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CAPÍTULO II: O ENSINO DE LÍNGUAS

2.3 TEORIAS DE AQUISIÇÃO DE LÍNGUA MATERNA (LM)

2.3.2 Teorias de aquisição de língua estrangeira (LE)

Os behavioristas atentam tanto para o aprendizado de LM quanto para o de LE, na aquisição da língua por meio da imitação e da prática, isto é, por meio do estímulo e resposta. Para os seguidores do inatismo de Chomsky, a GU é que é levada em conta. Com esse conhecimento inato, a criança formularia hipóteses e faria testes para decifrar o código da linguagem. Todavia, há divergências entre os teóricos dessa abordagem quando, de um lado, deparam-se com a explicação, pela GU, de que alguns aprendizes de LE sabem mais do segundo idioma do que deveriam saber; e, por outro lado, linguistas afirmam que não é possível se valer da GU quando o aprendiz já passou pelo período crítico de aquisição da linguagem, isto é, quando este já se encontra na fase adulta.

Influenciado pela teoria chomskiana, Stephen Krashen (1981 apud BROWN, 2007), com sua teoria denominada Modelo Monitor, propõe algumas hipóteses em relação à aquisição de LE. A primeira, chamada de hipótese da aquisição-aprendizagem (Acquisition- Learning Hypothesis), ressalta que a aquisição de uma LE depende da "aquisição" (processo subconsciente e intuitivo, responsável pelo entendimento e pela capacidade de comunicação criativa); e da "aprendizagem" (aprendizado consciente e dependente do esforço intelectual do aprendiz no entendimento das regras gramaticais, na formação das sentenças etc.). No entanto, para Krashen, ser fluente em outro idioma depende do que adquirimos e não do que aprendemos; assim, para ele, em sala de aula deve-se ter uma grande dose de aquisição e uma mínima dose de aprendizagem.

51 A segunda, hipótese do monitor (Monitor Hypothesis), refere-se à relação entre aprendizagem e aquisição. A aprendizagem influenciaria o processo de aquisição. Os esforços feitos pelo aprendiz para adquirir a LE são policiados pelo conhecimento consciente dos sistemas linguísticos e regras gramaticais do idioma aprendido. Contudo, para não impedir a aquisição da língua, esse policiamento quanto às regras gramaticais necessita ser evitado ao máximo.

A hipótese da ordem natural (Natural Order Hypothesis) baseia-se em estudos anteriores de Dulay e Burt (1974 apud BROWN, 2007), entre outros pesquisadores, os quais defendem que a aquisição de algumas estruturas gramaticais acontece em uma ordem previsível e natural. No entanto, Krashen rejeita qualquer aprendizagem que utilize uma ordem gramatical; para ele, o objetivo é a aquisição da linguagem.

A fim de explicar como um aprendiz adquire a LE, o teórico fundamenta-se na hipótese do input (Input Hypothesis), em que a ênfase é novamente dada à aquisição e não à aprendizagem. Aqui, o aprendiz deve ser o tempo todo exposto a desafios, ou seja, ele precisa receber, principalmente por meio da audição e da leitura, uma dose de conhecimentos que vão além dos que já possui. Para exemplificar esse processo, Krashen (1981) diz que, se o aprendiz se encontra em um nível 'i', o input (informações adquiridas) que ele receberá deverá conter 'i' + 1. O autor recomenda que a fala (speaking) não seja estimulada a princípio, por isso a ênfase nas outras habilidades11. Para haver o output (utilização das informações adquiridas), o aprendiz precisa, primeiramente, receber uma grande dose de inputs.

A hipótese do filtro afetivo (Affective Filter Hypothesis) diz respeito a fatores como motivação, autoconfiança e ansiedade. Dependendo do nível em que se encontram esses filtros afetivos, pode haver um comprometimento, ou não, do processo de aquisição da linguagem.

Considerando as cinco hipóteses de Krashen, pode-se dizer que alguns professores de línguas e algumas escolas de idiomas utilizam-se da hipótese central de que menos

11 São quatro as habilidades adquiridas na aquisição de idiomas: fala (speaking), audição (listening), leitura

52 "aprendizagem" na sala de aula estimula os alunos à aquisição da linguagem. De fato, não se pode negar que não são todos os alunos que gostam de decorar regras gramaticais; além disso, desafiar os alunos em sala de aula é uma estratégia que não poderia ser ignorada pelos profissionais de línguas e instituições de ensino, pois oferece aos discentes um ambiente que estimule sua autoconfiança e os motive. Contudo, ainda há muitos teóricos que apontam a gramática (aprendizagem) como um fator essencial no processo de aquisição de LE.

No que diz respeito ao ensino/aprendizagem infantil, deve-se enfatizar o processo de aquisição da linguagem, uma vez que o processo de aprendizagem, em que o foco está na denominação gramatical de palavras e estruturas, não terá importância para as crianças. Esses aprendizes devem ser inseridos em ambientes onde haja uma grande dose de aquisição por meio de atividades lúdicas e motivacionais.

Quanto à abordagem de caráter cognitivista, voltada para a aprendizagem de LE, destacam-se as teorias de McLaughlin (1990 apud BROWN, 2007), pesquisadas em conjunto com outros estudiosos, como McLeod (1986) e Rossman (1983). As teorias defendem dois tipos de processamento de informação: o processo de controle, em que a capacidade do aprendiz de armazenar informações complexas sobre a estrutura da língua é limitada e considerada algo temporário, por isso o uso de diferentes técnicas; e o processo de automatização, em que o aprendiz praticará essas estruturas e, consequentemente, acumulará gradualmente sub-habilidades, conforme vai aumentando seu nível de proficiência.

Tanto a abordagem de Krashen quanto a de McLaughlin têm o foco somente no aprendiz da LE. Já a teoria socioconstrutivista - a abordagem defendida nos PCNs - enfatiza a interação entre os aprendizes e seus colegas; entre aprendizes e professores e ainda com outros indivíduos que participam do processo dialógico.

Vimos anteriormente a importância da interação, principalmente entre professor e aluno, no processo de aquisição de LM. Com relação a esse processo no ensino/aprendizagem infantil de uma LE, a interação deve ser igualmente enfatizada.

O papel da cognição no que diz respeito à aquisição de uma LE é reconhecido por muitos teóricos. No entanto, nem exercícios repetitivos para treinar regras gramaticais, nem o uso de sentenças sem um contexto parecem incitar o processo de aquisição. É de extrema

53 importância a imersão do aluno em um ambiente onde haja interação. Brown (2007) cita a pesquisa de Michael Long (1985), que enfatiza a importância de uma combinação entre a interação e o input. Para Long, essas são partes essenciais no processo de aquisição de línguas.

Como mediador no processo de ensino/aprendizagem de uma LE, principalmente com crianças, o professor deve promover a interação também entre os alunos, principalmente através de atividades em grupos, jogos, entre outras alternativas. As principais interações - professor/aluno e aluno/professor - precisam ser motivacionais, prazerosas e pedagógicas, por isso a importância de esse profissional conhecer as fases do desenvolvimento infantil, as abordagens metodológicas mais propícias à faixa etária que leciona, o funcionamento do processo de aquisição de LE e LM, além de ter fluência no idioma estrangeiro.

Ainda não se exauriram as discussões envolvendo qual a melhor abordagem a ser seguida por professores de línguas e instituições de ensino de idiomas; nem houve uma definição das melhores abordagens a se adotar. Todas as teorias abordadas nesta pesquisa foram e são importantes ao tentar retratar o fenômeno do processo de aquisição de uma LE. Ao lidar com aprendizes "reais", o profissional de línguas deve estar preparado para entrar em contato com diferentes identidades, capacidades e também diferentes idades.