CAPÍTULO II – DA TERCEIRA IDADE E VELHICE AO MOMENTO DA
1. TERCEIRA IDADE E VELHICE
Atualmente, quando falamos em envelhecimento, verificamos que existem outras designações que estão associadas, como é o exemplo de “velhice” e de “terceira idade”.
É no século XVIII que o conceito de velhice começa a ser considerado de forma positiva, sendo associado à sabedoria, respeito e autoridade, embora ainda com estereótipos tradicionais associados, já que, anteriormente, estavam ligados à reforma espiritual e à preparação para a morte (Bourdelais, cit. por Silva, 2006).
A WHO (2002) define cronologicamente, como idosos, pessoas com 65 anos ou mais. Lima (2010) refere que a velhice é considerada como a última fase da vida de um ser humano. Iniciando-se aos 60 anos, pode ser avançada ou retardada, segundo o modo de vida da pessoa (Bernard,1994, cit. por Fernandes, 2000). Fontaine (2000) contextualiza a velhice como um fenómeno variável de indivíduo para indivíduo e, principalmente, como um período que pode oferecer inúmeras oportunidades de crescimento pessoal. Trata-se de um conjunto de múltiplas experiências com diferentes impactos a nível emocional (Silva, 2005).
Deste modo, torna-se difícil definir velhice, pois não se trata de um conceito óbvio e objetivo, depende sim, do modo como cada um conceptualiza e encara a velhice e no tipo de envelhecimento em que se encontra, reforçando a forma como as vivências variam ao longo da vida (Ribeiro, 2007).
Por outro lado, e segundo Monteiro e Neto (2008), o termo terceira idade é relativamente recente, e corresponde a uma nova definição de velhice, ao inserir-se numa perspetiva de desenvolvimento do indivíduo. Corresponde, normalmente, ao fim da vida ativa, em que o indivíduo ainda é autoeficiente, autónomo e encarregado pela sua vida.
Peter Laslttt (1989, cit. por Silva, 2008) foi um dos primeiros autores a abordar o conceito de terceira idade como uma nova e diferente etapa da vida, que se insere entre a idade adulta e a velhice propriamente dita. Assim, a primeira idade corresponde ao momento da dependência, da imaturidade, da socialização, na qual as atividades que predominam são a educação e a formação. A segunda idade seria o momento da independência, da responsabilidade familiar e social, da maturidade, em que a criação e a manutenção de uma família e o desenvolvimento de uma profissão seriam as principais atividades. A terceira idade seria o momento da satisfação pessoal. A quarta
idade seria a idade da dependência, da decrepitude e da proximidade da morte (Silva, 2008).
Ainda na perspetiva de Silva (2008), o surgimento do termo terceira idade está ligado ao novo entendimento do envelhecimento, encarado como o momento de lazer, propício à realização pessoal que ficou inacabada na juventude, à criação de novos hábitos, hobbies e habilidades, enquanto o conceito de velhice está ligado à decadência física e invalidez, momento de descanso e quietude no qual se encontra muito presente a solidão e o isolamento.
A velhice é, de facto, uma etapa especialmente intensa, caracterizada por perdas de papéis ao longo dos tempos (filhos que saem de casa, reforma, viuvez, etc.). Todavia, “ser idoso, velho, terceira idade, senescente…, ou como o queiram chamar, é, acima de tudo, «SER HUMANO»” (Rodrigues, 2008, p. 22).
Nas sociedades atuais, na maioria das vezes, existe a ideia de que quando o indivíduo abandona a vida profissional é porque atingiu a idade da reforma, identificando-se o momento com a entrada na terceira idade, fazendo com que a velhice passe a ser associada à reforma. Na opinião de Veloso (2011), “ainda que genericamente continue a considerar-se a passagem à reforma como a porta da entrada na velhice, sabemos bem que a idade da reforma é diversa consoante as ocupações, os países, os sistemas sociais, etc.” (p. 20).
A este propósito, e referindo-se à ideia da reforma como marcador por excelência da entrada na velhice, Renaud Santerre (1995, cit. por Cardoso, Santos, Batista & Clemente, 2012) refere-se à existência de “três velhices”: os “jovens” velhos dos 65 aos 75 anos, os “médios” velhos dos 75 aos 85 anos e os “velhos” velhos com mais de 85 anos. Esta categorização baseia-se nos papéis e funções sociais diferenciados que cada um destes subgrupos assume na sociedade e na família, na transição para o século XXI. Torna-se difícil, segundo este autor, qualificar a reforma como a entrada na velhice quando não se sabe de que velhice se trata, agravando-se, com a crescente mobilidade das idades de entrada na velhice e das idades de pensão ou reforma. Segundo Fonseca (2011), o termo “terceira idade” tem vindo a perder credibilidade, devido também, ao aumento da esperança de vida e à saída precoce do mercado de trabalho, podendo vir mesmo a reforma a acontecer durante a meia-idade, proporcionando ainda um extenso período de vida na pós-reforma, que pode ser vivido com atividade, vitalidade e novos projetos.
A reforma já não é, pois, o princípio centralizador que dá um sentido homogéneo e uma identidade à “terceira fase” da vida (identificada com a velhice e o direito ao repouso ou à saída da atividade laboral), e que sucedia, no âmbito de um modelo de ciclo de vida ternário, a uma “segunda fase”, identificada com a vida adulta e com o trabalho (ou atividade), e que, por sua vez, era antecedida por uma “primeira fase”, identificada com a juventude e a formação. A indeterminação social do grupo dos mais velhos acentua-se, enquanto a inatividade definitiva, a velhice e a reforma já não se sobrepõem (Cardoso et al., 2012).
Se a reforma foi inicialmente reivindicada como um direito ao descanso com dignidade, verifica-se uma dissociação crescente entre a idade de passagem para a reforma e o momento em que as manifestações pesadas da senescência começam a ser sentidas. É, pois, possível tirar ainda partido de uma nova fase da vida rica em oportunidades: uma idade de vida liberta do trabalho, mas ainda preservada do envelhecimento, fenómeno que suscitou a invenção da expressão “3ª idade” (Lalive d’Épinay, 2003, cit. por Guedes, 2015).
Embora no passado fosse visto como um último estágio homogéneo da vida, dominado também pelo que se intitula morte social, a terceira idade, atualmente, é um universo altamente distinto, composto de aposentados precoces, idosos capazes e com vários graus e formas de limitação (Palácios, 2006). Apesar de a reforma poder ser um nova etapa da vida recheada de oportunidades, é certo que poderá ser ao mesmo tempo um “tempo de desgraça”, se o reformado não souber encontrar novas formas de viver e conviver, de ocupar o seu tempo.