processos de enquadramento ocorrem em quatro níveis: na cultura; nas mentes das elites e dos comunicadores políticos; nos textos das comunicações; e na mente dos cidadãos individuais. (ENTMAN; MATTHES; PELLICANO, 2009, p. 176).
Entman, Matthes e Pellicano (2009, p. 179, tradução nossa) explicam que “quadros bem-sucedidos devem diagnosticar um problema (enquadramento diagnóstico), propor soluções e tácticas (enquadramento prognóstico), e motivar para a ação (enquadramento motivacional)”19. No jornalismo, a análise de quadros examina a seleção e destaque de certos aspectos de uma questão explorando imagens, estereótipos, metáforas, atores e mensagens. (ENTMAN; MATTHES; PELLICANO, 2009, p. 179). O ponto essencial na definição de frame para Erving Gofmann (2012, p. 30) é a pergunta “O que está acontecendo aqui?”. De acordo com o autor, a resposta varia conforme a exposição do indivíduo ao assunto.
18 “Multiple studies have shown that a negatively framed message emphasizing losses tends to have a greater
impact on a given behavior than the logically equivalent positively framed message emphasizing gains”. (ENTMAN; MATTHES; PELLICANO, 2009, p. 182).
19 “successful frames must diagnose a problem (diagnostic framing), propose solutions and tactics prognostic
Para os jornalistas, a pergunta é essencial e evidente no trato da notícia. Os próprios profissionais possuem seus quadros a partir das experiências individuais, mas também no compartilhamento de informações com seus pares. Segundo Antunes (2009, p. 86),
podemos dizer que a interpretação do mundo feita pelos diferentes agentes sociais e tipificada pelo jornalista por meio da notícia se baseia em um “acervo de experiências prévias” que funcionam como um esquema de referências, a partir de uma espécie de “conhecimento à mão”.
O mesmo autor continua:
O fundamental é que, na perspectiva das teorias do jornalismo, o fator tempo aparece como um quadro explicativo para dizer porque uma dada comunidade profissional (jornalistas), em um dado ambiente organizacional (as organizações jornalísticas), no interior de um dado processo de produção (as práticas jornalísticas), produz um tipo específico de produto (as notícias) (ANTUNES, 2009, p. 89).
Constata-se que a Teoria do Framing busca especificar que o jornalismo se vale de enquadramentos seja para manter um status quo seja para realizar um contra-enquadramento. Neste sentido, o frame está mais ligado à ordem do psicológico do público e, por que não, do jornalista, do que à questão linguística. Produzir quadros é reiterar alguns temas e formatos que podem até levar a uma construção ideológica, no sentido de convencimento. Essa saliência corrobora para que o framing caminhe lado a lado com a Teoria do Agendamento, segundo a qual alguns temas são potencializados em detrimento de outros graças à agenda midiática.
Além disso, levando em consideração a psicologia e a sociologia, o conceito ou a metodologia do enquadramento não precisam ficar restritos ao produto do jornalismo. Eles podem ser úteis para entender o que diferencia o modo de produção dos jornalistas de outros coletivos. A partir disso, cria-se um sistema, uma tipificação. Foi nesse sentido que Tuchman aplicou o enquadramento no seu estudo sobre as redações.