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Quando um livro de astrologia fala da terceira Casa como sendo a dos "irmãos, irmãs e dos parentes próximos", quer realmente indicar o primeiro ambiente do recém-nascido e a relação da criança em desenvolvimento com esse ambiente. Tudo nele afeta a criança e é no contato com ele que ela começa a descobrir a extensão de suas faculdades e a diferenciar o que ela é, como organismo vivo dotado de um tipo especial de consciência, do mundo externo. Esse mundo contém objetos e talvez animais e coisas em desenvolvimento, assim como membros de sua família. Aliás, as referências astrológicas aos membros da família - pais, irmãos e parentes em geral - dizem respeito ao tipo de vida que ainda está estritamente envolvida nos relacionamentos tribais ou de parentesco. Numa sociedade em que os modelos familiares do passado perdem muito de sua importância, será preciso considerar outros valores mais fundamentais, valores que digam respeito a tudo quanto o ambiente como um todo apresente perante a consciência em desenvolvimento da criança.

A relação da criança com seu meio ambiente é básica para a formação de seu caráter e de suas respostas para a vida. Tal relação existe simplesmente porque nenhum organismo vivo nasce no vazio. Ele nasce sob a influência de tudo que preenche o espaço em torno das fronteiras de seu mundo interior, ou seja, em torno de sua "pele" ou, poder-se-ia dizer,

em tomo do campo de forças que lhe permeia todos os órgãos e suas atividades celulares. Todo organismo deve primeiramente conquistar seu "espaço vital". Em muitos casos essa conquista implica uma luta, ainda que seja só a luta para atrair e manter a atenção do provedor materno do alimento necessário - e o amor da mãe, que proporciona uma sensação de segurança e bem-estar.

Irmãos e irmãs talvez representem ou pareçam representar um obstáculo para a obtenção dessa atenção, e portanto podem vir a ser considerados concorrentes. Mas outras pessoas, objetos e a atividade - para a criança, incompreensível - do provedor de alimento e de carinho, quando longe dela, também concorre para privá-la de uma atenção exclusiva. Pode até não ser a atenção da mãe que a criança requer e pede instintivamente. O verdadeiro parentesco físico pode ser muito menos importante do que tradicionalmente se acredita, e em casos em que o bebê foi nutrido por uma ama-de-leite que também se encarregou de cuidar dele completamente, esse elo de parentesco representou um papel secundário. Entretanto, pode haver um instinto profundamente inconsciente em ação ligando o organismo de uma criança à sua família, embora indubitavelmente a importância desse instinto, se ele existir, é por certo magnificada e valorizada por todas as culturas que dão à relação de parentesco e a todos os ideais enraizados no tipo tribal de consciência e de organização social um significado sacrossanto.

Esse instinto tem seu principal campo de manifestação na quarta Casa, mas antes de poder afetar a consciência da criança, esta precisa aprender a lidar com seu ambiente, e o impacto do ambiente sobre ela existe como um desafio. É nesse desafio que se baseia o desenvolvimento do sistema nervoso, pois o sistema nervoso de todo organismo vivo constitui a manifestação orgânica concreta da capacidade de se lidar com o meio ambiente.

Na criança, esse "chegar a um acordo" é a princípio totalmente inconsciente, ou pelo menos instintivo, e não requer aquilo que chamamos, em sentido humano, consciência. Ele opera originalmente como "sensações" e como respostas musculares espontâneas. O primeiro choro do recém-nascido é uma resposta muscular à sensação de ar entrando em suas membranas respiratórias. Gradativamente estabiliza-se um sistema definido de conexões entre células nervosas, que é a base para a inteligência humana. Por inteligência entendo a capacidade de chegar a um acordo em qualquer ambiente - primeiro físico, depois também psíquico - e

portanto de ajustar-se às suas demandas inexoráveis e, por fim, transformá-lo na medida do possível. Em seu nível mais baixo, a inteligência é a habilidade dos animais tanto quanto dos homens primitivos e das crianças. A habilidade é a capacidade de opor um fator do ambiente a outro - por exemplo, quando a criança opõe um dos pais ao outro.

Em certo sentido, isso constitui um "jogo", e o jogo da vida torna-se cada vez mais complexo e sutil à proporção que o ambiente social cresce em complexidade - e também à medida que as pessoas procuram sobrevi- ver em ambientes muito diversos do seu habitat nativo, como, por exemplo, na superfície da Lua. Todo jogo subentende regras, e a natureza estabelece as regras no jogo biológico normal da vida. Os seres humanos fazem suas próprias regras, porém em jogos sociais refinados, e mesmo na política na- cional ou internacional. Para progredir, é preciso conhecer e compreender as regras, isto é - no ambiente biosférico e no sistema solar - as "leis" do uni- verso. Do ponto de vista hindu tradicional, o universo é o lila (jogo ou brin- quedo) do Criador. Os seres humanos precisam portanto descobrir as re- gras do jogo universal estabelecidas por Deus. Eles pedem indicações a Deus por meio de invocação e prece, ou procurando afinar sua inteligência com a mente de Deus. Deus, por sua vez, recompensa bondosamente o que o busca, e a humanidade em geral, com vários tipos de "revelações".

A terceira Casa refere-se, portanto, não só à natureza do ambiente e às pessoas que atuam nele - parentes próximos etc. - mas ao desenvolvimento da inteligência e, por fim, do intelecto analítico e da ciência empírica. O que diferencia essa Casa de sua oposta, a nona, é que a terceira se relaciona com experiências que envolvam contato pessoal direto com o ambiente próximo do indivíduo, ao passo que a nona Casa lida com experiências que só podem ocorrer em termos de cooperação entre seres humanos. As experiências da nona Casa implicam linguagem, uma base cultural e aquilo que Korzybski* chamou faculdade humana de ligação ao

tempo. Essas experiências postulam uma transferência de conhecimento de

geração para geração. Elas se baseiam num tipo complexo e socialmente estabilizado de entendimento. Na terceira Casa, o "entendimento" é ainda muito rudimentar; ele é caracteristicamente empírico; reúne observações pessoais, classifica-as e ajusta-as num conjunto prático de regras. No entanto, essas regras são simples e não constituem leis universais. O tipo

* Alfred Korzybski (1879-1950), polonês fundador do Instituto de Semântica Geral.

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mental característico da terceira Casa generaliza o mínimo possível. Ele se baseia no comportamento, na pragmática, na técnica. Quer simplesmente conhecer o processo de fazer as coisas por razões práticas. Ele pode ser muito curioso e inventivo, mas também sutil e habilidoso para desenvolver experimentos - haja vista os experimentos incrivelmente complexos ideados por cientistas de laboratório, sejam físicos ou psicológicos. Mas não é filosófico e menos ainda metafísico ou religioso. É a mente do especialista, não do "generalista".

Ainda assim, para controlar ou transformar seu ambiente, o homem precisa formular suas descobertas, ao menos de maneira primitiva e pragmática-técnica. Ele aprende a se comunicar com outros homens, mas essa comunicação se refere essencialmente a objetivos práticos, a como sobreviver e por fim a como sentir-se feliz e pessoalmente satisfeito no próprio ambiente.

Devemos considerar a terceira Casa como uma seqüência inevitável da primeira e da segunda. Na primeira Casa, a questão básica é a de ser - ou seja, descobrir o que somos e quem somos e afirmar nossa individualidade. Na segunda Casa descobrimos e experimentamos o tipo de substância material - primeiro, substância biopsíquica, sócio-cultural e financeira - que possuímos e, portanto, nos é dado usar. Na terceira Casa passamos a conhecer o melhor meio de usá-la no ambiente em que ela tem de ser usada; e esse conhecimento só pode vir a nós, ao menos nesse estágio, se procurarmos representar aquilo que somos e usar nossas posses - vale dizer antes de tudo, nossos corpos - até o ponto em que

sejamos bloqueados pela resistência dos objetos e das pessoas circunjacentes.

Toda criança, desde o momento do nascimento, procura instintiva- mente descobrir até onde pode ir em qualquer direção, tanto física como psicológica, antes que seu gesto ou sua ação sejam barrados por alguma coisa ou pessoa. Ela aprende que não nasceu num vazio. Está cercada de obstáculos e de forças e vontades opostas; ela precisa definir seu próprio "espaço vital" e conhecer o que está disponível para satisfazer suas necessidades e o que é permissível dentro dos limites da sua atividade.

A necessidade de tal conhecimento se repete em nível mais elevado, e o adulto também precisa aprender até onde pode chegar com segurança no campo social e intelectual. Normalmente, o indivíduo se recusa a admitir limitações pessoais ou perigos no uso do que veio a possuir; e o resultado 79

disso pode ser neurose, psicose ou tragédia social. A humanidade hoje está se defrontando com tal tipo de tragédia potencial porque o homem do Ocidente se recusa a aceitar as limitações do que ele possa fazer em seu ambiente planetário e para esse ambiente planetário. Temos de aprender a verdadeira extensão de nosso poder como seres humanos físicos e mentais, e o verdadeiro valor do que possuímos - nossa tecnologia e nossa riqueza - e o único meio de aprender talvez seja, infelizmente, encontrar objetiva- mente quais possam ser os resultados finais do uso que fizermos dessas posses. Uma auto-imagem megalomaníaca que procura se projetar por meio de enormes poderes arrancados violentamente da natureza inevitavelmente provocará, com toda probabilidade, uma reação violenta de nosso meio am- biente planetário ou cósmico.

Precisamos aprender depressa se quisermos evitar uma castástrofe, O conhecimento no nível da nona Casa tende a ser teórico e muito geral, mas as experiências da terceira Casa têm um caráter de urgência. A sobrevivência pode estar em jogo. A busca de conhecimento no campo de experiência da terceira Casa é, ou deveria ser, condicionada pela- necessidade de conhecer em termos práticos como tudo funciona, para que o indivíduo possa mais eficazmente demonstrar o que ele essencialmente é. Mas quando a pessoa é impelida nessa busca de conhecimento por metas e pressões socialmente determinadas, o conhecimento que ela adquire deixa de ter uma real significação para ela própria como indivíduo. Seu intelecto pode tornar-se inchado, cheio de dados sem sentido que ela não pode assimilar. Se ela não voltar atrás ou "sair" do ambiente que substitui sua verdadeira identidade individual por um ideal falso, então alguma tragédia pode ser inevitável.

A terceira Casa chama-se, muito significativamente, Casa cadente, pois implica a possibilidade de um desvio do que é indicado na Casa angular, que veio antes. Uma Casa cadente pode significar integração e síntese, ou pode acabar em desintegração e colapso, ou em perversão. Um processo de transformação pode atuar, e as experiências relacionadas com todas as quatro casas cadentes podem ser - e devem ser - prelúdios da reorganização num novo plano de existência. Mas o processo pode surtir efeito contrário quando as experiências relacionadas com as Casas angulares - primeira, quarta, sétima, décima - não têm sido sólidas e sadias, e/ou os poderes usados nas Casas sucedentes - segunda, quinta, oitava, décima primeira - têm sido abusados ou mal utilizados. Isso é particularmente óbvio quando se trata da sexta e da décima segunda Casas, 80

mas não o é menos em termos dos processos mentais relacionados com a terceira e a nona. Nossa atual sociedade glorifica o conhecimento, sobretudo a tecnologia e todos os tipos de informação relativa a know-how. Com os computadores, ela adquiriu a capacidade de armazenar, correlacionar e tornar disponíveis enormes quantidades de informação. Essa capacidade é assunto da terceira Casa. Ela pode ser uma bênção ou uma maldição, dependendo do vigor e da validade da imagem que o homem tem de si próprio e do universo. Desgraçadamente, a imagem que o homem ocidental tem feito no nível oficial de seu pensamento é, em sua essência, rude e megalomaníaca. A não ser que seja alterada fundamentalmente, uma queda parece inevitável. Talvez não seja tarde para alterá-la, mas o tempo ê curto, extremamente curto.

No documento As 12 casas astrológicas-dane rudhyar.pdf (páginas 39-42)