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Teoria dos Clusters

No documento A psicologia em unidades hospitalares (páginas 42-48)

2.3 PSICODRAMA

2.3.3 Conceitos do psicodrama

2.3.3.5 Teoria dos Clusters

No sentido de melhor compreensão da teoria dos clusters ou agrupamentos de papéis, se faz necessário a discussão sobre o conceito moreniano de papéis. Para o criador do psicodrama primeiro é o grupo, pois este implica em interação, que é exercida através de papéis, conforme Moreno (1975, p. 210), “[...] o desempenho de papéis é anterior ao surgimento do ego. Os papéis não decorrem do eu mas o eu pode emergir dos papéis.”.

Bustos (1990, p. 97), contribui com esta discussão, diferenciando os vínculos, que são unidades operativas, dos papéis, que são os pólos individuais dessa interação. Ressalta o autor que, muitas vezes, o sentido de papel, ao invés de ser considerado como unidade indispensável de conduta, é confundido como máscaras defensivas.

Os papéis surgem do interior da Matriz de Identidade, ou seja, essa constitui a base psicológica para que todos os papéis possam ser desempenhos. Os papéis são descritos por Moreno em três categorias: psicossomáticos, sociais e psicodramáticos.

Os papéis psicossomáticos são os primeiros e, também, os mais questionáveis. Isto porque, para uma ação ter categoria de papel, conforme Bustos (1990, p. 98), precisa ter ‘consciência possível’, ir se conformando numa unidade de conduta. O recém-nascido é atendido pela mãe, ou outro ego-auxiliar, mas a maturação psicofísica dele não permite uma consciência possível. Assim, Bustos passa a chamar os papéis psicossomáticos de funções essenciais inerentes ao papel de filho ou protopapéis.

Para além dessa conceituação, o ego-auxiliar, ao cuidar deste ser na situação de dependência, passa a introduzir determinados modos no jeito como cuida, ou seja, no ato de mamar, como coloca as fraldas, na frequência com que as trocam, na forma como segura o neném, só para evidenciar algumas possibilidades. Também nas condições como age, com calma ou ansiedade, o que gera situações de segurança ou insegurança fundamentais para o desenvolvimento deste ser.

Portanto, afirma Bustos (1990, p. 99), que “[...] o papel de filho tem em si mesmo a função de internalizar as regras, convertendo-se em estruturantes do que podemos chamar de eu.”. Ao nascer o bebê já está inserido numa rede sociométrica, formada pelo conjunto de relações da família e relações próximas, condicionando valores sociais e dinâmicas que marcarão, de forma profunda, sua vida. Quando duas funções, dar papéis e receber papéis, conseguem ser percebidas pela criança, quando acontece a brecha entre realidade e fantasia, surgem, então, dois novos papéis: sociais e psicodramáticos.

Os papéis sociais, explica Bustos (1990, p. 100), são “[...] os que respondem a generalizações convencionais de acordo com determinantes culturais.”. Neles predominam a função de realidade numa dimensão de interação social, tendo um caráter de generalidade. Ao se assistir o desempenho de um determinado papel social, por exemplo, o de cozinheira, internaliza-se pautas sociais amplas. O papel de cozinheira, exemplificando, tem como pauta geral a execução da ação de cozinhar alimentos, e tem características pautáveis como avental, lenço no cabelo, colheres de pau, entre outros.

Quando esta pauta social ampla internalizada se concretiza num desempenho de um papel particular, ou de outra forma, quando os estereótipos sociais se sintetizam numa figura única, particular e singular, há a passagem do papel social para o papel psicodramático. Os papéis psicodramáticos, diz Bustos (1990, p. 101), são “[...] os que envolvem o mais alto grau de especificidade. Os estereótipos sociais se unem ao desempenho espontâneo para produzir esta categoria de papéis.”. Assim, seguindo exemplo anterior, a cozinheira estereotipada passaria a ser uma cozinheira singular, única, particular.

Os papéis psicossomáticos, sociais e psicodramáticos interagem através de suas experiências, se agrupando segundo certa dinâmica, em termos evolutivos. Bustos (1990, p. 116), afirma que “[...] em cada período o bebê incorpora experiências que vão influir fortemente em seu futuro desenvolvimento [...]”, configurando agrupamentos de papéis ou clusters. Nesta perspectiva pode-se dividir esta aprendizagem em três grupos. O primeiro, denominado de cluster um, tendo como complemento a mãe ou a pessoa que ocupe este papel; o segundo, denominado cluster dois, cujo complemento é o pai ou outra pessoa que o substitua; e o terceiro, cluster três, que tem por complemento o irmão ou outra pessoa equivalente.

Cluster um ou materno - O recém-nascido para sobreviver precisa ser cuidado, biológica e psicologicamente não tem como defender-se, encontra-se na fase da Matriz de Identidade Total e Indiferenciada, incorporando, como se fosse ele mesmo, o que ocorre em sua volta. Esclarece Bustos (1990, p. 117), que “[...] o corpo registra as tensões e as incorpora como próprias. O bebê é especialmente sensível à angústia das pessoas que o rodeiam.”. Nesta etapa o papel complementar é o de mãe, a palavra-chave é dependência e o vínculo é assimétrico.

Para o desempenho da vida adulta é fundamental, afirma Bustos (1990, p 117), aprender a depender, pois através das vivências experienciadas nesta fase vai “[...] saber receber, aceitar ser cuidado, conviver saudavelmente com os momentos de vulnerabilidade.”. A ternura, acrescenta o autor, é o primeiro sentimento primário de uma pessoa, inexoravelmente ligado a sensações, fundamental para a construção de relações de intimidade, pois está baseada na capacidade de sentir e aceitar carinho.

Da forma como bebê percebe o olhar da mãe, este significando o olhar do que está em torno dele, será o modo como observará suas próprias ações. Bustos (1990, p. 119), afirma que “[...] a ternura e a receptividade antecipam uma relação amorosa consigo mesmo [...]”, isto não significando ser condescendente e sem limite, tudo justificando. Ao contrário, é poder

aceitar especialmente os erros, sem o temor de um rígido julgamento interno que levaria à fuga de uma saudável autocrítica.

Quanto às experiências negativas deste cluster, ressalta o autor (1990, p. 120), poderão repercutir no desenvolvimento posterior deste homem. O estado de abandono e desamparo podem levar a uma incapacidade de passar para a próxima etapa de desenvolvimento com condições suficientes para a sobrevivência emocional. A carência de cuidados amorosos abalam o desenvolvimento físico e psíquico de um bebê, a tal ponto que pode tornar-se psicótico, ou, num caso limite, levá-lo à morte. Por outro lado, o bebê superprotegido pode vir a ficar aprisionado por condutas de apego. Bustos (1990, p. 121, grifo do autor), diz que “[...] o bebê aprende que a hostilidade e o desamparo ou o seu oposto, a superproteção, são as constantes, o mundo é assim, ele é assim. Aprende que a ameaça estará sempre presente e terá que implementar recursos de sobrevivência.”. Todas as pessoas deveriam aprender a enfrentar a angústia das frustrações vividas, através de comportamentos que possibilitassem sua sobrevivência emocional.

Cluster dois ou paterno – O bebê, tanto biológico como psiquicamente, lentamente amadurece, aprendendo a diferenciar-se dos outros e dos objetos. Conforme Bustos (1990, p. 142), “[...] o papel de bebê passa da função de ser alimentado, nutrido e cuidado (papel de filho-mãe), como eixo central e único, para acrescentar a ele o da conquista gradual da autonomia, necessitando de um eu-auxiliar que o ensine a ficar sobre seus próprios pés.”. Nesta etapa, a função paterna, complementar e assimétrica, auxilia a criança a construir e desenvolver o papel de filho, filho-pai, então, é a equação complementar.

Se o desenvolvimento no cluster um foi sem grandes angústias e o ritmo de desenvolvimento respeitado, a transição da dependência máxima para a conquista da autonomia, característica do cluster dois, será experienciada de forma natural e espontânea. Contudo, se esta passagem foi perturbada, a angústia evidencia a ruptura, e o desenvolvimento do bebê será retardado. Se, da mesma forma no cluster um, o bebê aprende a aceitar suas necessidades, a passagem para a etapa seguinte, conforme Bustos (1990, p. 143), “[...] vai-se realizar através da capacidade de aprender a reconhecê-las, nomeá-las e administrá-las.”.

O bebê no cluster um, confundindo-se com a mãe, elege esta para todos os critérios, todas as suas necessidades estão somente a ela dirigida. Quando, pelo crescimento gradual, a criança passa a perceber as diferentes necessidades, há a possibilidade de escolha, sendo o pai a primeira alternativa. Desta forma, obedecendo a diferentes critérios, a criança passa a construir a capacidade de relacionar-se com diferentes pessoas. Moreno (apud BUSTOS,

1990, p. 143), “[...] diz que esta diversidade de critérios é uma medida saudável.”. A capacidade de ter diversos amigos pelas diferentes afinidades, permite uma ampla liberdade aos vínculos, não levando à idealização de encontrar uma única pessoa, como se fosse possível esta preencher todos os critérios.

Estes dois clusters originam funções que, na vida adulta, se transformam na possibilidade constitutiva de outros papéis. No cluster um a função de receber, representando o sim, e no cluster dois a função de dar, representando a capacidade de dizer não, assinala Bustos (1990, p. 154), são duas funções que se constituem essenciais para a dinâmica de um ser humano.

Ainda é importante destacar que o cluster um e o cluster dois são formados por vínculos assimétricos. Tanto os papéis de mãe-filho como de pai-filho têm responsabilidades diferentes, indicando dependência de um dos papéis, conferindo subordinação de um dos papéis em relação ao outro. Diferentemente do cluster três no qual o vínculo se dá de forma simétrica.

Cluster três ou fraterno – Nesta etapa a criança aprende a compartilhar com os irmãos, primos, amigos, enfim, pessoas que convivem no seu átomo social. A maioria dos papéis da idade adulta é desenvolvida nesta etapa. (BUSTOS, 1990, p. 156-157).

A forma de vincular-se é simétrica, o vínculo é fraterno, é entre iguais, de acordo com o par complementar são denominados, entre outros, de irmãos, primos e amigos. Este cluster diz Bustos (1990, p. 159), “[...] convida a uma perigosa e responsável capacidade de opção permanente. Posso eleger e elejo estar, é uma forma responsável e adulta de estabelecer vínculo.”.

Este vínculo, baseado na simetria e interatividade, contém três possibilidades de dinâmicas: compartilhar, competir e rivalizar. O compartilhar é a dinâmica que mais se deseja, entretanto, na sociedade atual individualista, competitiva e destrutiva, se torna a dinâmica mais difícil. Isto porque o compartilhar exige a vontade de doar o que cada um tem em prol do bem comum. O competir é uma dinâmica que sempre existiu, todavia mais intensamente estimulada na sociedade atual. A rivalidade é a dinâmica que, se não é possível ganhar, tenta-se impedir, muitas vezes de qualquer maneira, que o outro ganhe. (BUSTOS, 1990, p. 157–166).

Então, seria ideal se cada homem pudesse viver passando por cada um dos três clusters com equilíbrio. Mas a realidade, por vezes, tem mostrado marcas, de diferente intensidade, levando o homem ao adoecimento, dependendo da gravidade, até mesmo à hospitalização.

Para Moreno, como já dito, o ser humano não existe a menos que seja compreendido em relação. O ser humano é concebido tão somente por existir um vínculo que lhe dá uma matriz, a Matriz de Identidade, nada podendo ser concebido a não ser dentro de um vínculo.

Os homens doentes podem ser percebidos, enquanto tal e de várias formas, em inúmeros espaços diferentes, inclusive internados em unidades hospitalares. São nestes homens que as luzes deste projeto se direcionam, perspectivando a produção de conhecimento que favoreça a expansão do relacional, fortalecendo vínculos, possibilitando o encontro, iluminando a espontaneidade para que seja possível o ato criador, reacendendo vidas.

3 MÉTODO

No documento A psicologia em unidades hospitalares (páginas 42-48)