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Sobre o terceiro princípio (Mudanças Qualitativas) examinado por Cotrim (1995, p.

261), pode-se assegurar que "na perspectiva dialética, as transformações que ocorrem na realidade não se reduzem a modificações lentas e insignificantes. "Nas palavras de Konder (1985, p. 51), "as transformações podem assumir diferentes ritmos, passando por períodos lentos (nos quais se sucedem pequenas alterações quantitativas) e por períodos de aceleração (que precipitam alterações qualitativas, isto é, saltos, modificações radicais)."

Feitos esses esclarecimentos, há que se perguntar: em que medida o princípio das

"Mudanças Qualitativas" se aplica ao desenvolvimento regional de Emilia Romagna?

Ora, relembrando o que foi explicado por Schmitz (1997), Castells (1999) e Caccia (1999) no final do primeiro capítulo deste trabalho, percebe-se que os Distritos Industriais de Emília Romana não apresentavam desempenho tão bom na década de 90 como o que vinha apresentando nas décadas de 70 e 80. E, desse modo, muitas das pequenas e médias empresas (PMEs), que davam sustentação ao chamado modelo de desenvolvimento emiliano, não puderam resistir à reestruturação da produção industrial (como as de Prato) introduzidas pela globalização, enquanto que outras tiveram que ser incorporadas às grandes empresas (através de fusões), num rápido período de tempo, isto é, em uma década apenas (como as empresas de Emilia Romagna).

E qual foi a "mudança qualitativa" ocorrida nesse momento histórico de Emilia Romagna? Para responder a esta pergunta, leia-se, inicialmente, o que Sweezy (1982, p. 51-52) verificou sobre a "concentração" e "centralização de capital" na Quarta Conferências Sobre o Marxismo", realizada 1982 : "A expansão pela acumulação interna foi chamada por Marx de "concentração de capital"; a expansão pela absorção ou fusão foi por ele denominada de "centralização de capital".

Aí está a "mudança qualitativa" ocorrida em Emilia Romagna, ou seja, enquanto diminuía o processo de concentração de capital das PMEs, intensificava-se o processo de

"centralização de capital" pelas grandes empresas. Como as PMEs não tiveram como resistir aos entraves que lhes foram criados pela globalização, nos anos 90, a únicas opções que lhes restaram foram duas: fechar as portas ou fundir-se às grandes empresas. É flagrante, pois, a

"mudança qualitativa" ocorrida naquele momento, posto que a "concentração de capital" das PMEs passavam, a partir de então, para o domínio das grandes empresas, sob a forma de

"centralização de capital.". Continuando a sua explanação sobre a "concentração e centralização de capital". Sweezy (1982, p. 51-52) esclarece que:

Os dois processos são complementares, funcionando em conjunto para transformar a economia de uma estrutura com numerosas unidades pequenas em concorrência como ainda ocorria quando Marx escreveu o Capital, para uma estrutura de companhias monopolistas gigantescas, como começava a ser quando Engels organizou os manuscritos do segundo e do terceiro volumes, na década posterior à morte de Marx. Marx foi o primeiro economista a reconhecer esse processo, que acabou por se revelar crucial no século seguinte, a teorizar sobre ele: viu claramente suas raízes na maior lucratividade das grandes unidades em comparação com às pequenas, de um lado, e, de outro, na capacidade da forma de sociedade anônima (então chamada de companhia por ações) de reunir massas de capital para projetos como ferrovias, que estão muito além das possibilidades dos capitalistas individuais.

Percebe-se, assim, que nos Distritos Industriais Italianos diminuiu o número de PMEs (salto quantitativo) e não aumentou o número de grandes empresas que acabaram apenas incorporando (através de fusões) as firmas menores (salto apenas qualitativo, devido à centralização do capital). Isso deveu-se, principalmente, à reestruturação do processo produtivo internacional, de onde surgiram as inovações tecnológicas e organizacionais. A despeito disso, observe-se o que preleciona Furtado (1964, p. 19):

O que interessa aqui assinalar é o reconhecimento de que o processo de rápida mudança que caracteriza a nossa cultura reflete as transformações intensivas que uma tecnologia em acelerado desenvolvimento introduz no seu processo produtivo.

E enquanto estivermos nesse terreno, permaneceremos dentro do marco da hipótese simplificada que formulou Marx partindo da concepção dialética da história.

O que mais impressiona verificar é que os mesmos fatores que desencadearam as crises do capitalismo no século XIX acabaram se repetindo no final do século XX, já em plena era da globalização, em especial na Região de Emília Romagna (na década de 90), crises essas que vêm se perpetuando no século XXI, como as de 2008 e de 2011, seja por um motivo ou por outro, ou, mais resumidamente, devido ao mau funcionamento do neoliberalismo e da globalização.

Com efeito, a reestruturação do processo produtivo internacional, que culminaram com o advento da globalização, apresenta, ainda hoje, os mesmos problemas (desemprego tecnológico, elevada concorrência, crescimento dos monopólios) que já apresentava na época

de Marx (ressalvadas, é claro, os aperfeiçoamentos das máquinas e a criação de novos equipamentos e tecnologias). Mas a essência do modo capitalista de produção do presente momento ainda preserva as mesmas peculiaridades que já existiam no século XIX, conforme se depreende da leitura de Marx e Engels (1987, p. 32) em "O Manifesto do Partido Comunista":

Devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e ao constante incremento dos meios de comunicação, a burguesia arrasta para a torrente da civilização até as nações mais bárbaras. Os baixos preços de seus produtos são a artilharia pesada que destrói todas as muralhas da China e obriga todas as nações a adotar o modo burguês de produção, constrange-as a abraçar o que ela chama de civilização, ou seja, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria o mundo à sua imagem.

Lendo-se esse pequeno trecho, escrito em 1848, constata-se que os problemas capitalistas nele apresentados jamais foram superados, pelo contrário, estão mais presentes hoje do que antes. Com efeito, Vargas (2000, p. 177) adverte que está inteiramente de acordo com Touraine (1998) quando este afirma:

Releia o “Manifesto Comunista” de 1848, e você ficará surpreso ao perceber o quanto é atual. Substitua, desde as primeiras páginas, “burguesia” por

“globalização” e você reencontrará imediatamente o mesmo entusiasmo dos negociantes e financistas de hoje e o poder aparentemente ilimitado das forças econômicas vitoriosas, que destruíram todas as experiências particulares da vida, de cultura e de profissão. (TOURAINE citado por VARGAS, 2000, p. 177)

E se foram esses, realmente, os mesmos fatores que desencadearam a crise nos Distritos Industriais Italianos nos anos 90, levando ao desaparecimento de inúmeras pequenas e médias empresas, tanto em Prato como em Emilia Romagna, por outro lado também foram esses os mesmos motivos que levaram, no passado, à extinção de pequenos produtores, segundo se depreende da leitura de Marx (1890, p. 727) em "O Capital":

Os capitais pequenos lançam-se assim no ramos de produção de que a grande indústria se apossou apenas de maneira esporádica ou incompleta. A concorrência acirra-se então na razão direta do número e na inversa na magnitude dos capitais que se rivalizam. E acaba sempre com a derrota de muitos capitalistas pequenos, cujos capitais ou soçobram ou se transferem para as mãos do vencedor.

Tais mudanças ocorridas tanto hoje como no passado são de natureza "qualitativa", porque o que interessa aqui verificar não é somente a quantidade de pequenos produtores que sucumbiram, mas a "concentração" da acumulação do capital, deslocando-se dos pequenos para os grandes empresários (“centralização" do capital), o que causou enorme impacto

negativo sobre as PMEs dos Distritos Industriais Italianos, em menor escala no Território de Emilia Romagna e em maior escala no territótio de Prato.

No caso brasileiro, a situação dos territórios também não é menos tensa, posto que na análise de Milton Santos (1999), citado por Etges (2001), "não há melhor indicador da crise por que passa a Nação que o território, afirma o autor; pela sua nervosidade, pela sua instabilidade, pela sua ingovernabilidade, enquanto território produzido."(SANTOS, 1996, p. 226).

A despeito disso, verdade seja dita:

Isto tudo é resultado das mudanças rápidas de normas que reconhecemos como luta global pela mais-valia maior, essa competitividade que está na mesma raiz da posição ocupada na economia global e exige uma adaptabilidade permanente das normas das grandes empresas, o que aumenta a instabilidade do território de "cima"

para "baixo". Isto é, a produção da ordem para as empresas e da desordem para todos os outros agentes, e para o próprio território, incapaz de se ordenar porque ideologicamente está decidido que estas grandes empresas são indispensáveis (ETGES, 2001).