5.4 TEORIAS DO RISCO
5.4.2 Teoria do Risco Integral
Os autores que sustentam a corrente da responsabilidade civil objetiva do Estado, baseada na teoria do risco integral, defendem a idéia de que nenhuma das excludentes da ilicitude pode ser argüida a fim de que o Estado desobrigue-se da responsabilidade por dano ambiental.
Com relação a fato de terceiro, o Estado é responsabilizado solidariamente, já que tem o dever de fiscalização, impedindo, assim, que danos ao meio ambiente venham a ocorrer. Mas, reparada a lesão, pode ele voltar-se regressivamente contra o terceiro causador do dano.
Força maior também não afasta a responsabilidade de reparar o dano causado, como ocorre no exemplo citado por Sirvinkas: “uma mineradora, instalada em local de preservação permanente, em decorrência de sua atividade, causa o desmoronamento de grandes pedras por força das chuvas, ocasionando a destruição de muitas árvores”. (2009, p. 199).
Aqui, a atividade econômica – a mineração – é a principal responsável pela degradação ambiental, embora o fator chuva tenha contribuído para que dano tenha ocorrido. Mas, se não houvesse a mineradora naquele local, a chuva, por si só, não teria provocado dano algum à natureza.
O caso fortuito igualmente não afasta a responsabilidade, segundo a já referida teoria em questão. O exemplo citado por Sirvinkas “ilustra bem esta questão: um agricultor
armazena grande quantidade de agrotóxicos em determinado local e, após um raio, esse produto vem a contaminar o rio ribeirinho localizado em sua propriedade, causando a morte de muitos peixes”. (2009, p. 199).
Aqui, o evento, imprevisível e inevitável, não teria dado ensejo ao dano se não houvesse os agrotóxicos armazenados.
Ocorre que, pelo simples fato de existir a atividade há o dever de indenizar, mesmo que a empresa tenha se cercado de todos os cuidados para evitar desastres danosos ao meio ambiente. Pois se o dano decorre de ato humano, de falha da administração, não será excluída a responsabilidade do Estado. (DI PIETRO, 2008).
Sendo assim, o Estado, como causador do dano ambiental, igualmente como o particular, não tem o que falar a respeito das excludentes da ilicitude.
Contudo é importante dizer que,
Em relação ao Poder Público cabe-lhe velar, de maneira intransígivel, pela proteção do bem ambiental. Se contribuir, direta ou indiretamente, para o dano ambiental, também será solidariamente responsável. Responderá tanto por atos comissivos como por atos omissivos. Aplica-se-lhe, em face da principiologia própria do Direito Ambiental, a teoria do risco integral para fins de indenização. (VIANNA, 2004, p. 126).
De acordo com Sirvinkas:
A pessoa jurídica de direito público interno também é responsável pelos danos que diretamente causar ao meio ambiente, por meio de suas funções típicas. Pode o Poder Público realizar obras ou exercícios causadoras de degradação ambiental. Por exemplo: abrir estradas, instalar usinas atômicas, construir hidrelétricas, etc., sem a realização do estudo de impacto ambiental. [...] Aplica-se, in casu, a responsabilidade objetiva pelo risco integral. Não há que apurar a culpa, bastando a constatação do dano e o nexo causal entre este e o agente responsável pelo ato ou fato lesivo ao meio ambiente. (2009, p. 199).
O meio ambiente vem recebendo uma importância ainda maior nos últimos anos, sendo visível nas decisões recentes de nosso Superior Tribunal de Justiça.
Extrai-se do Texto Constitucional e do sentido teleológico da Lei de Política do Meio Ambiente (Lei 6.938/81), que essa responsabilidade é fundada no risco integral. [...] Se fosse possível invocar o caso fortuito ou a força maior como causas excludentes da responsabilidade civil por dano ecológico, ficaria fora da incidência da lei a maior parte dos casos de poluição ambiental. Por conseguinte, a adoção pela lei da responsabilidade civil objetiva, significou apreciável avanço no combate a devastação do meio ambiente, uma vez que, sob esse sistema, não se leva em conta, subjetivamente, a conduta do causador do dano, mas a ocorrência do resultado prejudicial ao homem e ao ambiente. Assim sendo, para que se observe a obrigatoriedade da reparação do dano é suficiente, apenas, que se demonstre o nexo causal entre a lesão infligida ao meio ambiente e a ação ou omissão do responsável pelo dano. [...] Devem ser tomadas as devidas cautelas pelo Estado para prevenir futuros danos ambientais, ainda que não esteja claramente estabelecido que
o empreendimento ou a empresa denunciada sejam os responsáveis pelo eventual dano ambiental causado pelo uso daquela substância. (BRASIL, STJ, 2009b).
Para frisar a relevância da teoria do risco integral, inclusive se tratando de Poder Público, é importante acrescentar a argumentação de Milaré,
Em matéria de responsabilidade civil, é preciso não olvidar que, nos casos de dano ao meio ambiente, a responsabilidade é objetiva, informada pela teoria do risco integral, sendo suficiente que o prejuízo tenha resultado do exercício de determinada atividade e não necessariamente do comportamento do agente. O empreendedor é quem recolhe os benefícios de sua atividade. Logo, há de ser ele, de preferência, o indicado a suportar os riscos imanentes à referida atividade, cabendo-lhe, de conseqüência, o dever ressarcitório, pela simples verificação do nexo causal. Indiretamente, o próprio Estado que, através de seu órgão seu, tem o poder-dever de coarctar a danosidade ambiental. (2007, p. 910).
O Estado responderá, mesmo que indiretamente, pelos danos causados ao meio ambiente, pois sabe-se que tal prejuízo poderá ter sido conseqüência da omissão do ente público ao descumprir seu dever de fiscalizar, dessa forma, tornando possível a ocorrência da lesão ao bem tutelado.
Com base em vários posicionamentos o Tribunal de Justiça do Estado do Paraná entende que:
Tratando-se de danos ambientais, não se aplica a teoria do risco administrativo, mas a do risco integral, onde, além de ser afastada a análise da culpa, são também afastadas as causas excludentes da responsabilidade civil, como o caso fortuito, força maior e do fato de terceiro, restando, tão somente, o dano e o nexo de causalidade para serem analisados; observado esses elementos no caso concreto, exsurge o dever de indenizar. (PARANÁ, TJ, 2011b).
Tratando-se de danos ambientais, não há atualmente uma posição jurisprudencial unificada; entretanto, havendo lesão ao meio ambiente, onde o agente poluidor seja o Estado, mesmo que indiretamente, o posicionamento majoritário é que este responderá pelos prejuízos causados, e será responsabilizado com a reparação cabível, seja esta indenizatória ou compensatória, de acordo com a proporção que lhe for cabível.
Dependerá de cada órgão julgador a análise de qual teoria deverá ser aplicada. Mas o que se pode afirmar é que, independente disso, o meio ambiente é direito da coletividade, e cabe ao Estado o dever de preservá-lo e protegê-lo.
Entretanto percebe-se o crescimento da adoção de tal teoria, por nossos tribunais, que destacam cada vez mais a importância da preservação do meio ambiente, para a evolução da espécie humana e garantia de sobrevivência das futuras gerações.
A responsabilidade civil administrativa objetiva pelo risco integral atribui à Administração o ônus dos danos pelas lesões causadas por serviços administrativos ou
atividades consideravelmente perigosas. Sendo assim, a responsabilidade se dá por comportamentos de comissão ou omissão do Estado, pois, de acordo com a CF em seu artigo 37, o Estado é responsável pelos danos que seus agentes causarem a terceiros. (BRASIL, CF, 2011).
Analisando a posição de alguns doutrinadores, percebe-se o avanço deste
entendimento, assim como se percebe a tendência do crescimento da adoção de tal teoria diante da necessidade de preservar e proteger o meio ambiente, tão importante para todos.
6 CONCLUSÃO
O presente trabalho, distante de solucionar, por completo, a polêmica em torno
das teorias objetivas em relação à responsabilização do Estado por danos ambientais, espera, contudo, ser contributivo para mais um crítico debate acerca do tema.
É inegável que é grande a polêmica acerca das teorias do risco criado e do risco integral, no que diz respeito à responsabilidade do Estado pelos danos ambientais que venha a causar, ocasionando as mais diversas discussões e posicionamentos sobre o tema em pauta.
Alguns doutrinadores ainda defendem a teoria do risco criado, onde o Estado
pode, sim, ter como argumento as excludentes da ilicitude, provando que não fora ele o causador do dano ao meio ambiente.
No entanto, há doutrinadores defensores da teoria do risco integral, alegando que o meio ambiente não poderá ficar sem reparação alguma, dizem que o Estado não poderá valer-se das excludentes da ilicitude para eximir-se da responsabilidade e não precisar indenizar.
Mesmo parecendo absurdo ter que admitir que o Estado tenha que ser responsabilizado, em qualquer hipótese, pelos danos que o meio ambiente venha a sofrer, já que, em muitos casos, ele não contribuiu para o fato, é importante ressaltar que o Estado acaba contribuindo, indiretamente, para a ocorrência do dano, quando não cumpre o seu pode- dever de fiscalizar.
Adotar-se posicionamento diferente, não significa pretender-se que o Estado tenha responsabilidade para com qualquer dano ambiental, bem como não é desejar a existência de uma entidade estatal extremamente eficiente e capaz de imiscuir-se na vida de todos e em tudo, mas que esteja presente e comprometida na prevenção de danos e proteção do meio ambiente. Pois, essa é obrigação do Estado, conforme prevê a Constituição Federal.
Mediante, tais explanações é cabível a contribuição de Montenegro, ao afirmar
[...] o § 3º, do art. 225, da Carta magna, ao prever a responsabilidade dos infratores pela reparação dos danos causados ao meio ambiente, como suas condutas ou atividades, independentemente de culpa, está apenas instituindo a responsabilidade objetiva e exigindo a presença do nexo causal entre estas e aqueles. (2006, p. 133).
Dessa forma, é possível concluir que, de acordo com os recentes posicionamentos jurisprudenciais e doutrinários, permitir que a teoria do risco integral não possa ser aplicada ao Poder Público é permitir que não seja dado o verdadeiro valor ao meio ambiente, bem
necessário para sobrevivência da humanidade, cabendo ao Estado zelar por sua proteção, assim como, reparar o prejuízo que tenha sido causador, mesmo que de forma indireta.
Mas, considerando-se a obrigação posta ao ente federativo, pela própria Constituição federal, atribuindo-lhe o dever de fiscalizar e prevenir as condutas que possam causar danos ao meio ambiente, é cabível ao mesmo, a aplicabilidade da teoria do risco integral, posto que deverão ser adotados os princípios diretamente ligados a esfera ambiental, não se analisando, nestes casos, os princípios direcionados a Administração Pública.
A discussão sobre a responsabilidade civil objetiva do Estado ainda é grande, porém o que deve ser analisado de forma especial é a importância que tal bem apresenta para a garantia de uma qualidade de vida sadia para as futuras gerações, obrigando o poluidor a reparar tais danos, de forma integral, sempre que possível, seja o poluidor, ente particular ou ente estatal.
No entanto, trata-se de entendimento unificado, o fato de que aquele que causar dano ao meio ambiente terá que repará-lo. Porém, não se estabelece uma característica única e direta para o poluidor, podendo este, ser pessoa física ou jurídica, pública ou privada. Sendo assim, conclui-se que, é possível atribuir ao Estado à responsabilidade civil objetiva, fundamentada na teoria do risco integral.
Aqui, como em outros campos, é bom lembrar à máxima: “tudo tem um preço”. E, diante da necessidade de preservação e proteção do meio ambiente, é válido frisar o conhecido pensamento indígena que assim reza: “Só depois que a última árvore for derrubada, o último peixe for morto, o último rio envenenado, irão perceber que dinheiro não se come”.
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