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Terceiro capítulo Resistências e protocolos

O interrogatório […]

Pergunta: Quererá repetir diante do júri as confissões que fez durante a instrução? Prefiro que você fale.

Resposta: Com certeza. Os motivos do meu ato direi amanhã. A Sociedade de Carmaux é representada em Paris pela sua administração; depois da greve, comprei uma marmita; tinha dinamite, uma espoleta e rastilho de mineiro; preferi o sistema da bomba de inversão. O interrogatório prosseguiu.

O acusado recusa-se a dizer o que fez durante o ano de 1893, que separa os dois atentados. Durante uma discussão mais acalorada, o juiz presidente gritou:

P. Dane-se com o seu silêncio!

R. É-me indiferente. Não preciso me acautelar com o meu silêncio; sei bem que serei condenado à morte.

P. Escute: acho que há uma confissão que dói ao seu orgulho. Vaillant confessou ter aceito 100F de um ladrão; você não quer reconhecer que estendeu essa mão para receber dinheiro do roubo, essa mão que vemos hoje coberta de sangue.

R. As minhas mãos estão cobertas de sangue, tal como a sua toga! De resto, não tenho que lhe responder.

P. Você é acusado e o meu dever é interrogá-lo.

R. Não reconheço a tua justiça, estou contente com o que fiz!...

P. Você não reconhece a justiça. Infelizmente para você está nas malhas dela e os jurados saberão apreciar.

R. Eu sei! (MAITRON, 2005, 19-20)

Pierre-Joseph Proudhon afirmou que a vida é atravessada pela pequena guerra, não se trata das guerras entre Estados, mas de uma luta diária, como mostrado no capítulo 1. A guerra e suas tensões são elementos da vida cotidiana, não se restringem apenas a Estados e seus exércitos.

Thiago Rodrigues, a partir de uma perspectiva histórico-política, mostra como o anarquismo terrorista do final do século XIX radicaliza a noção de política como guerra pronunciada por Foucault após a inversão da frase de Clausewitz, visando não a ocupação ou reforma do Estado, mas a sua destruição em qualquer forma.

O trecho de abertura deste capítulo é um depoimento do anarco-terrorista Émile Henry, que recusou-se a ser representado diante do tribunal por um advogado e realizou sua própria defesa. Não pretendia justificar as bombas deflagradas contra espaços burgueses, mas afirmar a utilização da violência enquanto uma resposta à violência burguesa organizada no Estado.

Os ataques proferidos por Émile Henry foram precedidos por Ravachol e Vaillant. Jean Maitron, francês e historiador dos anarquismos, que recorreu aos arquivos de polícia de Paris para realizar suas pesquisas, conta que após a queda da Comuna de Paris, em 1871 – quando vários anarquistas foram condenados ao trabalho forçado, fuzilados, ou mandados ao exílio; uma lei ainda, em 1872, iria proibir a seção francesa da Internacional e considerá-la uma organização subversiva – a perseguição aos

anarquistas aumentava cada vez mais, o que culminaria no anarco-terrorismo. As ações policiais pretendiam levá-los ao tribunal e condená-los.

Em 1883, Louise Michel, a combatente anarquista da Comuna de Paris, que havia voltado à França em 1880 após ter sido presa e exilada, e Émile Pouget, que realizou um dos primeiros sindicatos na França e editou o jornal Le Père Peinard 1, foram condenados a seis e oito anos de prisão, respectivamente. A acusação que incidia sobre eles era a de terem incitado os saques a uma padaria em uma manifestação de desempregados; o caso se desenrolaria com a invasão da casa de Pouget e a apreensão de panfletos destinados aos soldados com mensagens para queimarem seus quartéis e matar os oficiais (WOODCOCK, 1984).

Em A anarquia no tribunal2, Sébastien Faure transcreve os debates no tribunal de Sena no ano de 1891; de um lado estão os anarquistas, Decamps, Dardare e Lévilleé, que foram presos e espancados por policiais durante uma manifestação do 1º de Maio; do outro, o magistrado Benoit, juiz-presidente, e Boulot, acusador público.

Os anarquistas sentiram como um desafio as brutalidades infligidas aos três homens. Os ataques individuais dos anarco-tearroristas, segundo Maitron, vingavam os anarquistas condenados. Vale ressaltar, como chamam a atenção Acácio Augusto e Edson Passetti, que é desses ataques procede o termo ação direta: chamados de propaganda pela ação ou propaganda pelo fato, condensavam numa única atitude revolta e revolução, em uma recusa à representação por meio dos sindicatos, parlamentos e partidos políticos.

Diante do tribunal, os anarquistas foram contra a representação. A repressão advinda da Comuna de Paris desembocaria nos ataques anarco-terroristas. Uma pequena

guerra de luta pela vida, em que não se trata de ―tomar‖ o poder, de como detê-lo, mas de como destruir relações burguesas, representativas, e a favor da propriedade. Pequena

guerra que tanto abalou a sociedade francesa e conheceu uma forte repressão, como os próprios anarquismos.

Frente aos ataques terroristas, o governo francês tomou medidas para sufocar os anarquistas. Dois dias após as explosões de Vaillant (11 de dezembro de 1893) na

1 Émile Pouget também publicou La Sociale, Le Journal du peuple e La Voix du Peuple.

2 Parcialmente reproduzido em MAITRON, Jean. Ravachol e os anarquistas. Tradução de Eduardo Maia.

Câmara de Deputados de Parisfoi apresentada, no Palácio Bourbon, a primeira de três leis conhecidas pelo nome de leis ―celeradas‖. Esta lei dirigia-se contra a liberdade de imprensa, punia qualquer escrito que fizesse a defesa de um atentado ou apologia ao anarco-terrorismo. A segunda lei, votada no dia 15 de dezembro, dizia respeito às

associações de malfeitores. A terceira e última lei, votada em 9 de julho, após o assassinato do presidente Sadi Carnot por Geronimo Caserio, atingia a todos aqueles que fizessem, por qualquer meio, a propaganda anarquista (MAITRON, 1975).

Boa parte dos jornais anarquistas deixou, então, de circular. Émile Pouget interrompeu a publicação de Le Père Peinard, que se encontrava em seu 253º número em fevereiro de 1894. Nesse mesmo período Grave, o sapateiro propagandista, ainda foi condenado a dois anos de prisão e a pagar 100 francos pela segunda edição de seu livro

La Société mourante et l’anarchie, cuja primeira edição havia sido comercializada dois

anos antes sem maiores problemas; assim, Grave também interrompe a publicação do jornal La Revolté. Esses dois jornais tinham forte circulação entre o movimento operário, vendiam cerca de 10.000 exemplares por semana3.

As ações policiais contra os anarquistas não cessaram: em 1º de janeiro de 1884 uma operação policial invadiu a casa de anarquistas e de suspeitos de terrorismo, na procura por explosivos ou substâncias que pudessem fabricá-los, além de manuscritos que levassem a alguma ligação com associações anarquistas. Desde o início da operação até 30 de junho de 1884, 429 pessoas foram perseguidas sob a suspeita de serem terroristas (IDEM).

Em 6 de agosto de 1884, o imenso Processo dos Trinta leva ao tribunal os mais conhecidos anarquistas da época, acusados de constituir uma associação de malfeitores, entre os quais estavam: Sébastien Faure, Jean Grave, Émile Pouget, Paul Reclus, Charles Chatel, Félix Fénéon, Constant Martin, Louis Duprat, Alexandre Cohen.

Faure refutou todas as acusações, mas os estas foram negadas pelo presidente da corte, o que levou Faure a concluir seus depoimentos com a seguinte frase: ―Cada vez que provamos o erro de uma das alegações de tua parte, declara isto sem importância. Você talvez possa muito bem somar todos os zeros, mas ainda assim não poderá obter uma unidade‖ (FAURE apud IBIDEM, 255).

3 Jean Maitron, em Le mouvement anarchiste em France, destaca que Le Père Peinard era um periódico

bem humorado, com brincadeiras e uso de gírias, enquanto La Revolté possuía uma linguagem mais formal.

O Processo dos Trinta durou nove dias, todos foram absolvidos com exceção de Ortiz (condenado a quinze anos de trabalhos forçados), Chericotti (condenado a oito anos de trabalhos forçados) e Bertani (condenado a oito meses de prisão); estes foram anistiados alguns meses depois.

Não somente os atentados a bomba eram associados a atos do terrorismo anarquista, mas também, uma sabotagem, um saque ou assalto a mão armada, o assassinato de uma autoridade, e até mesmo panfletos, cartazes, outros impressos, ou a simples existência de uma associação anarquista (AUGUSTO, 2006).

Os anarquistas inventam pequenas guerras desvencilhadas de exércitos. Estão interessados em se reinventar enquanto uma reinvenção de suas lutas também. A

pequena guerra não é avessa ao método serial de Proudhon, exposto no capítulo 2: é na tensão da liberdade e da autoridade que essas pequenas guerras são inventadas. A

pequena guerra anarquista, diante dessa tensão, e sem a pretensão de instaurar um absoluto, trava em seu cotidiano lutas para invenção de práticas de liberdade em suas associações, nas ruas, nos espaços de exercícios de poder disciplinar e diante de governos.

Os anarquistas, no final do século XIX, lançaram-se ao terrorismo enquanto uma prática para invenção de liberdades e um confronto diante da repressão e massacre à Comuna de Paris. Diante das redes da sociedade disciplinar, os anarquistas realizavam seus furos e inventavam maneiras de resistir. Frente a isso, na sociedade de controle, pergunta-se: qual a pequena guerra anarquista capaz de desestabilizar os fluxos?