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1 6 2 Teoria dos Protótipos e a prototipicidade nos agentivos

Os estudos dos sufixos –nte e –(d/t/s)or mostram, aparentemente, um caos

linguístico nas formações de palavras constituídas pelos mesmos devido a pelo menos dois fatores: (i) à similitude semântica entre os dois afixos, semelhança tal que é possível ter formações em –nte e –(d/t/s)or em um mesmo contexto vocabular, como,

por exemplo, em falante/ falador, governante/ governador, negociante/ negociador; (ii) à diversidade de grupos ou categorias lexicais que tais afixos abarcam: agentivos humanos, tanto os experienciadores ou executores de determinada ação, como também os profissionais, instrumentos, aparelhos, entre outros. Tem-se então os chamados

36 sufixos "polifuncionais". Nessa situação, o sufixo –(d/t/s)or indica agente em comprador e governador, que, vale salientar, são distintos tipos de agente; instrumento em abridor, aparelho em secador, etc.16

Para a organização dos dados, além de se levar em conta a história dos sufixos, pretende-se entender a lógica de tais formações através do conhecimento de uma teoria específica, a Teoria dos Protótipos, tanto no que concerne à sua origem como às ideias veiculadas a ela, com o intuito de entender e mapear não a polissemia de determinada palavra formada com os sufixos –nte ou –(d/t/s)or, mas a polissemia e desenvolvimento

do significado dos sufixos ao longo dos tempos.Por último, poder-se-á experimentar e avistar a aplicabilidade dessa teoria na organização dos grupos semânticos em –nte e –

(d/t/s)or, cujo resultado esperado é compreender e obter o panorama geral do emprego

desses sufixos.

O termo protótipo é originário do gr. πρωτότυπος "o primeiro tipo, de criação primitiva, primitivo", formado do antepositivo gr. πρωτος,η,ου "primeiro; o que está à frente; o excelente, o mais distinto, o principal" e do pospositivo τύπος "marca feita de golpe, marca impressa, figura, símbolo etc.", pelo lat. prōtŏtypŭs,ă,ŭm "protótipo, elementar, primitivo", e, em outras palavras, significa fonte ou modelo. Reportando ao estudo dos sufixos, o protótipo pode ser considerado uma fonte tanto formal como semântica, o ponto de partida para outras construções. No entanto, como seria possível conhecer a fonte, a primeira forma e significado de um elemento que, por exemplo, tem provável origem no séc. III a. C.?

No Curso de Linguística Geral, baseado nas aulas de Saussure (1970 [19161]: 251-254), aborda-se a questão do protótipo, discorrendo mais especificamente sobre o protótipo das línguas. Segundo o texto, a língua ou a fonte para o surgimento das outras línguas não pode ser conhecida a partir de um dialeto mais antigo, como se o primeiro dialeto conhecido pudesse conter previamente tudo quanto se poderia deduzir da análise dos dados subsequentes, mas ao procurar o ponto de convergência de todas as línguas ou dialetos, encontrar-se-ia uma forma mais antiga do que a língua mais antiga conhecida, ou seja, o protótipo, fazendo com que não houvesse confusão entre a língua mais antiga conhecida, suposta fonte, e a língua que, apesar de não conhecida, seria a

16 Já a formação de nome de lugar com o sufixo –dor não é comum no português, mas parece o ser um

37 fonte de todas as outras. Essa mesma reflexão cabe às unidades menores da língua, como os sufixos.

A ideia de categorização existe desde Aristóteles, a qual consiste na capacidade humana de identificar e categorizar objetos e eventos que compõem o seu universo. A categorização semântica, por sua vez, é uma teoria sobre a identificação e estruturação de conceitos. Na história da categorização, têm-se basicamente as seguintes fases:

1ª) Uma visão clássica de categorias, que abarca desde Aristóteles até o início da década de 70. Essa visão é baseada na lógica aristotélica, em que determinado item deve possuir atributos essenciais para fazer parte de certa categoria. Não há espaço para casos ou situações fronteiriças, cujo item deve necessariamente fazer parte ou não de certa categoria. Trata-se de uma visão objetivista do mundo, em que a categoria conceitual deve ser capaz de designar adequadamente as categorias do mundo real.

2) Uma visão prototípica de categorias proposta por Rosch, psicóloga e antropóloga, na década de 70, e outros. Rosch (1973), através de seus estudos, percebe que as categorias têm, em geral, membros centrais considerados os melhores exemplares (os chamados protótipos) formando o núcleo da categoria. Os protótipos têm características centrais necessárias para o desenvolvimento de outras subcategorias e, logo, são os membros mais representativos de uma categoria. Em outras palavras, os protótipos são os melhores exemplos, cujos membros são pontos de referência

cognitiva.

Segundo Lewandowska-Tomaszczyk (2007: 149), a teoria dos protótipos foi originalmente desenvolvida fora da esfera lexical. Sugestões nessa direção foram primeiramente formuladas dentro da filosofia por Wittgenstein (1953), estudioso que mostrou que membros de categorias são relacionados pelo o que ele chamou de

semelhança familiar, que envolve o compartilhamento de algumas características entre

os membros de classes distintas, sendo que nenhuma dessas características, no entanto, são suficientes para que os membros formem parte de uma só classe. Ao ser representado em um esquema, onde há, por exemplo, três categorias, A, B e C, os membros desses grupos terão propriedades diferentes e coincidentes entre si. O grupo A, por exemplo, possui as características x, y, z; o B, as características i, j, z; e o C, por sua vez, p, q, j. Assim, os membros da classe A compartilham uma propriedade com a classe

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características comuns.

Na psicologia, Rosch (1973) e outros estabelecem mais firmemente essa concepção de protótipo como base para a categorização lexical, devido a uma pesquisa em psicolinguística sobre a estrutura interna das categorias. De acordo com essa teoria, a junção a uma categoria não é determinada por certo número de características necessárias e suficientes. A adesão a uma categoria é mais gradativa do que absoluta, formando membros centrais e periféricos. O melhor exemplo para a sua categoria é o seu protótipo, cuja função é interpretar o valor da categoria do termo. Embora os membros periféricos sejam menos representativos para a categoria como um todo, eles não são excluídos dela, mas se deve atentar para o fato de que as categorias devem ter algum tipo de estrutura interna, formando o que se chama de "adesão gradual".

O protótipo e suas variações gradativas podem ser resultado das funções conceituais como pontos mentais de referência. Quando nos deparamos com novos fenômenos, tendemos a interpretá-los nos termos das categorias existentes. Essas categorias então funcionam como modelos cognitivos idealizados (Lakoff, 1987), sendo o padrão pelo qual medimos novos objetos e eventos. Diferentes graus de combinação podem ser observados entre um modelo cognitivo idealizado a um dado objeto ou evento e o objeto e evento em particular.

Geeraerts (1989) propõe que a teoria dos protótipos abarque as seguintes características:

a.) As categorias prototípicas manifestam graus de tipicidade, no qual nem todos os membros são igualmente representativos para uma categoria. Desse modo, há o reconhecimento de que a adesão a uma categoria pode possuir graus de classificação, em que alguns membros são melhores e mais típicos representantes de uma categoria do que outros.

b.) Categorias prototípicas possuem muitas vezes limites não reconhecidos.

c.) Categorias prototípicas não podem ser definidas pelo significado de um único grupo de atributos, considerando-os como necessários e suficientes.

d.) Categorias prototípicas exibem uma família de estrutura semelhante, em que a estrutura semântica de um grupo irradia leituras agrupadas e coincidentes.

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A teoria dos protótipos enfatiza aspectos estruturais como fator determinante para a prototipicidade: quanto mais atributos um membro da categoria tem em comum com os outros membros da categoria, e poucos atributos em comum com membros de categorias contrárias, mais prototípico ele é (Rosch 1977: 350). A concepção de categorização desenvolvida por Rosch se torna então importante para a linguística, pois um dos mais fundamentais fenômenos observados na linguagem é a existência de uma diversidade de significados relacionados e expressos seja por uma mesma palavra ou até por um mesmo morfema.