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34 Aliança é uma cidade bastante grande, se comparada com as dos dias anteriores.
O trajeto de Condado até lá é curto e por volta das 8 horas chegamos à Associação, sendo o primeiro Maracatu, conforme planejado. Fomos seguidos, com diferença de alguns minutos, por mais outros dois grupos. Eu não entendia muito bem por que era importante chegar cedo; imaginei que seria pelo fato de que durante aquele dia cerca de sessenta maracatus desfilariam no terreiro.
Por vezes chama-se de terreiro o espaço onde brincadeiras acontecem. No caso do espaço da Associação, tratava-se de um amplo terreiro de terra batida. De um lado havia uma pequena e vazia arquibancada, onde eu me sentei acompanhada por algumas crianças; do lado oposto, a plantação de cana-de-açúcar se estendia a perder de vista. À frente do terreiro, havia ainda um pequeno palco destinado ao terno, onde subiram Seu Caju e os músicos.
Além das figuras já descritas, há ainda um elemento bastante importante para um Maracatu: sua bandeira. É nela que estão escritos e desenhados nome, cidade de origem, data de fundação e símbolo do grupo. Assim, o Maracatu Leão de Ouro de Condado tem, portanto, um leão retratado na bandeira, acompanhando o nome e a data de fundação, 1975. As bandeiras dos Maracatus que chegavam eram encostadas lado a lado na grade que cerca o terreiro, formando a fila na ordem de apresentação25.
Mesmo tendo chegado primeiro, tivemos de esperar algum tempo. Enquanto o fazíamos, notei que alguns dos folgazões, de vários Maracatus, olhavam atentamente para as bandeiras dos outros grupos. Aproximei-me de uma pessoa que sabia ser do Leão, e fui perguntando para ele sobre as bandeiras, de quais Maracatus eram, de como estavam bonitas, ou não. A dúvida sobre o porquê da quase avaliação, bem como do porque havíamos chegado tão cedo, foi sanada durante essa conversa, quando ele me confidenciou que o Maracatu cuja bandeira estava ao lado da do Leão, era o grande rival. Ele prosseguiu comentando como todos os anos eles sempre competem em relação a quem chega primeiro na Associação para conseguir ver o outro desfilar, e, então, avaliá-lo. “Então vocês competem sempre na passarela?”, perguntei a ele, que me respondeu rindo: “Não, no dia a dia mesmo! Porque o maracatu ‘tal’ é lá perto de
25 É interessante notar certas recorrências nos nomes dos Maracatus. Percebi a constância de nomes como Estrela, Leão, Pavão, Cambinda, que, por vezes, são combinados com Ouro, Dourado, e etc.
35 Condado, por isso muitos cabocos que brincaram em Condado foram pra lá e o inverso também...”.
Tanto porque dois dias já haviam passado desde que eu começara a acompanhar as andanças e apresentações no carnaval, de modo que aos poucos eu aprendera mais ou menos para onde olhar atentamente, focando no mestre de caboco, quanto porque o terreiro dali era espaçoso, me permitindo ter uma visão mais ampla dos movimentos do Maracatu, eu pude desta vez acompanhar com mais precisão os desenhos das manobras, de como o Maracatu se expandia e tornava a aglomerar-se na medida em que os cordões (as fileiras) de cabocos e baianas se movimentam.
Seguimos viagem e fomos para Caueira, outro distrito de Aliança. Lá, a apresentação foi promovida por um vereador chamado Antônio Morais e pelo dono de um mercado local. Dessa vez, diferentemente dos outros lugares, o público ovacionava o Leão de Ouro – o que, de início, estranhei, mas logo descobri que isso de dava porque Seu Caju, o mestre do Leão, é morador daquela cidade. Seu Caju é um homem que não deve ultrapassar os 60 anos; corpulento, ele fuma bastante, o que não parece afetar sua destreza no posto de mestre no maracatu; sua voz tem um grande alcance e ele é conhecido por ser um exímio poeta.
Todo Maracatu tem seu mestre o qual, juntamente com seu contramestre e o terno, são responsáveis pela sua parte “musical”. O mestre de maracatu canta os sambas, as marchas e os galopes, músicas formadas pelos versos, improvisados ou não, que variam conforme a quantidade, como mostrarei mais a frente. O terno, formado pela porca, tarol, bombo, gonguê e mineiro, além dos instrumentos de sopro como trombones, clarinetes, trompetes (esses normalmente variam de Maracatu para Maracatu) e apito, melodiam os versos do mestre. Em suma, a maestria requer uma habilidade com as palavras que transcende o maracatu e que está presente nas outras brincadeiras da região tais como a ciranda, o coco e a cantoria de pé-de-parede, pelas quais esses mesmos mestres transitam.
Retornando a Condado para mais um apressado almoço, aumentava a expectativa da apresentação no Recife. Eu imaginava que o ápice do carnaval eram as apresentações nas cidades da Zona da Mata, mas, para a minha surpresa, o concurso que ocorre na terça-feira se mostrou bastante esperado. Esse fora o assunto que acompanhara todas as viagens, desde o domingo. Na verdade, como pude notar após o
36 carnaval, essa expectativa se inicia logo quando acaba o carnaval do ano anterior - o maracatu permanece bastante presente nos diálogos cotidianos entre os folgazões, seja em retrospecções do carnaval que passou, seja nos planos para o que está por vir. Isto é, não foi exatamente no momento que descrevi mais acima, a saída do Maracatu, que ele havia começado. De fato, é difícil precisar quando ele se inicia e quando ele se encerra.
Após almoçarmos, já ao meio-dia, o sol parecia estar ainda mais intenso que nos dias anteriores, e procuramos, novamente, a sombra de dentro do ônibus, que dessa vez ia mais cheio, pois as e os familiares – esposas, filhas e filhos – estavam acompanhando os folgazões. Finalmente, deixamos a sede em direção ao Recife.
Tanto no domingo quando na segunda-feira, cada um dos nossos ônibus havia tido algum problema mecânico. Ambas as vezes, senti-me aliviada por estar no único que até então não havia dado defeito algum. Entretanto, ao deixar a sede, logo na primeira esquina, Abacatão colide a lateral do ônibus no qual eu estava em um poste.
Apesar do susto, sem maiores danos, seguimos viagem para a capital, mais especificamente para a Avenida Dantas Barreto, onde haveria o desfile de todos os maracatus de Pernambuco.
Ao menos desde a década de 1930 (Nascimento, 2005), são promovidos desfiles das agremiações carnavalescas no carnaval do Recife: maracatus de baque virado, cabocolinhos, tribos de índio, escolas de samba, bois, ursos, blocos líricos e maracatus de baque solto. Não tenho muitas informações sobre a história ou organização desse concurso. O que, até agora, pude saber, é que todas essas agremiações, em dias específicos, desfilam no local designado pela Prefeitura do Recife, e disputam o concurso por ela idealizado. Para a participação das agremiações nestes desfiles, meses antes é enviada uma verba para que os grupos financiem seus preparativos. Após o desfile, paga-se outra parte dessa verba para cada grupo, de acordo com as colocações.
A maioria dos folgazões, em especial aqueles mais ligados à Diretoria do Leão de Ouro, enfatiza de forma negativa as condições colocadas para que se possam participar desse concurso. Estas são várias, mas destacam-se nas narrativas aquelas que obrigam a presença de uma quantidade mínima de figuras, cabocos, baianas, índias, arreimás. Além destas, a Comissão Julgadora, selecionada pela Secretaria de Cultura da cidade, avalia também a performance dessas mesmas figuras, a partir de parâmetros próprios.
37 O concurso desse desfile acompanha uma estrutura muito parecida com aqueles famosos concursos de Escolas de Samba do Rio de Janeiro: existem quatro categorias nas quais os Maracatus enfrentam-se (Grupo Especial, Grupo 1, Grupo 2 e o Grupo de Acesso). Premiam-se, neste caso, os três Maracatus melhores colocados em seus respectivos Grupos. O Leão está no Grupo Especial e venceu os últimos dois carnavais, após ter desbancado um campeão de longa data. Assim, era grande a expectativa da terceira vitória.
A Dantas Barreto é uma grande e extensa avenida que se localiza no centro da cidade do Recife, arrodeada de antigos prédios e uma grande igreja católica, ainda mais antiga. Ainda que contivesse uma razoável estrutura para o desfile das agremiações, a passarela fica em um local de difícil acesso e o público de tais desfiles em geral é o de familiares e folgazões. Quando o Leão chegou à avenida já havia alguns grupos que desfilariam antes dele e então a maioria das pessoas se dispersou, principalmente para assistir aos desfiles dos concorrentes. Algumas delas iam até a arquibancada, onde podiam ver os outros Maracatus, voltavam para perto nos nossos ônibus, e comentavam entre si sobre como estavam os outros grupos. A conclusão da maioria dos familiares e folgazões era quase unívoca, e a ela eu fazia coro: o Leão era, de longe, o mais bonito dos Maracatus.
Era final da tarde e ainda estava claro. Esperamos por mais cerca de uma hora até o momento do desfile. Enquanto isso, algumas das baianas pediam para que eu as fotografasse, e ficamos conversando enquanto esperávamos a hora passar. Quando chegou a vez do Leão, juntei-me à Ita, Clecinha e as crianças na arquibancada, de onde torcíamos discretamente pelo Maracatu.
Não sei ao certo se essa apresentação durou mais tempo que as feitas nos dias anteriores ou se essa sensação foi provocada pela expectativa e tensão. Os fogos foram estourados por Seu Biu, que, sempre a frente do Leão de Ouro, seguia a passos firmes e rápidos, como que abrindo caminho para o Maracatu passar. O terno e o mestre, que estavam posicionados em um palco montado ao lado da passarela, ficando frente a frente com a comissão julgadora, quando autorizado pela organização, bateu, alto e rápido. Entraram primeiro correndo o Mateus, a Catirina, o Caçador e a Burra, sendo seguidos de uma movimentação de figuras diversas que, ao se aproximarem, diferenciavam-se em arreimás, cabocos, índias, baianas e corte. Por fim, seguiam as
38 pessoas da Diretoria, que ficavam a postos para quaisquer imprevistos. Entre eles vieram os cabocos, com a expressão bastante sisuda, manejando suas guiadas para todos os lados, balançando seus coloridos chapéus, fazendo cada um sua evolução.
Ouviu-se um longo silvo feito pelo mestre e os instrumentos silenciaram.
Concomitantemente, o Maracatu, que já havia alcançado o meio da passarela, na altura onde estava Seu Caju e o terno, se abaixou para ouvir a marcha, composta por versos que ressaltavam a participação do Leão no carnaval e elogiava o homenageado do carnaval naquele ano, um artista de Pernambuco, escolhido pela Prefeitura do Recife.
Quando o mestre terminou de cantar e o terno voltou a bater, a cabocaria levantou e faz sua longa manobra. Isso se repetiu por algumas vezes. Com o tempo sendo cronometrado pela comissão julgadora, após a última manobra o Maracatu começou a se retirar da passarela, sob a batida do terno.
Eu e o restante do pessoal corremos para encontrar o Leão no final da passarela;
sem maiores comentários sobre a apresentação, os folgazões retornaram ao ônibus. A partir daquele momento esperar-se-ia o resultado do concurso. Na volta para Condado, me contaram, a roda de um dos ônibus saiu em uma perigosa curva, contudo não aconteceu nenhum acidente. Naquela mesma noite, boa parte da Diretoria permaneceu a sede durante a madrugada até o amanhecer.
Imagem 3: Maracatu esperando o desfile na Av. Dantas Barreto. Foto: Noshua Amoras: 2014.
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