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A Teoria Interpretativa da Mente e o Caráter Nomológico

5. A VALORIZAÇÃO DO VOCABULÁRIO FISICALISTA E A

5.3. O PROBLEMA NOMOLÓGICO DA EXPLICAÇÃO DE EVENTOS

5.3.1. A Teoria Interpretativa da Mente e o Caráter Nomológico

Causa-efeito

Davidson (1980), em Ensaios sobre Ações e Eventos (Essays on Actions and Events), defende a tese de que uma explicação teria uma forma causal quando se verifica a racionalização, isto é, quando uma razão se constitui na razão pela qual o agente concretizou a ação em causa, causando assim algo no mundo. Esse processo seria verificado quando, por introspecção, um agente descreve as atitudes em favor (atitudes pro) da sua ação, atribuindo intenções (crenças, desejos, esperanças, receios, etc.) a esta. Essas atribuições intencionais à ação seriam denominadas atitudes proposicionais96. Assim, as ações poderiam ser compreendidas como sendo causadas por razões, pois seriam as próprias descrições intencionais dos eventos97 que as distinguiria (as ações) de outros eventos mundanos.

Todavia, Davidson (1980) destaca a importância de incluirmos o que é exigido para se interpretar a fala, ao passo em que a racionalização tanto diria respeito à mobilização dos meios mais adequados para uma dada finalidade quanto à atribuição intencional de razões à ação, mesmo que não se contasse com tal sucesso instrumental teleológico ou ainda que a ação não fosse justificável (por

96 O termo atitude, cunhado por Bertrand Russell (1872-1970), com base no conceito de intencionalidade

resgatado dos escolásticos por Franz Brentano (1838-1917), que dizer um modo de apresentação de um conteúdo intencional, utilizado por um sujeito no sentido de uma instância mental em direção a um dado conteúdo e caracterizada por um verbo psicológico. Tal conteúdo é geralmente especificado por uma oração iniciada por “que” que introduz uma afirmação ou proposição ou, alternativamente, por uma frase começando pelo infinitivo de um verbo, o que leva os estados intencionais a serem compreendidos também como atitudes proposicionais. (MALIN, 2009, p. 23-24; grifo nosso).

exemplo, moralmente). A prioridade seria a inteligibilidade da ação, o que permite verificar se ela está ou não de acordo com o conjunto de crenças e desejos do agente, compreendidos como disposições à ação. Somente a partir disto poder-se-ia verificar se ela é ou não racional. Os casos de irracionalidade98 seriam casos em que o agente violaria o princípio da continência.

Ao fazer x, um agente atua de maneira incontinente se e somente se: (a) o agente fizer x intencionalmente; (b) o agente crê que há uma ação alternativa y; e (c) o agente julga que considerando todas as alternativas, seria melhor fazer y do que fazer x. (DAVIDSON, 1980, p. 22; tradução nossa).

Diferentemente dos animais, os homens possuiriam, além de crenças instintivas (disposições-passivas para agir), a capacidade voluntária de controlar suas crenças e utilizá-las como regras para a ação. Neste caso, as crenças seriam disposições-ativas para agir em se assentir a elas e julgá-las como mais prováveis, segundo regras, o que ampliaria as possibilidades da ação.

Mas até que ponto a introspecção seria um meio confiável de acesso às verdadeiras razões que nos levam a agir de um modo e não de outro? Frases do tipo “S crê que p” teria condições de verdade objetiva. Como percebe Cadilha (2006), parece que em casos, por exemplo, de confabulação (confabulation)99 ou de auto-engano (self-deception)100, o caminho da introspecção não poderia ser o mais adequado. Diversas vezes podemos achar que sabemos quais razões são as causas das nossas ações, enquanto na realidade as razões verdadeiras seriam outras que não queremos assumir e, portanto, criamos razões que agreguem sentido às nossas ações, ou ainda que nem sequer percebemo-las.

98 Um exemplo de caso de irracionalidade seria a akrasia, quando um agente livre, sabendo qual seria a melhor

ação a tomar, age intencional e contrariamente a tal juízo.

99

“Os casos de confabulação em pessoas mentalmente saudáveis parecem dar azo à ideia de que podemos julgar ter feito algo em virtude de determinadas razões, e apresentá-las, mas de fato nada nos garante que tenha sido por elas que agimos como agimos. Na realidade, podemos mesmo não saber que razões causam as nossas ações, mas continuamente criamos a ideia de que sim, para que tais ações façam para nós sentido.” (CADILHA, 2006, p. 148).

100 “É um caso paradigmático de uma situação em que estão em jogo crenças e desejos inconscientes que

tornam o processo de racionalização problemático. Numa tal situação, o que se passa é que alguém acredita que não-p apesar de todas as evidências lhe indicarem que p. Dado que p surge ao agente como tratando-se de algo desagradável, que ele deseja que não fosse real, ele desenvolve a crença, apresentando razões nesse sentido, de que tal não é de fato o caso. E age de acordo com essas razões.” (CADILHA, 2006, p. 146).

Davidson (1980) defende que ao menos alguns eventos mentais interagem (em uma “via de mão dupla”) causalmente com eventos físicos (princípio da interação causal), sendo que tais eventos são justamente os que permitem com que nos consideremos os responsáveis por nossas ações, isto é, enquanto agentes. Mas isto não é suficiente para que nossas ações tenham sentido no mundo. O problema do significado requereria, segundo a teoria davidsoniana da interpretação, que as nossas ações também fossem a efetivação (objetiva/física) de finalidades (mentais/subjetivas).

Contudo, não se trata de sustentar, na perspectiva de Davidson, duas realidades ontologicamente distintas, mas sim que os eventos físicos possam também, segundo a sua tese do monismo anômalo, ser descritos do ponto de vista mentalista101, e, assim sendo, não poderiam ser submetidos às leis causais do mundo físico, o que os caracterizariam como eventos anômalos.

Em seu artigo Mental Events, de 1970, Davidson argumenta:

Embora a posição que descrevo negue que existam leis psicofísicas, é consistente com a visão de que características mentais são, de algum modo, dependentes, ou supervenientes, a características físicas. Deve-se tratar da superveniência como significando que não pode haver dois eventos fisicamente similares em todos os aspectos, porém diferindo com respeito aos aspectos mentais, ou que um objeto não pode mudar em algum aspecto mental sem alterar em algum aspecto físico. (DAVIDSON, 1970, p. 141; grifo e tradução nossa).

Para que essa tese não seja contraditória à sua perspectiva monista fisicalista, porém, na qual é possível que haja eventos mentais que não se submetem às leis causais físicas, Davidson a sustenta na lógica da teoria da identidade entre tokens (sinais particulares, espécimes)102: a partir da noção de ação, um evento descrito como mental, por causar algo no mundo, seria também um evento físico e, deste ponto de vista, teria um caráter nomológico, não se tratando de epifenômenos. Nas palavras de Davidson (1980, p. 215; tradução nossa),

a causalidade e a identidade são relações entre eventos individuais independentemente de como estes são descritos. Mas as leis são linguísticas; e por isso os eventos podem instanciar leis, e dessa forma serem explicados ou previstos à luz dessas leis, apenas na medida em que

101 O que pode ser entendido como um dualismo conceitual.

eles são descritos de uma determinada forma. [...] O Princípio do caráter nomológico da causalidade deve ser lido cuidadosamente: ele afirma que quando os eventos se relacionam em termos de causa-efeito, eles apresentam descrições que instanciam uma lei. Não diz que cada afirmação singular verdadeira de causalidade instancia uma lei.

Nesse sentido, se um evento mental é idêntico a um evento físico, ele o é enquanto um evento individual e particular (mental) que ocorre circunstancial e conjuntamente ao outro (físico). O mental, compreendido holisticamente (eventos mentais são inter-relacionados a outros), poderia ser descrito fisicamente, mas não poderia ser nomologicamente reduzido ao mundo físico.

Quando perguntamos por que alguém agiu como o fez, queremos ser providos com uma interpretação. [...] Quando aprendemos sua razão, temos uma interpretação, uma nova descrição da ação que realizou, que a ajusta a uma imagem familiar. A imagem inclui algumas de suas crenças e atitudes [...]. Para além disso, a redescrição de uma ação proporcionada por uma razão pode colocar a ação em um contexto social, econômico, linguístico ou avaliativo maior. [...] É um erro pensar que colocar a ação em um padrão mais abrangente a explica, disso entendamos o tipo de explicação envolvida. Falar-se em padrões e contextos não responde à questão de como razões explicam as ações, já que o padrão ou contexto relevante contém tanto a razão como a ação. Uma maneira de explicar um evento é colocá-lo no contexto de suas causas; causa e efeito formam o tipo de padrão que explica o efeito, em um sentido de ‘explicar’ que entendemos tão bem quanto qualquer outro. Se razão e ação ilustram um padrão diferente de explicação, este padrão deve ser identificado. (DAVIDSON, 1980 p. 9-10; tradução nossa).

A ideia sustentada na concepção davidsoniana é a de que não há leis psicofísicas para que as razões expliquem as ações, mas há como explicá-las colocando-as no contexto de suas causas, isto é, mediante a atribuição de razões pelo agente às suas ações, o que denotaria um padrão atípico de explicação, mas não deixaria de expressar um padrão. Davidson (1980, p. 222; tradução nossa) considera ser “[...] característico do mental que a atribuição de fenômenos mentais dependa do background de razões, crenças e intenções do indivíduo”. O seguinte esquema pode ajudar a explanar melhor a concepção davidsoniana.

Figura 8: ESQUEMA DA EXPLICAÇÃO CAUSAL DE EVENTOS MENTAIS

FONTE: A Autora

Contudo, precisamos interrogar se a introspecção seria um meio adequado para verificarmos se a ação está ou não de acordo com o conjunto de crenças e desejos do agente.

Nessa perspectiva,

[...] as atribuições de atitudes proposicionais individuais se baseiam numa teoria da interpretação implícita. Uma atribuição de uma crença, desejo ou intenção só é correta caso seja implicada por uma teoria-I satisfeita pelo agente. [...] No entanto, a própria atividade da interpretação envolve, de modo evidente, que os próprios intérpretes possuam atitudes proposicionais. E isto aponta para uma regressão [...]. (HEIL, 2001, p. 193- 194)

De que maneira outra pessoa, que não o agente, poderia explicar (metalinguagem) o que está incluído na sua compreensão sobre as declarações do agente (linguagem objeto), no caso deste explicitar uma coleção finita de regras que associam uma significação ou uma condição de verdade a cada uma das frases que ele profere?

Eventos Mentais

(caráter holístico)

Razões

(atribuídas pelo agente como causas da ação)

AÇÃO

(identificação contingente)

Explicação causal: descrição da ação de acordo com as razões > padrões atípicos

(leis) - caráter linguístico/irredutível ficamente

Eventos Físicos ("causados"

A interpretação da fala requereria a compreensão de tudo o que é exigido para isto, quer dizer, uma compreensão integral da linguagem103. Compreender uma palavra seria compreender seu papel significativo nas frases, de modo que a compreensão efetiva da declaração de uma frase por um intérprete dependeria da sua capacidade e condição de compreendê-la em um número indefinido de frases, isto é, de associar significações ou condições de verdade às declarações reais ou possíveis, o que corresponderia em decifrar as atitudes proposicionais (crenças, desejos e intenções) de quem declara, nas ocasiões particulares em que declara. Dessa forma, a consideração de uma frase como verdadeira dependeria daquilo que acredito, enquanto intérprete, e do que suponho que a frase significa.

Em sua teoria da interpretação, Davidson inclui, além da teoria da verdade, a teoria da decisão, que pressupõe o princípio de caridade, qual seja a consideração pelo intérprete de que o declarante exibe um repertório transitivo de escolhas e está sendo sincero ao declarar, bem como a adaptação da interpretação pelo próprio intérprete a fim de otimizar a verdade das crenças daquele que declara, a partir de um domínio já compreendido de teorias da verdade e teorias da decisão. Há que se sublinhar que as explanações da atitude proposicional têm um sustentáculo holístico, pois, a atribuição de uma crença aparentemente particular, requer a atribuição implícita de várias outras crenças a ela relacionadas e inerentes à teoria da interpretação invocada antecipadamente, além de uma comunidade de atribuintes, em que ocorreria a mútua interpretação de uns aos outros, de modos variados. Assim, um gênero particular de teoria – irredutível fisicamente – poderia explicar uma parcela da estrutura de certos gêneros de sistemas disposicionais

103 Quer dizer, no mínimo, a posse de uma técnica (ou teoria da verdade/teoria-V), enquanto uma coleção de

princípios ou recursos que lhe permitem associar uma significação literal (ou condição de verdade) a cada uma das minhas declarações, entendendo-se que uma teoria da verdade teria de fazer uso da composição estrutural da linguagem. Mas, se é possível atribuir uma teoria da verdade – conforme criada por Alfred Tarski, na esteira das linguagens formais (em que as teorias da verdade são finitas) – “a uma linguagem natural (um grande se), as frases-V implicadas por essa teoria devem refletir, ou pelo menos aproximar, os juízos dos locutores nativos sobre a significação. [...] Moral da história: uma teoria-V faz mais do que simplesmente associar frases e condições de verdade; fá-lo de maneira a distinguir as frases que diferem em significação, não obstante serem verdadeiras ou falsas sob as mesmas circunstâncias. Este resultado é assegurado pela necessidade que têm as teorias-V de incorporar conjuntos finitos de regras.” (HEIL, 2001, p. 171-173). Contudo, tanto os seres que usam as linguagens formais quanto todos os usuários das linguagens naturais são finitos. “Isto sugere que, qualquer que seja a nossa compreensão de uma linguagem, ela não se limita à nossa aprendizagem de associar uma significação particular ou condição de verdade com todas as frases significativas. [...] As regras em questão, aqui, não são regras que o leitor tem em mente ou aplica conscientemente. Neste aspecto, parecem- se com as regras que aprendemos quando aprendemos a jogar um jogo, jogando-o” (HEIL, 2001. p. 173).

complexos (algumas das razões), de base de nossas ações, se for satisfeita pelo agente, embora não os descreva como mecanismos, em um nível neurofuncional.

Contudo, poderíamos supor que somos capazes de compreender o sentido de frases cujas palavras desconhecemos conforme as relacionamos a frases e seus sentidos que nos são familiares. Mas se não compreendemos minimamente a própria língua na qual ocorrem tais declarações, a significação dependeria de outros fatores ou não ocorreria. Esses fatores poderiam ser o contexto em que são proferidas e o comportamento linguístico do locutor, incluído sua expressão corporal, de modo a invocar os recursos disponíveis desse “intérprete radical”, que também tem atitudes proposicionais, as quais dependem de alguém que as interpretem e assim sucessivamente. Como Davidson coloca essa exigência de uma comunidade de atribuintes para a prática de apresentar teorias e de atribuir atitudes proposicionais, teríamos de pensar como resolver, pelo menos, duas incógnitas básicas: em que se apoiaria outro intérprete para saber verdadeiramente o mesmo que o agente sabe sendo que não há relação causal entre as duas interpretações? E, ao mesmo tempo, como não regressaríamos ad infinitum ao tentar compreender frases relacionando suas palavras que desconhecemos aos seus sentidos para nós familiares em outras frases? A tais questões também se soma a questão: o que seriam as proposições em si? Tratar-se-iam de entidades abstratas?

5.3.2. A Crítica Sellarsiana à Dadidade e sua Concepção de Episódios Internos