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TEORIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES. MOTIVAÇÃO E COISA

4 COGNIÇÃO, COISA JULGADA E MOTIVAÇÃO

4.5 TEORIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES. MOTIVAÇÃO E COISA

4.5 TEORIA DOS MOTIVOS DETERMINANTES. MOTIVAÇÃO E COISA JULGADA

A formação da coisa julgada qualidade ocorre quando o provimento jurisdicional se torna irrecorrível, sendo definida como a de imutabilidade da parte dispositiva da sentença.

Instrumento de pacificação social às relações processuais, a coisa julgada tem o condão de consagrar a segurança jurídica às situações fáticas sujeitas à apreciação do Poder jurisdicional.

Trata-se de um direito fundamental assegurado aos cidadãos pela Constituição da República Federativa do Brasil, visando à estabilidade das situações jurídicas. Assim, a coisa julgada mostra-se de importância indiscutível na defesa do interesses de uma sociedade de consumo e de massa, devendo ser preservada de modo indevassável185.

Evidentemente o escopo preponderante da atividade judicante é a prestação de uma tutela meritória, colocando termo à questão levada para deliberação do Poder Judiciário.

Doutrinariamente, convencionou-se em distinguir a coisa julgada formal da coisa julgada material, tendo como elemento preponderante de diferenciação a resolução de mérito das questões postas em juízo e a eficácia de imutabilidade para fora dos limites da própria relação processual original. Toda sentença transitada em julgado adquire o status de coisa julgada formal,

185 Cf. O posicionamento de Scassia presente na obras de: COUTURE, Eduardo. Fundamentos do direito processual civil. Trad. bras. de Rubens Gomes de Souza. São Paulo: Saraiva, 1946. p. 329: Os mais tradicionalistas, de maneira exagerada, afirmavam que a coisa julgada era capaz de transformar o preto em branco (res iudicata nigrum albium facit).

sendo o julgamento de mérito decisivo para que o provimento jurisdicional também tenha o condão de ser protegido pela coisa julgada material.

Diferentemente da sistemática do Código de Processo Civil de 1939, o Código de Processo Civil atual excepcionou a motivação dos efeitos da coisa julgada. O artigo 469 do Código de Processo Civil atual dispõe que os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença, não fazem coisa julgada. Assim, nem as razões de fato e muito menos as razões de direito são englobadas pelo manto da imutabilidade e imperatividade186.

Os motivos, ainda que relevantes para fixação do dispositivo da decisão, se limitam ao plano lógico da elaboração do julgado. É notória a influência da motivação na interpretação do dispositivo, mas isso não significa que haja a extensão da qualidade de imutabilidade da parte decisória à fundamentação. A substituição da regra constante no parágrafo único do artigo 287 do Código de Processo Civil de 1939 consagrou a impossibilidade de formação de coisa julgada sobre a motivação da sentença e tornou sem eficácia prática a discussão doutrinária sobre a diferenciação entre os motivos objetivos e subjetivos.

Segundo construção de SAVIGNY187, durante a elaboração das decisões judiciais, consegue-se claramente identificar duas espécies distintas de motivos: (i) os objetivos, que são elementos integrantes e indissociáveis da relação jurídica posta em Juízo e que poderiam segundo uma opção legislativa ser protegidos pela coisa julga e (ii) os subjetivos, que possuem apenas o condão de formar o convencimento do magistrado e são intrínsecos aos valores adotados pelo julgador durante a atividade judicante.

186 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Rcl 1171/DF. Min. Relator Sálvio de Figueiredo Teixeira. 4ª Turma.

Julgamento em: 25.03.2003. Disponível em: www.stj.jus.br. Acesso em: 22 fev. 2010: “Reclamação.

Descumprimento de decisão do STJ. Existência. Observância do dispositivo passado em julgado. art. 469, I, do CPC.

I - O art. 469, I, do CPC, afirma que a motivação não faz coisa julgada, ainda que importante para determinar o alcance da parte dispositiva da decisão. Apenas a parte dispositiva é cristalizada com o trânsito em julgado”.

187 SAVIGNY apud TUCCI, José Rogério Cruz e. A motivação da sentença no processo civil. São Paulo: Saraiva, 1987. p. 60.

Pela sistemática do Código de Processo Civil de 1939, além da parte dispositiva, também transitavam em julgado os motivos objetivos que serviram diretamente para a prolação da decisão judicial. Corroborado esse entendimento, Batista188 lecionou que a “coisa julgada é restrita à parte dispositiva do julgamento e aos pontos aí decididos e fielmente compreendidos em relação aos seus motivos objetivos”.

Não obstante a redação atual do artigo 469 do Código de Processo Civil vedar a cobertura pela coisa julgada dos motivos, essa questão voltou a ser debatida quando da verificação de impossibilidade de dissociação entre motivos determinantes e o dispositivo em sede de julgamentos de casos de controle de constitucionalidade. Para o Supremo Tribunal Federal, existem decisões que são tão intimamente ligadas e indestacáveis de seus motivos, que seria impensável não se estenderem os limites objetivos e subjetivos da coisa julgada, mesmo que de lege ferenda, às razões de julgamento.

É conveniente destacar que o STF em determinadas circunstâncias, normalmente atreladas ao próprio respeito a decisões anteriores proferidas por essa Corte, permite a ampliação dos efeitos da coisa julgada aos motivos preponderantes para a prolação do provimento jurisdicional, aplicando a teoria da transcendência dos motivos determinantes.

Em decisão da lavra do Ministro Corrêa189, verificou-se que o desrespeito a um entendimento do STF seria uma

hipótese a justificar a transcendência sobre a parte dispositiva dos motivos que embasaram a decisão e dos princípios por ela consagrados, uma vez que os fundamentos resultantes da interpretação da Constituição devem ser observados

188 BATISTA, Paula. Compêndio de teoria e prática do processo civil. 8.ed. São Paulo: Saraiva, 1935. Nota 1.

189 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Rcl 1987/DF. Ministro Relator Maurício Corrêa. Tribunal Pleno.

Julgamento em 01/10/2003. Disponível em: http://www.stf.jus.br>. Acesso em: 22 fev. 2010.

por todos os tribunais e autoridades, contexto que contribui para a preservação e desenvolvimento da ordem constitucional.

Para Barroso190,

por essa linha de entendimento, tem sido reconhecida eficácia vinculante não apenas à parte dispositiva do julgado, mas também aos próprios fundamentos que embasaram a decisão. Em outras palavras: juízes e tribunais devem acatamento não apenas à conclusão do acórdão, mas igualmente às razões de decidir.

Devemos enfatizar que existem motivos que são tão decisivos para a prolação das decisões judiciais que não podem ser enfrentados sem que haja reflexamente um questionamento sobre a própria formação da coisa julgada incidente sobre o dispositivo. Tomemos como exemplo uma ação em que se pleiteia a responsabilização civil pela inexecução de um contrato. Evidentemente que a condenação exige uma prévia avaliação de validade do contrato, mesmo que esse não seja o objeto do processo. Ocorre que uma ação posterior à formação da coisa julgada na demanda de responsabilização civil para declaração de nulidade ou anulabilidade desse mesmo contrato necessariamente trará repercussão na primeira decisão.

A velha distinção entre motivos objetivos e subjetivos mais uma vez pode ser utilizada para solucionar esse anacrônico problema trazido pela sistemática aplicada pelo Código de Processo Civil atual que prestigia a técnica de propositura de ações declaratórias incidentais.

190 BARROSO Luís Roberto. Controle de constitucionalidade no direito brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 184.

Sobre a opção do Código de Processo Civil de 1973, se manifestou Alvim191 que

mesmo que o sistema vá favorecer a criação de decisões contraditórias, não se pode considerar o ponto prejudicial como albergado pela coisa julgada (a não ser que já o esteja por sentença proferida em outra ação). Fica a determinação do conteúdo do processo, assim, ao arbítrio das partes (por não quererem ou não poderem) levantar questões aplicando-se totalmente o princípio dispositivo, retrocedendo a posição individualista do processo.

A possibilidade de ligação dos motivos objetivos à parte dispositiva das sentenças poderia também suprir as lacunas existentes no sistema processual atual em virtude da imprecisão dos conceitos de julgamento implícito (artigo 468 do CPC) e do princípio do deduzido e dedutível (artigo 474 do CPC). Na realidade, sustentamos que todos esses conceitos devem ser colocados à disposição dos jurisdicionados, e de forma complementar, agirem para o fomento de segurança jurídica e estabilização das relações sociais.

191 ALVIM, Thereza. Questões prévias e limites da coisa julgada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997. p. 97.