2.4 Medidas e meios de divulgação do progresso e combate ao atraso
2.4.2 Teorias: ideias para ler e transformar a realidade
A discussão na história da ciência assinala o século XIX como o período de separação entre os campos do conhecimento com início principalmente na Europa. No Brasil essa separação ocorre de forma diferenciada, contudo, a pouca existência de práticas científicas regulares não impediu que houvesse a formulação de pensamentos que perpassavam as discussões iniciais desses vários campos. Sobre essa não regularidade Gualtieri, ao estudar o Evolucionismo no Brasil, por exemplo, considera que, ao contrário das premissas postuladas pela historiografia da história da ciência no Brasil que, só existiram condições apropriadas para o cultivo da
ciência apenas no século XX: “[...] há vários trabalhos produzidos em épocas anteriores [ao século XX] que assinalam, ainda que de forma pontual, a presença de ideias evolucionistas nas atividades desenvolvidas em instituições científicas desde o século XIX” (GUALTIERI, 2008, p. 16).
Trigger (2004), arqueólogo que explora a “História do Pensamento Arqueológico” no cenário mundial também considera que independente da formalização desses campos, há um pensamento fora de instituições e de universidades, como em publicações, por exemplo, que podem conter os rastros de um pensamento relacionado à determinada(s) ciência(s).
Conceição (2001) ao estudar as ideias de Tobias Barreto, sob o prisma de uma leitura do pensamento geográfico na obra desse jurista, aponta para a questão. As dificuldades de situar um pensamento científico fora dos muros das universidades antes de sua criação, no Brasil, encontra barreiras por conta da rarefação de discussões epistemológicas com abordagens menos estreitas.
A partir do século XIX, um grande número de teorias passou a figurar no cenário intelectual brasileiro, como também, núcleos de ensino superior definiram a formação das gerações que passaram a cursar uma formação em solo brasileiro. Alguns desses núcleos definem a intelectualidade brasileira, como exemplo, as Escolas de Direito do Recife, em Pernambuco, e do Largo de São Francisco, em São Paulo, a Faculdade de Medicina da Bahia, a Politécnica do Rio de Janeiro. Apesar da ênfase para o “bando de ideias novas” ser recorrente na década de 1870, não podem ser esquecidas as produções intelectuais anteriores como as de José Bonifácio (DIAS, 1968), ou as iniciativas de gestar um pensamento sobre o Brasil, tentativa fremente no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Para o meio rural, as iniciativas também são anteriores a 1870, como a criação dos Imperiais Institutos de Agricultura a partir de 1859.
Assim, a utilização de teorias e a formação de instituições, apesar de densamente aceitas apenas sob algumas égides, pode também ser desvelada em ideias difundidas e diluídas por outros meios, antes mesmo de 1870. Um pensamento para uma nação em construção, fundamentado em teorias produzidas no interior da definição dos campos científicos, até então unidos desde a Ilustração passam a definir limites precisos, podendo ser encontrado presente no discurso das classes dominantes de cada contexto.
No cenário de formação de um pensamento sobre a nação brasileira, apesar das divergências de interesses econômicos e de classes que se ordenavam: intelectuais, industriais, lavradores, comerciantes -, existia uma consonância nos discursos. Logo, as instituições e suas respectivas práticas e teorias não devem ser desvencilhadas.
Além das instituições voltadas para o ensino propriamente dito, figuram desde a segunda década do século XIX outras instituições, os impressos, por exemplo, que produziram e/ou transmitiram pensamentos sobre a realidade brasileira.
O poder ideológico dos periódicos de acordo com autores que trabalham com essas fontes não pode ser mensurada. Porém, uma observação sobre o poder da palavra escrita sobre as sociedades modernas sugere a sua força (CHARTIER, 2004).
A cada tempo histórico verifica-se a presença de discursos que buscam organizar as visões de mundo de cada sociedade: dispor normas, hábitos. Discursos presentes nas tradições, nos costumes, nas sociabilidades, nas religiões na ciência e na técnica, no cotidiano – na vida dita comum do dia-a-dia. Os discursos antes transmitidos através da oralidade ganham, ao longo da história, a sua representação escrita (ANDERSON, 2008). Este mecanismo possibilitou o registro e produziu de forma mais sistemática a continuidade, a longevidade dos discursos ao assegurar o seu registro em suportes escritos.
É lugar comum a revolução operada pela invenção da imprensa. Mas, apesar de sua capacidade de reprodutibilidade, o acesso aos textos impressos, e mesmo antes aos manuscritos, era algo extremamente limitado por duas razões principais: o saber ler, e o poder ter acesso aos textos. Dificuldades essas que durante muitos anos, desde a veiculação dos primeiros exemplares impressos ao chegaram no Brasil, limitam o acesso, mesmo com a decorrência da variabilidade de suportes.
Os discursos escritos, apesar das dificuldades, foram estruturados sob diversos gêneros literários o que permitiu a produção de fronteiras entre os discursos: vocabulário e linguagem colaboraram na diferenciação das classes sociais, das profissões, e da vida. Como observou Bakhtin (2008) na análise do discurso veiculado nas praças européias do medievo durante o carnaval, o seu vocabulário e linguagem apresentavam signos e sinais grotescos.
Oliver (2011) aborda o processo de institucionalização das ciências agrícolas42 a partir de uma discussão historiográfica. Entre os diferentes olhares sobre essa área do conhecimento apresenta dois momentos, o primeiro “memorialista” com informações dispersas em artigos de jornais e revistas agrícolas escritos por cientistas ou por leigos, sobre as quais não se pode falar de um gênero literário específico, e, uma segunda fase delimitada por uma tradição que se inicia a partir de 1954 com Fernando Azevedo e a publicação organizada por Shozo Motoyama (1979-1981), fundamentada em um viés que destaca afirmações e descrições. Uma possível terceira fase se delineia por volta da década de 1980 quando historiadores da ciência latino-americanos passaram a atribuir uma historicidade às ciências agrícolas: busca analisar as ligações contextuais entre ciência, tecnologia e sociedade, proposta esta denominada de revisionista:
[...] essa abordagem revisionista possibilitou não só a firme contestação de modelos lineares de desenvolvimento científico como também um melhor entendimento das razões pelas quais encontramos sucessivas crônicas da ausência de um passado, ou desmantelamento da ciência brasileira, ao identificar distintas noções de ciência em diferentes períodos históricos (OLIVER, 2011, p. 328).
Mas, apesar da historiografia da ciência inserir a primeira fase como “memorialista”, e utilizar os primeiros discursos sobre a ciência agrícola escrito por cientistas ou leigos, apenas como fontes primárias ou secundárias, pode-se considerar que essas fontes (principalmente artigos de jornais diários e revistas agrícolas ao longo da primeira metade do século XX) podem, no interior da chamada proposta revisionista ser, então, repensadas não apenas como fontes, mas como parte de um pensamento sobre as ciências agrícolas. Conceição (2010, p. 265) situa como o pensamento geográfico situado no final do século XIX até 1930 estava associado às outras ciências sociais dominadas pelo determinismo ambiental e racial, ou pelo darwinismo social.
Trigger (2004), ao analisar a história do pensamento arqueológico no mesmo período, situa que o trato com os remanescentes de cultura material de sociedades possuía nitidamente análises com forte tendência racista. Áreas aparentemente estanques, mas estritamente conectadas principalmente na produção das “comunidades imaginadas”. Anderson quando estudou o nacionalismo nos mundos
42
colonizados africanos e asiáticos, perquiriu o argumento sobre o papel que três instituições: censo, mapa e museu, juntas, moldaram profundamente a maneira pela
qual o Estado colonial imaginava seu domínio – “a natureza dos seres humanos por
ele governados, a geografia de seu território e a legitimidade de seu passado” (ANDERSON, 2008, p. 227).
Essa forma de classificação, de mapeamento de pessoas e da natureza foi desenvolvida de forma sistemática a partir do século XVIII como demonstrou Pratt (1999). Formas de (re)conhecimento de áreas sob a perspectiva de ocupar, sobretudo, o que o olhar europeu considerava como vazio ou inexpolorado.
A Tese em pauta analisa uma dessas fontes que tangencia a pesquisa em ciências agrícolas a Revista Agrícola (SSA) aparecia como um tipo eminente da fase “memorialista” de registros da ciência agrícola. De acordo com Oliver (2011, p. 329) como a produção decorrente desse período não é uniforme “não se pode falar em um gênero literário específico, mas observar a expressão que visava o entendimento do passado das ciências agrícolas”.
Todavia, apesar de não ser homogêneo pode-se dizer que há um pensamento sobre as ciências agrícolas que se produz desde o final do século XVIII como afirma a própria autora. Desse modo as fontes da fase “memorialista” são imprescindíveis para o entendimento de várias questões relacionadas à produção do espaço agrário brasileiro.
Oliver (2011, p. 12) discute encaminhamentos a fim de entender as “tramas”
que envolvem o entendimento da agricultura e sua relação com as ciências agrícolas, os vários suportes de informações (textos manuscritos, fotografias, imagens em vídeo, periódicos, literatura, entre outros) podem conter uma diversidade de informações sobre a realidade histórica na qual foram produzidos. As sociedades continuamente expressam suas visões de mundo através desses suportes, logo, o senso comum e a ciência também estariam presentes nos discursos textuais e imagéticos. De acordo com Escolar, o teórico, no discurso de qualquer comunidade científica, é determinado historicamente por duas condições,
uma epistemológica – que supõe o critério de cientificidade, e outra contextual, que
faz referência às problemáticas reais. Um discurso pode conter essas duas condições. Condições essas que sofrem determinações das relações sociais inscritas em um espaço e tempo situados em um locus.
Além da recorrência na historiografia brasileira de tratar que somente a partir de 1870 emergiram no Brasil as teorias que irão compor a definição de nação, convém observar que a chegada de teorias como as que fundamentaram a ideia de progresso, e a sua disseminação, alguns rastros podem ser localizados em períodos anteriores. Suas reestruturações ocorream ao longo dos anos conforme as matrizes intelectuais de seus seguidores e as influências dos contextos vigentes (MACHADO, 2000; CONCEIÇÃO, 2001; LEONÍDIO, 2007; LINS, 1967). Outro aspecto é observar criteriosamente o ponto de partida dessas teorias, a sua procedência, rastrear, quando possível, a sua penetração, o tempo histórico de suas discussões, assim como os objetivos que defendiam a fim de evitar as armadilhas do anacronismo.
Leonídio, por exemplo, analisa as teorias utópicas cientificistas no século XIX que ganharam força com a difusão do positivismo no final do referido século é um processo com particularidades históricas:
É preciso lembrar, antes de mais nada, que o socialismo utópico na Europa também é uma fórmula vaga. Ele não fala em nome de uma classe concreta, mas do povo, dos oprimidos, dos que trabalham, dos que sofrem, da humanidade enfim. Sua forma é burguesa porque não se haviam acirrado ainda os confrontos entre o proletariado
e a burguesia. Os intelectuais não poderiam assumir um ponto de vista radical em relação à sociedade burguesa. Acreditavam por isso que estavam imbuídos da missão de salvar a ‘humanidade sofredora’. No Brasil, havia a instituição da escravidão, a dilacerar a nação e criar um fosso entre os cidadãos (LEONÍDIO, 2007, p. 939).
Dessa forma, as influências teóricas no discurso da Revista Agrícola (SSA) continha “fio e rastros” de matrizes discursivas variadas. O seu enfoque valorizava o progresso, um conceito que não é simples como parece, concentrava estruturas ideológicas distintas:
O Brasil não ficou imune às diversas criações utópicas que circularam na Europa, como no mais se dava com as diversas correntes de ideias vindas de fora. Compartilhou, apesar de seu atraso marcante, da euforia modernizante que se introduziu no país, primeiramente, com as ideias mais modernas e avançadas da ciência européia, sobretudo depois que a febre positivista grassou em variados setores da cultura nacional; e, num segundo momento, com a invasão das modernas invenções da tecnologia, que se alastrou pelo mundo na época que ficou conhecida pela história como belle époque. Tais ideias apareceram em diversos momentos em jornais e revistas e passaram despercebidas pelos historiadores do pensamento social brasileiro (LEONÍDIO, 2007, p. 944).
As ideias em voga, além de sincréticas ou miméticas, mas por que também não dizer: originais? Singulares? Como observa Leonídio na citação acima, algumas ideias passaram despercebidas pelos historiadores do pensamento social brasileiro.
3 AS REVISTAS AGRÍCOLAS – VOCABULÁRIO E LINGUAGEM NA UNIDADE