3. CONTEXTUALIZANDO O OBJETO
3.4 TEORIAS DO JORNALISMO
O mundo da comunicação se organiza a partir de teorias que buscam definir como ocorre o processo de interação entre os indivíduos por meio de diferentes mensagens. No interior desse
processo, algumas áreas se preocuparam em informar o indivíduo sobre acontecimentos que poderiam ser de interesse geral. Esse tipo de processo pode ser considerado em uma leitura superficial apenas informativo, visto que não existe uma interatividade imediata entre comunicador e receptor. Entretanto, muitos profissionais da área da comunicação buscam cada vez mais aproximar o receptor deste processo informativo, formando uma dinâmica interativa que reflete diretamente no interesse do receptor, promovendo um processo comunicativo quase imediato. Devemos considerar, que todo processo que envolve comunicação necessariamente é comunicativo, pois em curto ou em longo prazo a informação atinge o receptor que de diferentes maneiras assimila e exterioriza sua análise, leitura ou percepção da informação.
Ao passo que a informação começa a ser tratada como um produto num universo comunicativo, inserida num meio específico, ela recebe um tratamento especializado sendo compartilhada por diferentes públicos por meio de diferentes veículos midiáticos e se tornando a notícia.
Berger e Luckmann (1976) produzem uma grande reflexão no campo da comunicação, ampliam a discussão se voltando à área da sociologia interpretativa, pois ao desenvolverem uma nova corrente designada por construção social da realidade, sugerindo novos métodos e objetos de pesquisa, consideram a transformação da mensagem em notícia e o seu processo de formação.
A partir dessa consideração, Gaye Tuchman, em 1978, utilizou a observação participante, para questionar o objetivo do jornalismo na construção social da realidade, enfatizando que a construção social da realidade se baseia na percepção do processo de construção da notícia, suas particularidades e interpretações.
Assim, a maneira de comunicar se especializa e se torna, dentro de diferentes veículos midiáticos, uma atividade que vai se profissionalizando, desde a época na qual o rádio merecia uma grande parcela da atenção do público até o momento atual, no qual diferentes veículos se complementam enquanto uma ferramenta para atingir diferentes pessoas.
Nessa esteira de acontecimentos, a imprensa passa a atentar para as diferentes maneiras de comunicar os variados conteúdos pelos diferentes veículos midiáticos. Ou seja, para cada área, como a política, a economia, o entretenimento e o esporte, existem tratamentos diferenciados para a notícia, com abordagem e linguagem característica do contexto. Detalhes narrativos, adequação da imagem, dinamismo, recursos audiovisuais, são instrumentos que agregam sentido e tornam a mensagem mais ou menos interessante, pois atingem o público de
forma mais impactante. Esse processo cada vez mais é racionalizado pelos jornalistas. O jornalismo se caracteriza por ser uma parte da comunicação que se preocupa em informar, noticiar, coletar, editar e reportar ao público eventos, histórias, informações sobre os mais variados temas. Para Melo (1985), jornalismo é um processo social que relaciona organizações com a sociedade pelos meios de comunicação. Podemos afirmar que o jornalismo faz a “ponte” e o elo entre população e instituições públicas e privadas. Segundo ele, a atividade assegura a transmissão das informações atuais e de interesse público. Melo (2003) também afirma que o jornalismo é diferente do meio, ou seja, nem tudo que é veiculado em um jornal pode ser considerado jornalismo. Para ele, jornalismo é muito mais que o meio de comunicação.
Por jornalismo entendemos conjuntos de materiais escritos ou impressos, falados ou visuais, muitas vezes em combinação, que de uma forma documental, descrevem a realidade social atual, especialmente a de importância universal, e que através da multiplicação por diversos meios de comunicação social têm impacte de massas sobre um público diferenciado. (HUDEC, 1980, p. 36).
Ao se tornar uma atividade voltada ao público em geral e assumir teor de interesse público, a tarefa de comunicar se tornou uma atividade com cada vez mais exigência em relação a preceitos éticos, fidedignos e de veracidade. Visto a representatividade social, alcance público e principalmente caráter formativo de opinião, a mensagem jornalística atualmente é discutida, criticada e muitas vezes fiscalizada por diferentes interesses. Formando duas polaridades de pensamento: uma, que visualiza a notícia como um negócio, e outra, que a considera como serviço público.·.
A partir dessa percepção, Hudec (1980) definiu uma sistematização que usualmente deve ser adotada para a prática jornalística dividida da seguinte maneira: abordagem, atividade criadora, preparação para publicação, multiplicação e interação.·.
Gaye Tuchman, em 1978, com base na observação participante enfatizou o papel do jornalismo para a construção social da realidade.
Diferentes teorias foram construídas na busca de interpretar o processo jornalístico com a finalidade de entender e contribuir para reflexões acerca de produção, conteúdo, recepção e mediação das informações. Dentre as teorias, podemos apresentar as mais significativas: teoria do espelho, Teoria do gatekeeper, Teoria da organização, Teoria da Ação política e a Teoria Newsmaking.
A Teoria do espelho vem de uma visão positivista e tem como principal conceito a
“reprodutibilidade técnica”. A função jornalística tem objetividade, e o jornalista é um profissional desinteressado, que trata das informações como verdades que devem ser transmitidas independente de interesses subjacentes. Uma das primeiras teorias que se estabeleceu foi a do Espelho, que se caracteriza pela ideia de que a notícia representa a realidade em que ela está. O jornalista observa a realidade e expõe o que vê, de maneira imparcial e sem opiniões ou comentários tendenciosos.
A noção-chave dessa teoria, de acordo com o autor, é a do jornalista como um comunicador desinteressado, um agente empenhado em sua missão de informar, procurar a verdade, contar o que aconteceu, doa a quem doer. Essa concepção, desenvolvida no início da segunda metade do século XIX, embora seja também a mais antiga, é a que perdura como dominante no campo jornalístico ocidental. (STRELOW, 2010, p. 15)
A Teoria do gatekeeper tem sua origem em meados de 50 nos Estados Unidos. A sua característica principal é a de que a produção da mensagem é um processo que transita por diferentes fases, denominadas portões (gates) até o momento final da publicação. Esse processo é intencional, considerado como: subjetivo e arbitrário (ação pessoal, Shudson/1989) / Mr. Gates (WHITE, 1950). O foco maior da teoria é no processo de produção da mensagem desconsiderando as variáveis intervenientes gerais. A notícia é um produto que tem interesse pelo mercado, neste contexto, os valores individuais e pessoais são sobrepostos pelos ideais organizacionais, que acabam sendo interiorizados pelos profissionais no processo de inserção do indivíduo no meio de atuação, sendo o elemento econômico determinante para o processo.
Segundo Wolf (1994), a produção da mensagem está articulada à organização editorial por meio de seis razões fundamentais: autoridade e sanções; hierarquia e referência superior; promoção profissional; ausência de conflitos de grupos; prazer pelo trabalho; notícias como valor estimulando a solidariedade (orgânica) entre os jornalistas da “direção’ (ou a direção) e os da redação”.
A Teoria da Ação Política defende que a mídia é uma ferramenta para que os interesses políticos sejam defendidos, a notícia é uma mercadoria orientada pelas intenções capitalistas:
que são as propriedades dos media; lucratividade; oficialismo; punições.
A Teoria do newsmaking discute que existe uma grande quantidade de informações, as quais devem ser ordenadas pelo trabalho jornalístico para serem transformadas em notícias. Esse
processo deve ser planejado por uma rotina que poderá auxiliar na produção da mensagem final.
Para tanto, é necessário que uma sistematização seja considerada, como: a identificação de todos os fatos e o reconhecimento daqueles que podem ser notícia (seleção), elaboração na maneira de abordagem dos diferentes assuntos, organização do tempo para que a informação esteja no veículo de maneira organizada e temporalmente adequada.
A teoria do Agendamento e Jornalismo ou Agenda Setting surge nos Estados Unidos em finais da década de sessenta com Maxwell E. McCombs e Donald L. Shaw. O conceito vai inspirar numerosos estudos a partir dos anos 70. Para Traquina:
O ‘agenda-setting’em consequência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descarta, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem ou excluem do seu próprio conteúdo. ‘Além disso, o público tende àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que reflete de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos acontecimentos, aos problemas, às pessoas’. (DONALD; SHAW, 1979, apud WOLF, 1994, p 87).
A definição de agenda foi construída por Lippman, que busca reflexões sobre a cultura de massa e opinião coletiva. Para o autor, "a notícia não é um espelho das condições sociais, mas o relato de um aspecto que se impôs". É seguindo essa linha de pensamento, que o autor aproxima os conceitos de notícia e opinião pública (STEINBERG, 1966, p. 35): “A notícia que não oferece ao leitor a oportunidade de entrar na luta que ela descreve não pode interessar a um grande público”.
A perspectiva teórica do Enquadramento Noticioso ou Framing (social sciences) é uma teoria de Comunicação apresentada por Erving Goffman na década de 70. A teoria destaca que a mídia utiliza palavras, ideias, expressões específicas e singulares, as quais intencionalmente direcionam as interpretações promovendo um enquadramento do fato que molda o acontecimento, destacando determinados aspectos em detrimento de outros.
Segundo Leal (2007), a mídia pode ser considerada como uma janela que transmite mensagens que se encontram com a opinião pública. Existe nesse processo uma mediação dos jornalistas que constroem as mensagens vinculando a elas características diversas, enquadrando a notícia de maneira particular. A construção desse enquadramento, ou moldura para esta janela, mencionada anteriormente, é o que chamamos de enquadramento.
A partir das teorias expostas, podemos vislumbrar um universo de perspectivas para discutir a comunicação enquanto processo jornalístico, que por meio dos diferentes veículos comunicativos processam informações e constroem mensagens ou notícias. A intenção em apontar uma área específica denominada comunicação e estabelecer o jornalismo como um espaço dentro dessa área, para além das teorias comunicacionais, é refletir sobre o fato de que diferentes teorias se preocupam em entender o processo jornalístico. Um processo que parte de generalidade ao mesmo tempo em que se especializa à medida que se configura enquanto uma área correlata a diferentes outras áreas, como afirma Silva (2003),
Na produção de notícias, estabeleceram-se demarcações pelo meio tecnológico (jornalismo impresso, televisivo, radiofônico – e ainda agora jornalismo online ou
‘internético’); definiram-se critérios de interesse, importância ou relevância (proximidade, intensidade, ineditismo), critério de forma (lead), gêneros de texto ou de conceitos: notícia/matéria (informativos), artigo, crônica e crítica (opinativos), reportagem (interpretativa investigativa); consolidaram-se também suas características peculiares (atualidade, universalidade, periodicidade) e seus fundamentos éticos ou princípios filosóficos (objetividade, imparcialidade e veracidade). Constituíram-se, por fim, suas especialidades (jornalismo econômico, político, científico, cultural). (SILVA, 2003, p. 5)