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Capítulo I – Apresentação do Códice Telleriano Remensis

2. Conteúdos

2.5. Terceira seção: Anais Históricos

A última divisão do códice, a seção dos Anais, inicia-se no fólio 25 e termina no 50, sendo que somente até a frente do fólio 48 existe pinturas (Figura 4). O restante dos fólios possui apenas textos e pequenos quadrados desenhados por um dos anotadores no lugar dos signos que representariam os anos (Figura 5). O fólio 35, frente e verso, está em branco, e o verso do fólio 50 contém também algumas frases que podem ser testes de pena90 (Figura 4). A página que hoje inicia a seção é a segunda da migração, pois a primeira foi perdida. O conteúdo geral é de caráter histórico e representa primeiro um período de migrações (veja Figura 3) que deveria ir até a fundação de México-Tenochtitlan91, porém, as páginas finais foram perdidas. Aquelas que hoje

são conservadas indicam um período de tempo que vai92 de 119793 (primeira imagem da Figura

3) a 1274 (última imagem da Figura 3). A segunda parte dos Anais mostra acontecimentos que

se iniciam em 1385 (primeira imagem da Figura 4) até 1555, última data pintada (penúltima

89 Grafia da maioria dos deuses de: SAHAGÚN, Fr. Bernardino de. Op. Cit. Tomo I, p. 45, 50, 51 e 56.

90 QUIÑONES KEBER, Eloise. Op. Cit., 1995, p. 123.

91 "Tenochtitlan: capital del imperio mexicano, fundada en 1325 por Tenoch; hoy México. Estaba dividida en dos

grandes partes: Tenochtitlan, al sureste, habitada por los tenochca, y Tlatelulco al noroeste, ocupada pos los

tlatelulca". (RÉMI, Siméon. Op. Cit., p. 479).

92 Segundo as datas do próprio códice.

93 As datas foram alteradas e na última mudança não ajustaram as duas primeiras, então a contagem passa de 1198 a

1290. Pelas datas corretas a primeira página existente hoje no códice deveria começar em 1298 - veja Figura 3 (primeira imagem).

imagem da Figura 4). Recebeu continuidade com o acréscimo de mais alguns acontecimentos, mas somente em forma de texto (primeira imagem da Figura 5). Vale notar que as descrições abrangem o período colonial, ou seja, um conteúdo inédito, que obviamente não tem antecedentes pré-hispânicos. Atualmente nessa seção faltam: 1 fólio antes do 25; três fólios entre os de número 28 e 29; um entre o 40 e 41; e dois entre o 43 e 44. São conhecidas as faltantes porque, assim como nas outras seções, elas estão representadas no Códice Vaticano A.

Para diferenciar as duas partes dos 'Anais Históricos' preferimos nos referir à primeira como 'Migração' e à segunda como 'Segunda Parte dos Anais', de modo a facilitar as referências a elas, uma vez que possuem características distintas. Outros autores preferiram distintas divisões, como Quiñones Keber94: migração, crônica dinástica e crônica colonial. A autora dividiu em duas partes o que chamamos 'segunda parte dos anais' porque a partir da página 44r o conteúdo se refere à história colonial. Outra separação, utilizada por Anders e Jansen95, subdivide a seção histórica em xiuhmolpilli, ou seja, grupos de 52 anos, de acordo com as próprias divisões indígenas. Em nosso caso essa fragmentação somente dificultaria a exposição das características, por isso, preferimos simplificar as subdivisões.

94 QUIÑONES KEBER, Eloise. Op. Cit, 1995.

95 ANDERS, Ferdinand; JANSEN, Maarten. Religión, Costumbres e Historia de los antiguos mexicanos: libro

2.5.1. Migração

Migração, p. 25r Migração, p. 26v Migração, p. 28v

Figura 3

Essa parte dos anais históricos que chamamos de migração é composta por imagens centrais formadas por figuras humanas, glifos toponímicos e 'pegadas'. Representa as migrações de grupos humanos, que se movimentam entre diferentes cidades ou unidades políticas, cujas trajetórias são indicadas pelas marcas de pé. Na parte inferior das páginas foi inserida uma faixa seqüencial de glifos anuais representando os anos transcorridos durante o período de migrações.

Como explicado acima, os signos de anos ou glifos anuais são compostos por 4 signos, que se tratam dos chamados 'portadores de anos' (no caso dos nahuas do pós-clássico os portadores são: ácatl, técpatl, calli e tóchtli) que se combinam alternadamente com 13 números, até se esgotarem todas as combinações possíveis, formando o xiuhmolpilli ou 'enlace de anos' ("atadura de años") a cada 52 anos, quando a contagem se reinicia.

As marcas de pés pintadas seqüencialmente são pictogramas utilizados com bastante freqüência e que indicam o caminho percorrido por um ou mais personagens. Às vezes, quando conectam figuras, mostram relações de parentesco.96

A utilização do pictograma 'cerro' como base para a representação dos topônimos se explica pela palavra altépetl, que segundo Navarrete Linares97 era a entidade política fundamental

96 ESCALANTE GONZALBO, Pablo. Los códices mesoamericanos, antes y después de la conquista española.

na organização dos povos indígenas do Vale do México. O autor explica que altépetl é um

difrasismo98 que une as palavras atl (água) e tépetl (cerro) e que significa literalmente 'cerro de água'. O termo está vinculado a um grupo humano, um território e um governo, mas também é uma alusão aos cerros:

"...que en la cosmovisión mesoamericana eran considerados grandes receptáculos huecos que contenían el agua que venía del mar y luego fluía sobre la tierra en forma de ríos y arroyos, o caía en forma de lluvia. Esta relación con los cerros, y desde luego la relación con el agua, quiere decir que había una vinculación íntima entre el altépetl y la fertilidad. (…) la presencia de manantiales y de cerros era fundamental para la constitución de un altépetl. Por otro lado, el altépetl era también un centro sagrado"99.

As histórias de migração são um tema muito comum nas tradições históricas mesoamericanas, uma vez que os movimentos migratórios e remanejamentos eram parte de suas características fundamentais. "En las sociedades mesoamericanas los conflictos por el poder político y económico no se resuelven siempre con el enfrentamiento bélico, sino con la migración. La integración y desintegración de señoríos se expresa en estas constantes migraciones."100

As migrações desses grupos humanos têm diferentes pontos de partida, de acordo com a tradição a que se conectam ou com as circunstâncias, especialmente políticas, do momento que estão sendo relatadas. Segundo Navarrete Linares101 existem lugares de origem individuais e coletivos. Para o Vale do México há um contraste entre locais definidos como originários de um povo determinado ou de um grupo reduzido, como Aztlan, Tlapallan ou Michoacán, e lugares plurais, como Chicomóztoc e Culhuacan. Além disso, a importância dada a esse local é distinta para os variados grupos, pois há aqueles que descrevem com detalhes seu local de origem, como

97 NAVARRETE LINARES, Federico. Op. Cit. Mito, historia… 2000, p. 21.

98 Termo comumente utilizado entre os mesoamericanistas para descrever uma construção gramatical onde duas

palavras são unidas para formar uma terceira com sentido metafórico.

99 NAVARRETE LINARES, Federico. Op. Cit. Mito, historia… 2000, p. 21-22.

100 REYES GARCÍA, Luis; ODENA GÜEMES, Lina. La zona del Altiplano central en el Posclásico: la etapa

chichimeca. In: MANZANILLA, Linda; LÓPEZ LUJÁN, Leonardo. Historia Antigua de México - vol. III: el horizonte Posclásico. México: INAH; UNAM, p. 225-264, 2001, p. 231.

os mexicas, enquanto outros só o mencionam vagamente, como os chichimecas de Xólotl, antepassados dos acolhuas102 de Texcoco103.

O fólio inicial da migração do TR foi perdido, mas sabemos que se iniciava em

Chicomóztoc porque o Códice Vaticano A possui conteúdo idêntico e ainda o conserva.

Chicomóztoc é comumente traduzido como 'lugar das sete covas104'. "...En la mayoría de las fuentes Chicomóztoc no es descrito propiamente como un lugar de origen, sino como un lugar por el que pasan los emigrantes una vez iniciado su camino…", apesar de que é possível que possa ter sido reconhecido como lugar de origem por alguns grupos, o que pode ser o caso do Vaticano A e TR, por exemplo105.

As migrações se iniciam por distintos motivos e normalmente são encabeçadas por importantes líderes e/ou guiadas por deuses até o local de seu estabelecimento definitivo. Normalmente os grupos que efetuam essa jornada são qualificados de chichimecas, os quais, ao longo de sua viagem, adquirem características toltecas, pois ambos são comumente utilizados como elementos legitimadores do poder. Mas, quem eram os chichimecas e os toltecas? No dicionário de Rémi: Chichimecatl: pl. chichimeca: "...tribus nómadas que vivian de los productos de la caza y que remplazaron a los toltecas en el Anahuac hacia el fin del siglo XII."106 E "Toltecatl: pl. tolteca. Los toltecas constituían un pueblo de gustos pacíficos, entregado especialmente a la agricultura y a las artes. De ahí que su nombre haya quedado como sinónimo de artista, de hábil artesano. Esas tribus, que salieron de Ueue Tlapallan el año uno tecpatl, uno piedra (596), habrían llegado a finales del siglo VII a un lugar llamado Tollantzinco donde se establecieron y fundaron un estado que tuvo por capital Tollan…"107

102 "Del nahua acolli, hombro, y hua, partícula de posesivo; [hombres] de hombros grandes. Se dice del individuo de

un pueblo amerindio llegado del noroeste de México, que se estableció en Texcoco antes de los aztecas" (REAL

ACADEMIA ESPAÑOLA. Diccionario de la Lengua Española. Madrid: Espasa Calpe, 22a edición, 2001.

Disponível em: <http://buscon.rae.es/draeI/> Acess em: 25 nov. 2007).

103 Texcoco, "Tetzcoco o Tetzcuco: ciudad situada al NE de Tenochtitlan, en la laguna y al pie de las montañas que la

bordean al este, capital del imperio chichimeca que llevó primitivamente el nombre de Acolhuacan". (RÉMI, Siméon. Op. Cit., p. 536). "Tetzcocatl o tetzcucatl: Tezcocano, habitante de Tetzcoco" (RÉMI, Siméon. Op. Cit., p. 536). Usaremos a grafia: texcocano (singular) e texcocanos (plural).

104 Ou 'lugar das sete cavernas' ou ainda 'lugar das sete grutas'.

105 NAVARRETE LINARES, Federico. Op. Cit. Mito, historia… 2000, p. 121-122. Em muitos códices ou crônicas o

lugar de origem é referenciado também com outro nome, como Culhuacan Chicomóztoc, por exemplo, e por isso Navarrete Linares acredita que era uma espécie de qualificativo dado a lugares que possuíam determinadas características.

106 RÉMI, Siméon. Op. Cit., p. 96.

É necessário ponderar definições dicotômicas como essas de Rémi, pois segundo nos informa Navarrete "…las descripciones que conocemos de la vida chichimeca deben ser interpretadas en casi todos los casos como visiones simplificadas e idealizadas de la forma de vida de los pueblos marginales"108. Da mesma forma deve ser avaliada a definição dos toltecas como um grupo pacífico, que também parece ser uma idealização.

No TR os chichimecas se vestem de peles de animais e normalmente carregam arcos e flechas, enquanto os toltecas portam uma túnica branca e um chapéu cônico.

De um modo geral as histórias de migração da região que nos interessa parecem seguir padrões bastante similares, os quais são listados por Enrique Florescano:

"...el canon que uniforma los relatos de migración de los chichimecas, k'iché, kakchiqueles y mexicas se caracteriza por los siguientes rasgos: a) la tierra de origen es siempre lejana; b) la salida del lugar de origen obedece a una orden de los dioses; c) el pueblo que abandona el lugar de origen es acompañado por otras tribus afines; d) durante la migración uno o varios grupos se separan y estas divisiones dan lugar a otros 'mitos de dispersión'; e) la salida del lugar nativo ocurre en una fecha que marca el principio de una nueva era (1 Técpatl es la fecha que en la tradición mexica inicia la peregrinación o celebra las nuevas fundaciones, el nombramiento del primer gobernante, etcétera); f) la ruta de la migración es señalada por el dios patrono, por un mensajero divino o por líderes dotados de poderes sobrenaturales, y g) el asentamiento final es anticipado por augurios sobrenaturales".109

108 NAVARRETE LINARES, Federico. Op. Cit. Mito, historia… 2000, p. 265.

109 FLORESCANO, Enrique. Los paradigmas mesoamericanos que unificaron la reconstrucción del pasado: el mito

de la creación del cosmos… In: Historia Mexicana. México: v. LII, n. 2, p. 309-359, 2002, p. 337-338. Disponível em: <http://historiamexicana.colmex.mx/pdf/13/art_13_2075_18060.pdf> Acesso em: 16 dez. 2007.

2.5.2. Segunda parte dos Anais

O conteúdo da segunda parte dos anais pode ser dividido em 'história pré-hispânica' e 'história colonial'. No TR a 'história colonial' se inicia na página 44r (Figura 4). A organização do espaço das páginas, ou seja, a forma de estruturar os conteúdos entre a 43v e a 44r não é alterada. As mudanças atingem somente o conteúdo, onde começam a aparecer elementos inexistentes nos livros tradicionais indígenas, como cavalos, cadeiras e outros objetos europeus e personagens espanhóis. O contrário acontece no início dessa parte dos anais, que é marcado por grande heterogeneidade na organização do espaço. Como pode ser visto na Figura 4, não há um padrão exato de organização. A disposição dos glifos anuais (representados pelas caixas quadradas ou retangulares pintadas em vermelho e azul) varia consideravelmente até que a partir da 32v, quando passam a ser sempre inseridos no topo da página, em números que variam de dois a quatro, obedecendo a leitura de esquerda para a direita.

2a parte Anais, p. 29r 2a parte Anais, p. 29v 2a parte Anais, p. 30r

2a parte Anais, p. 32r 2a parte Anais, p. 43v 2a parte Anais, p. 44r

2a parte Anais, p. 47r 2a parte Anais, p. 48r Página 50v

Os eventos ou acontecimentos históricos pintados nessa segunda parte dos anais são estruturados com base nos glifos anuais, representados em cores distintas das usadas no mesmo tipo de seqüência da migração. A maioria dos glifos se localiza no topo das páginas, mas também dos lados direito e esquerdo em algumas delas. Os eventos inseridos são formados por representações de soberanos, glifos toponímicos, guerreiros, templos, glifos de eventos geológicos e astronômicos, pessoas sacrificadas ou preparadas para o sacrifício, conquistadores e governantes espanhóis, personagens do clero, dentre outros.

Muitos dos personagens representados vêm acompanhados de glifos onomásticos ou antroponímicos, que normalmente são pintados acima das cabeças e conectados ao indivíduo correspondente por uma linha negra. Os glifos dos altépetl conquistados ou ligados a algum personagem podem possuir o pictograma 'cerro' ou não. O glifo de Mexico-Tenochtitlan é um exemplo do segundo caso. Alguns elementos nas representações humanas têm significados específicos, como gestos com as mãos, posições corporais, locais onde são representados, objetos que portam, vestem ou os envolvem, dentre outros.

O conteúdo pré-hispânico gira em torno das sucessões de soberanos - especialmente de

Mexico-Tenochtitlan, mas também de outros altepétl do vale do México -, das guerras e conquistas realizadas por eles e dos desastres com grande mortandade que ocorreram em seus governos. Vale ressaltar que no final desse período há uma grande concentração de ocorrências astronômicas e algumas geológicas. A história colonial, por outro lado, aborda os representantes do poder colonial - como conquistadores, membros das audiências e vice-rei -, algumas sucessões de representantes indígenas, o clero - especialmente o bispo, mas também frades -, pragas, acontecimentos geológicos e astronômicos, alguns eventos históricos relevantes, dentre outros.