1. Autores: uma breve introdução de suas obras.
Antes de adentrarmos com maiores detalhes à discussão sobre a elaboração das obras, seu contexto e questões terminológicas identitárias, é passada a hora de apresentar os autores das obras que cresceram em meio a esse espaço. Iniciamos por André Álvares de Almada sobre o qual se tem maior número de informações e que aparece na documentação entre os anos de 1580 e 1647. Um vizinho322 de Santiago, filho de Cipriano Álvares de Almada – Cavaleiro da Ordem de Santiago – e uma mulher parda, sendo assim um mulato. Seu avô foi o reinol João Álvares de Almada, capitão de ordenanças e um dos proprietários mais poderosos e ricos de Santiago323, que haveria se relacionado com uma negra da Guiné. O que não é possível afirmar é se João Álvares de Almada seria avô pelo lado materno ou paterno, embora arriscamos dizer que seja do lado materno, dada a descrição sobre a mãe de Almada relatar que a mesma era “descendente de um nobre português, principal da ilha e de uma negra324.
André Álvares de Almada, pertencia a uma família da elite de Santiago e isso se evidencia em sua árvore genealógica. Observa-se como tanto em seus casamentos, quando no de seus filhos há sempre a união entre famílias pertencentes a elite local e que possuíam mais ou menos as mesmas características. Isso fica aparente em seu primeiro casamento com Francisca de Queiroz, neta de André Rodrigues Mosquitos, membro de uma das famílias mais influentes e respeitadas nas ilhas de Cabo Verde. Dessa união, nasce Lourença de Almada325 e por conta da data aproximada, supomos que também seja fruto do matrimônio
Inês Gomes de Almada326. Por uma questão de aproximação de datas, inferimos que Almada
322 Eram os moradores das ilhas de Cabo Verde e que possuíam licença régia para comerciar na Costa da Guiné,
de acordo com as Ordenações Manuelinas.
323 CABRAL, Iva. A primeira elite colonial Atlântica - dos "homens honrados brancos" de Santiago à
"nobreza da terra" (finais do séc. XV - início do séc. XVII). (Tese de doutorado) Praia: Universidade de Cabo Verde. 2013. p. 171.
324 Iva Cabral afirma que tanto sobre o nobre mencionado, quanto sobre sua filha, não foram encontrados nomes,
para confirmar esse pressuposto. IAN/TT, Mesa da Consciência e Ordens, liv. 18, fls. 205v.-206,
325Casada com Jorge de Araújo de Mogueimas, que entre seus cargos foi “escrivão da Fazenda Real e Feitoria
da ilha de Santiago, capitão de infantaria e capitão-mor da Ribeira Grande. A.H.U., Cabo Verde, Papeis Avulsos, 1612. In Boletim do Arquivo Histórico Colonial, doc. nº 25.
326 Sua filha, casa-se com Manuel Lopes Cardoso, cavaleiro fidalgo da Casa Real, escudeiro fidalgo da Infanta
D. Maria. CABRAL, Iva. A primeira elite colonial Atlântica - dos "homens honrados brancos" de Santiago à "nobreza da terra" (finais do séc. XV - início do séc. XVII). (Tese de doutorado) Praia: Universidade de Cabo Verde. 2013.
também foi pai de Dinis Eanes da Fonseca327, mas devido a divergência de sobrenomes,
supõe-se que talvez não fosse seu filho legítimo à altura de seu casamento com Francisca. O segundo matrimônio de Almada é com Ana Lemos, com quem tem o filho nomeado em menção ao avô, Ciprião Álvares de Almada. As datas de nascimento e morte dos membros mencionados são de difícil precisão, por ausência de registros, suas menções na documentação são poucas e pontuais. De toda forma, com base no longo e incansável estudo de Iva Cabral, foi possível elaborar uma tímida genealogia da família de Almada, que está a seguir. Infelizmente, as informações sobre Donelha e Lemos Coelho não são tão abundantes e por isso apenas elaboramos a genealogia de um dos autores.
Almada escreveu o Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde em 1594 e em 1603 recebeu o Hábito da Ordem de Cristo328. Sobre isso é importante destacar que Almada foi o primeiro mulato, nascido em Cabo Verde e com antepassados escravos a receber a mercê. Além da redação de seu tratado, são mencionados seus serviços e préstimos a coroa, como na defesa perante aos ataques à fortaleza de São Filipe. Feitos esses que o livram de seu “defeito da cor”329.
A esse respeito é importante lembrar os processos de análise dos pedidos de mercê para a concessão do hábito da Ordem de Cristo, que tinham como base os estatutos de limpeza de sangue. Nesse sentido, “é importante reconhecer a natureza socialmente construída do conceito português de limpeza de sangue. Este conceito, no entanto, engendrou um modelo de identidade cada vez mais rígido que reflete elementos de um sistema de castas”330, as bases para a
definição da limpeza do sangue, estabeleciam-se pela noção portuguesa de raça no período, que “evocava a origem familiar (as raízes), fosse étnica, social ou religiosa. O termo não estava necessariamente relacionado com a cor da pele ou outras características físicas, mesmo que o
327 Nascido em 1580 (mesmo ano do casamento de seu pai com Francisca), tendo desempenhado as funções de
juiz e vereador da Câmara da Ribeira Grande, além de Provedor da Fazenda Real. CABRAL, Iva. A primeira
elite colonial Atlântica - dos "homens honrados brancos" de Santiago à "nobreza da terra" (finais do séc. XV
- Início do séc. XVII). (Tese de doutorado) Praia: Universidade de Cabo Verde. 2013.
328 Que havia lhe sido concedido em 1598. 329 MMM. 2ª Série. v.3. Doc. 106.
330Tradução livre do trecho “It is importante to recognize the socially constructed nature of the Portuguese
concept of limpeza de sangue. This concept nevertheless engendered an increasingly rigid identity model that reflects elements of a caste system”. MARK, Peter; HORTA, José da Silva. The forgotten Diaspora: Jewish communities in West Africa and the making of the Atlantic World. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. p. 80.
último pudesse ser sinal de um certo status social, como a escravidão331”. Fernanda Olival
esclarece ainda que “é inequívoco em toda a Península na Época Moderna: com esse tipo de requisitos não se visava a pureza biológica da raça pelas suas qualidades genéticas; tratava-se, ao invés, de um problema de natureza ideológico-religiosa, com forte impacto na estruturação social e política332”. Dessa forma, Almada representava um híbrido Atlântico, nascido e criado a um meio e clima que para o português reinol era hostil, em ambiente cultural-religioso sincrético e que, sem dúvida, moveu o início da flexibilização na concessão de mercês como o hábito de Cristo de Almada. Além do fenômeno referido por Ivana Elbl da ironia de que “uma pessoa negra socialmente forte, para todos os fins, poderia ser considerada branca, não obstante a cor da pele333”.
Nesse sentido, a questão das identidades dos autores precisa ser compreendida para além apenas da forma como entendiam a si mesmos, mas também as identidades que lhes eram impostas. Fator determinando em como eram compreendidos e que acabava por se amalgamar em como também viriam a se compreender, a saber:
No início da expansão marítima portuguesa, a categoria de identidade primordial era a religião. Ele serviu como o fator de definição mais amplo e significativo. O outro critério agregador era a cultura, muitas vezes muito bem misturado com a religião, e em menor escala raça. As lealdades étnicas, linguísticas e políticas constituíam os critérios mais concretos. A identidade social formou uma categoria própria e teve a capacidade de transcender tudo o que precede. A identidade de qualquer grupo envolvido na expansão foi um conjunto de todas ou a maioria das categorias acima334.
Voltando a trajetória de Almada, entre seus cargos e funções, foi mercador, tabelião das notas e judicial da Ribeira Grande, capitão de ordenanças e capitão de uma companhia. Comerciou na região da Guiné por muitos anos, tendo feito viagens entre 1570 e 1590 e sabe-
331Tradução livre do trecho “But the portuguese raça evoked Family origin (the roots), either ethnic, social, or
religious. The term was not necessarily connected with skin color or other physical features, even if the later could be signs of a certain social status, like slavery”. MARK, Peter; HORTA, José da Silva. The forgotten
Diaspora: Jewish communities in West Africa and the making of the Atlantic World. Cambridge: Cambridge
University Press, 2011. p. 78.
332 OLIVAL, Fernanda. Rigor e interesses: os estatutos de limpeza de sangue em Portugal, Cadernos de Estudos
Sefardistas nº 4, 2004. p. 152.
333“The irony of this situation is the well-observed fact that a socially strong black person could to all ends and
purposes be considered white, skin colour notwithstanding”. ELBL, Ivana. Group Identities in the Early Portuguese Overseas Expansion in Africa: Concepts and Expressions. Portuguese Studies Review, 15, (1-2), 2007. p. 47.
334 ELBL, Ivana. Group Identities in the Early Portuguese Overseas Expansion in Africa: Concepts and
se que em 1601 era procurador de mercadores reinóis. Era membro de uma das mais importantes famílias de Santiago, pertencente da elite da Ilha e que após meados do XVII iria compor uma elite endógena, assim designada por Iva Cabral335. Em 1580 foi elegido pelos principais membros de Santiago para ir ao reino apresentar os anseios dos moradores em colonizar a Serra Leoa, algo que não se tem confirmações de que tenha ocorrido à época. Contudo, sabe-se que esteve em Lisboa anos depois, em finais do séc. XVI. Sua importância como agente intermediário entre a realidade africana da costa e sua presença e leitura dos meios institucionais régio, é inestimável.
335 CABRAL, Iva Maria; SANTOS, Maria Emília Madeira Santos. O nascer de uma sociedade através do
morador-armador. In: ALBUQUERQUE, Luís de; SANTOS, Maria Emília Madeira (org). História Geral de
Genealogia de André Álvares de Almada e seus descendentes
1.
João Álvares Mulher Negra
de Almada André Rodrigues Mosquitos
Ciprião Álvares Mulher Parda Garcia Contreiras Catarina Monteiro Nicolau Rodrigues de Almada de Queiroz
Ana Lemos André Alvares Francisca de Almada de Queiroz
Ciprião Álvares Dinis Eanes Lourença Jorge de Araújo de Almada da Fonseca de Almada de Mogueimas
Inês Gomes Manuel Lopes de Almada Cardoso