Capítulo 3 – Caso de Estudo e Metodologia utilizada
3.2 Terceiro Setor
De acordo com alguns autores, o Terceiro Setor é proveniente do pós-II Guerra Mundial e surge no âmbito da implementação do Estado-Providência na Grã-Bretanha. Contudo, a sua afirmação ocorre no decurso da crise dos anos 1970, com o choque petrolífero em 1973, os governos adotam medidas para a redução de custos, altura em que a solidariedade e o crescimento económico se completaram. As organizações do Terceiro Setor surgem como alternativa para os serviços sociais fora do contexto Estatal (Salamon, 1998).
Segundo Salamon (1998) a crise do Estado-Providência não foi a única razão para o surgimento destas organizações, o aumento global da pobreza, a crise do socialismo, a crise ambiental, a revolução das novas tecnologias colocou o mundo em rede e deu a conhecer ao mundo novas culturas e o próprio crescimento económico foram fatores influentes para o desenvolvimento deste setor. Bordalo e Cruz (2010) referem que o crescimento económico permitiu que o Estado-Providência interviesse em três setores: pleno emprego, serviços sociais universais e assistência social.
Santos (2008) refere que o terceiro setor é constituído por um conjunto heterogéneo de organizações, com existência jurídica, institucionalmente independente do Estado e de natureza intermédia entre setor público e o setor lucrativo privado.
Franco e colaboradores (2005) acrescenta que fazem parte do Terceiro Setor um conjunto de organizações formais ou informais, religiosas ou seculares, constituídas por pessoas remuneradas, somente voluntários, ou ambas as situações. Estas organizações podem assumir funções de expressão (cultural, comunitária, ambiental, na defesa de causas, direitos humanos, religião, defesa de interesses, e expressão política), ou assumir funções de serviço (saúde, educação, sociais, entre outras).
Em sintonia com o que acontecia no resto da Europa, em Portugal, o Estado Providência progrediu, combinando dois fatores: a prosperidade económica e a coesão social.
O sistema governamental assumia a responsabilidade de manter as condições minimamente de vida aceitáveis para todos os seus cidadãos, e o seu raio de ação Assim, o Estado tinha uma participação ativa: (i) regulação da economia de mercado, mantendo
níveis de emprego; (ii) universalidade da prestação de serviços sociais (segurança social, educação, assistência médica, etc.); (iii) na rede de segurança dos serviços de assistência com o intuito de diminuir a pobreza (Santos, 2008).
Atualmente o conceito de cidadão abrange direitos e deveres de participação cívica, direitos de proteção na adversidade e deveres de solidariedade. Cabe ao Estado garantir a eficácia desses direitos, mesmo que não consiga assegurar a totalidade dos serviços. Consequentemente é o Estado o grande impulsionador das comunidades, procurando alianças na sociedade civil que tornem possível valer os direitos dos cidadãos (Santos, 2008).
Em Portugal, o Terceiro Setor é dominado pelas chamadas Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que são vitais para o desenvolvimento das sociedades, pela importância económica que representam bem como pelo papel de proteção social que desempenham (Ferreira, 2004).
Estas têm por objetivo o exercício da ação social na prevenção e apoio nas diversas situações de fragilidade, exclusão ou carência humana, promovendo a inclusão e a integração social, desenvolvendo para tal, diversas atividades de apoio a crianças e jovens, à família, juventude, terceira idade, invalidez e, em geral, a toda a população necessitada (Segurança Social, 2008).
As IPSS podem assumir uma multiplicidade de formas jurídicas, podendo ser de natureza associativa (Associações de Solidariedade Social; Associações de Voluntários de Ação Social; Associações de Socorros Mútuos; Irmandades da Misericórdia) ou de natureza fundacional (Fundações de solidariedade social). Podem, posteriormente ser agrupadas em Uniões, Federações e Confederações (Segurança Social, 2008).
As organizações sem fins lucrativos de ação social (OSFLAS) estão legitimadas em termos jurídicos pela Lei de Bases da Economia Social (Lei n.º 30/2013, de 08 de Maio). Esta Lei e no seu art.º 4º, refere a economia social como o conjunto das atividades económico-sociais, livremente levadas a cabo por estas entidades, ou seja, por entidades: (i) cooperativas; (ii) associações mutualistas; (iii) misericórdias; (iv) fundações; (v) instituições particulares de solidariedade social; (vi) associações com fins altruísticos que atuem no âmbito cultural, recreativo, do desporto e do desenvolvimento local; (vii) entidades abrangidas pelos subsetores comunitário e autogestionário, integrados nos termos da Constituição no setor cooperativo e social; e (viii) outras entidades dotadas de personalidade jurídica, que respeitem os princípios orientadores da economia social previstos no art.º 5º da Lei e constem da base de dados da economia social.
Segundo o art.º 5º são princípios orientadores: (i) o primado das pessoas e dos objetivos sociais; (ii) a adesão e participação livre e voluntária; (iii) o controlo democrático dos respetivos órgãos pelos seus membros; (iv) a conciliação entre o interesse dos membros, utilizadores ou beneficiários e o interesse geral; (v) o respeito pelos valores da solidariedade, da igualdade e da não discriminação, da coesão social, da justiça e da equidade, da transparência, da responsabilidade individual e social partilhada e da subsidiariedade; (vi) a gestão autónoma e independente das autoridades públicas e de quaisquer outras entidades exteriores à economia social; (vii) a afetação dos excedentes à prossecução dos fins das entidades da economia social de acordo com o interesse geral, sem prejuízo do respeito pela especificidade da distribuição dos excedentes, própria da natureza e do substrato de cada entidade da economia social, constitucionalmente consagrada.
O desenvolvimento do caso prático e implementação do modelo de avaliação do desempenho decorreu numa instituição do Terceiro Setor (instituição particular de solidariedade social, IPSS). As IPSS representam hoje um importante papel para o sistema de proteção social, uma vez que dão respostas locais a uma grande parte da população que se encontra vulnerável, condicionada e debilitada (Nunes, Reto, & Carneiro, 2001).