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2.3 Embasamento teórico

2.3.1 Teoria Transformacional

A descrição linguística realizada neste trabalho tem como arcabouço teórico o Léxico-Gramática (GROSS,1975) que, por sua vez, é baseado na Teoria Transformacional de Harris (1964), Harris (1965), que passa a ser explicitada com mais detalhes nesta subseção.

SegundoHarris (1964), cada transformação é composta não de mudanças separadas em várias partes de uma sentença, mas de apenas uma mudança transformacional sobre toda a sentença. Esse autor apresenta a nomenclatura de sentenças K (kernel) para as frases elementares, ou seja, aquelas sobre as quais as transformações são aplicadas. Já as transformações são nomeadas pela letra grega φ (fi).

Como apresentado por Harris (1965), as sentenças kernel não são somente formas curtas ou simples, mas são também compostas por um vocabulário simples e restrito, formado principalmente por substantivos concretos, verbos, adjetivos e palavras uni-morfêmicas. As frases elementares não apresentam a maioria das palavras derivadas morfologicamente, já que a inserção de afixos acontece quando ocorre a transformação. Por exemplo, as palavras teoria e teorizar aparecem em sentenças relacionadas transfor-macionalmente, como:

He made a theory about this, He theorized about this (Ele fez uma teoria sobre isso, Ele teorizou sobre isso)

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De acordo com Harris(1964), as transformações elementares constituem, para as sentenças de uma língua, mais um sistema de conectivos do que de derivação. Esse autor apresenta que, para o inglês, existe uma pequena quantidade de frases elementares e de transformações básicas, como:

1. sentenças K = Σ V Ω (Σ = N; Ω = zero, N, PN, ou outra forma de ocorrência do objeto) 1;

2. três tipos de aumentos em K: inserções em K ou em partes de K, normalmente pequenas, e de classes pequenas, exceto pelos advérbios; operadores nos verbos (V ) e em K que se tornam eles mesmos o V da estrutura semelhante a K; conectivos que unem uma segunda K à primeira;

3. a remoção de material que se torna redundante quando duas entidades (K, inserção ou operador) estão justapostas em concordância com (2). O apagamento ocorre de forma que a resultante mantenha uma estrutura parecida com K;

4. extensões analógicas dessas operações e de suas inversões para subcategorias nas quais as operações não tinham sido definidas, mas de forma a produzir novas sentenças com estruturas similares às sentenças existentes. Apenas raramente isso envolve a criação de novas relações transformacionais;

5. poucas operações que permutam as partes de uma K de forma que a estrutura resultante não seja parecida com K.

Acima de tudo: toda informação real está contida em K e nas operações de aumento. Remoção de redundância, extensões analógicas e as permutações não sintáticas variam o estilo ou o carácter subjetivo de uma sentença mas não sua informação. Toda sentença S pode ser mapeada por essas transformações a K e aos aumentos que ela contém (em sua interrelação particular) (HARRIS, 1964).

Harris (1965) apresenta as partes (string analysis) que compõem a frase However,

a sample which a young naturalist can obtain directly is often of value (Entretanto, uma amostra que um jovem naturalista pode obter diretamente é frequentemente de valor). São elas:

1. sentença central: a sample is of value (uma amostra é de valor); 2. adjunto em 1: however (contudo);

3. adjunto à direita no sujeito de 1: which a naturalist can obtain (que um naturalista

pode obter);

1 Nas análises deHarris(1964), Σ é utilizada para representar o sujeito e Ω, para representar o objeto.

4. adjunto à esquerda no sujeito de 3: young (jovem); 5. adjunto (à direita) no verbo de 3: directly (diretamente); 6. adjunto em 1: often (frequentemente).

Existe ainda outro tipo de decomposição de sentenças, segundo a análise transfor-macional: em sentenças e operações, mais especificamente em setenças elementares K e operações elementares φ, que operam em K e φ. As transformações decompõem a sentença em sentenças. Dessa forma, a frase However, a sample which a young naturalist can obtain

directly is often of value (Entretanto, uma amostra que um jovem naturalista pode obter diretamente é frequentemente de valor) teria a seguinte decomposição:

1. sentença elementar: a sample has value (uma amostra tem valor);

2. sentença elementar: a naturalist obtains a sample (um naturalista obtém uma

amos-tra);

3. sentença elementar: a naturalist is young (um naturalista é jovem);

4. however (entretanto) (sentença inserida) operando na sentença 1, produzindo uma sentença;

5. often (frequentemente) (sentença inserida) operando na sentença 1, produzindo uma sentença;

6. has N - is of N (tem N - é de N) (para uma certa categoria de N ); 7. wh- conectivo nas sentenças 1, 2, produzindo uma sentença;

8. can (pode) (verbo-operador) na sentença 2;

9. directly (diretamente) (inserção adverbial) na sentença 2; 10. wh- conectivo nas sentenças 2, 3, produzindo uma sentença;

11. apagamento de quem é (who is) com a permutação do restante da sentença 3. Segundo Harris (1965), a análise transformacional é relevante para os linguistas porque (1) fornece critérios formais e razoáveis para decompor uma sentença em vários outras, por meio de um conjunto razoavelmente pequeno de transformações; (2) o conjunto de sentenças de uma língua tem uma estrutura interessante que apresenta uma interpretação semântica, sob as operações transformacionais e (3) o conjunto de transformações também tem uma estrutura interessante, não sendo meramente uma lista arbitrária de operações para decompôr sentenças.

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Para Harris (1965), cada transformação se utiliza das palavras que estão em posições específicas de uma ou de duas sequências e as coloca em posições específicas de uma sequência, com a possibilidade de adicionar algumas constantes (incluindo adjuntos primitivos e operadores) e apagamentos. Isso obedece a dois fatos: que sentenças têm uma estrutura limitada e que as transformações operam em uma sentença, ou em duas, para produzir uma sentença.

SegundoHarris (1965), as transformações têm duas propriedades: 1) elas distribuem certas mudanças em partes específicas de uma sentença A; 2) o resultado é uma sentença

B, que tem a mesma aceitabilidade da ordem de A.

Harris (1965) apresenta como transformações elementares:

1. Inserções locais, sentenciais e adverbiais: elas não afetam a sintaxe das partes da sentença onde são inseridas;

2. Operadores U, W2 em verbos e em sentenças, que introduzem um novo verbo, causando a alteração do verbo original como objeto ou sujeito do novo verbo; 3. Conectivos, que encabeçam uma sentença e podem causar uma deformação nela; 4. Apagamento de material redundante: há a queda de palavras, cuja presença pode

ser reconstruída pelo contexto. Normalmente essas palavras são as “apropriadas”, as repetidas e pronomes indefinidos (resultantes de disjunções ou conjunções de sentenças).

As palavras “apropriadas” são aquelas que são consideradas como as mais apropriadas para ocorrerem em um determinado contexto. Por exemplo, de violin-merchant pode-se reconstruir violin-pode-selling merchant, ou pode-seja, pode-selling é a palavra apropriada nespode-se contexto.

Pode-se notar um apagamento nas orações imperativas, como em:

I request you that (please) take it (Eu peço que você (por favor) pegue isso) I request you: (Please) take it (Eu peço a você: (Por favor) pegue isso) (Please) take it! ((Por favor) pegue isso!)

Nota-se o apagamento de pronomes indefinidos em:

2 SegundoGiry-Schneider(1978, p. 14), os verbos-suporte podem ser considerados um tipo de operadores

U, pois eles se aplicam ao elemento V da frase núcleo e a relação entre as duas frases é considerada

uma transformação de inserção. Já os operadores W são aqueles que se aplicam a uma frase toda, como o verbo dizer em: Paul dit que Jean pleure (Paul diz que Jean chora) que “opera” sobre toda a frase Jean chora.

The place has been taken (O lugar foi tomado)

The place has been taken by someone (O lugar foi tomado por alguém)

Harris (1965) define que a análise transformacional agrupa sentenças que têm as mesmas sentenças kernel (elementares), ou as mesmas transformações, isto é, cada transformação é um conjunto de pares de sentenças, e a teoria transformacional cria ou caracteriza esses pares. Segundo esse autor, as transformações em inglês podem se apresentar de algumas formas que parecem ocorrer também em muitas outras línguas. São elas:

• Unárias: são aquelas em que as categorias das palavras são mudadas, normalmente com a adição de algumas palavras constantes ou morfemas. Nesses casos, pratica-mente não há mudança de sentido, por exemplo, entre a voz ativa e a voz passiva. Um tipo de transformação unária é aquela que permuta partes de uma sentença elementar sem adicionar nenhuma constante, de forma a produzir uma sentença que difere de uma sentença elementar da língua, como em:

I like this, This I like (Eu gosto disso, Disso eu gosto)

Outro tipo de transformação unária é a adição de material pleonástico de uma maneira que não destrua a forma da sentença elementar, por exemplo, sendo a adição em forma de uma inserção, como em:

The man came, He came (O homem veio, Ele veio)

Harris (1965) também apresenta como outra importante transformação, a substitui-ção de palavras (principalmente substantivos) por pronomes, como em:

He learned a lesson, He learned his lesson (Ele aprendeu uma lição, Ele aprendeu sua lição)

Outra transformação é a substituição de um verbo semanticamente fraco por outro ou por sufixos verbais, como em:

It has value, It is of value (Isso tem valor, Isso é de valor)

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ficou em uma sala lá)

Existe também a substituição do sujeito pelo objeto, o que é nomeado por Harris

(1965) de middle (voz média), pois estaria entre a voz ativa e a passiva, como em:

I attach this interpretation to your words, This interpretation attaches to your words (Eu uno essa interpretação a suas palavras, Esta interpretação se une a suas palavras)

Outra transformação é aquela que espelha uma sentença no verbo ser, como em:

Mathematics is his forte, His forte is mathematics (Matemática é seu forte, Seu forte é matemática)

Existem também as transformações em que o sujeito é substituído pelo objeto ou por um objeto indireto, como é o caso da passiva, das transformações parecidas com a passiva e da elevação do instrumental à posição de sujeito, em:

He saw the man, The man was seen by him (Ele viu o homem, O homem foi visto por ele)

The plan involves him, He is involved in the plan (O plano o involve, Ele está involvido no plano)

He cut the meat with a knife, The knife cut the meat (Ele cortou a carne com a faca, A faca cortou a carne)

Outra classe de transformações unárias são as extrações e o apagamento dos prono-mes indefinidos, como em:

He read all day, He read things all day (Ele lê todo dia, Ele lê coisas todo dia). • Adição não sentencial

SegundoHarris(1965), esse tipo de transformação, diferentemente das transformações unárias que rearranjam as palavras de uma sentença, com alguns apagamentos ou adição de constantes ou repetições, a adição não sentencial adiciona à sentença uma categoria inteira de palavras. Essas inserções podem ser de alguns tipos, como:

1. inserções locais: insere pequenas categorias, como muito à esquerda de um adjetivo (A);

2. inserções de tempo: insere formas que causam alteração no tempo verbal, como os auxiliares may, can (poder) à esquerda do verbo;

3. inserções de sentença: ocorrem em todas as posições, antes ou depois de qualquer símbolo de uma sentença elementar, como contudo, em geral;

4. inserções adverbiais (D): normalmente advérbios terminados por mente; 5. todos os verbos-operadores: alteram o verbo original, podendo adicionar ou

mudar uma preposição antes do N2, que é o objeto do antigo verbo, como em:

He is writing a story (Ele está escrevendo uma história), He has written a story (Ele escreveu uma história)

• Binárias: conforme apresenta Harris (1965), elas são as operações que operam em duas sentenças para produzir uma sentença resultante. A maior parte das transforma-ções conjunturais não altera a primeira sentença e adiciona um conectivo C ou uma deformação ou ambas à segunda sentença, ficando essa, totalmente ou parcialmente, na posição de um adjunto em relação à primeira. Nota-se isso com o conectivo e nas frases:

The man talked, The man drove (O homem conversou, O homem dirigiu) The man talked and the man drove (O homem conversou e o homem dirigiu)

Com relação às conjunções coordenadas, e não requer diferenças, ou requer pelo menos uma diferença, mas requer uma diferença entre os predicados também:

Years passed and years passed (Anos passaram e anos passaram) He will go or she will go (Ele irá ou ela irá)

He bought books but she bought flowers (Ele comprou livros mas ela comprou flores)

• Unárias em adições e Binárias

Esses tipos de transformação permutam, repetem e apagam várias partes (símbolos) das sentenças resultantes, e adicionam resultantes, como ocorre em:

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They recognize that he came, That he came is reconized by them (Eles reconhecem que ele veio, Que ele veio é reconhecido por eles)

Uma das características da Teoria Transformacional (HARRIS, 1964; HARRIS,

1965) que se relaciona com esta pesquisa é o pressuposto da frase de base, ou elementar, que é utilizada como a fonte das análises, ou seja, elas é que foram utilizadas como os exemplos de ocorrência dos nomes predicativos analisados e como a fonte para a análise das propriedades dos predicados nominais.

As transformações também são abordadas nesta pesquisa, como é o caso da nominalização, que Harris(1965) apresenta relacionando as palavras teoria e teorizar, que ocorrem em construções nominais e verbais, como em:

Zé fez uma teoria sobre os verbos Zé teorizou sobre os verbos

Também adota-se a ideia levantada porHarris (1964) de que a informação contida na sentença permanece a mesma, mesmo quando ocorre uma transformação, como se nota em:

Zé faz a administração da empresa - ExCt

A administração da empresa é feita por Zé - ExCt

Nesse exemplo, ocorre a transformação da apassivação, em que o nome predicativo

administração, juntamente com seu complemento preposicionado da empresa, passam de predicado a sujeito da passiva. O verbo-suporte fazer é substituído pelo verbo ser mais o particípio perfeito do verbo fazer e o sujeito da voz ativa se torna o agente da passiva, porém, a informação contida na voz ativa não é alterada na voz passiva.

Outro conceito apresentado por Harris(1964) que foi levado em consideração é o da aceitabilidade das sentenças transformadas, ou seja, uma sentença formada por meio de qualquer uma das transformações deve ser aceitável, como também são as frases de base.

Lidou-se também com três tipos de transformações unárias queHarris (1965) apre-senta, sendo estas: a apassivação (já abordada), a substituição de um verbo semanticamente fraco por outro e a elevação do instrumental à posição de sujeito.

Como substituição de um verbo semanticamente fraco por outro, adotou-se a existência de variantes aspectuais e estilísticas para o verbo-suporte fazer, ou seja, outros

verbos-suporte que se constroem com os mesmos nomes predicativos que fazer, como ocorre com pesquisa, em:

Zé fez uma pesquisa sobre mamíferos - ExCt

Zé realizou uma pesquisa sobre mamíferos - ExCt

Nesse exemplo ocorre a substituição do suporte fazer pelo também verbo-suporte realizar quando se constroem com o nome predicativo pesquisa. Observa-se que a informação contida na frase de base é a mesma na frase transformada e que esta também é aceitável. O estudo sobre as variantes de fazer é apresentado com mais detalhes em 4.4.

Com relação à elevação do instrumental à posição de sujeito, optou-se por apenas considerar a frase de base, ou seja, aquela que possui o sujeito nome humano e não o instrumental. Assim, um nome como absorção que pode ocorrer em uma frase com o ins-trumental na posição de sujeito, teve suas propriedades analisadas segundo sua ocorrência numa frase de base, com o sujeito nome humano, como se nota em:

Zé fez a absorção da água com uma esponja - ExCt (frase de base)

A esponja fez a absorção da água

Uma explicação mais detalhada sobre esses casos pode ser encontrada no capítulo

5.

Após a exposição de algumas características da Teoria Transformacional (HARRIS,

1964; HARRIS, 1965), passa-se na subseção 2.3.2 a apresentar a Léxico-Gramática (GROSS,1975), que se baseia na citada teoria harissiana.

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