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Terceiro setor em expansão: conceito e dados

Entre as conceituações recorrentes para delimitar o terceiro setor, uma das definições operacionais utilizadas é de que este setor está amparado em uma esfera de atuação pública não-governamental, formado a partir de iniciativas privadas, voluntárias, sem fins lucrativos, no sentido de promover o bem co- mum (BNDES, 2001).

Na visão de Soares-Baptista (2006) o terceiro setor não pertence ao setor público nem ao setor privado com fins lucrativos. Sua atuação busca preencher as lacunas sociais que podem ter sido deixadas pela atuação ou não atuação do Estado e de organizações privadas com fins lucrativos. De acordo com Soares- Baptista (2006), o terceiro setor tem suas raízes ligadas ao associativismo operário do século XIX e a sociedade civil passa a atuar com força neste setor a partir do final do século XX.

A distinção do terceiro setor é de que ele surge como possibilidade de re- dimensionar o primeiro e o segundo setor, sendo composto por organizações que visam gerar benefícios para a coletividade (embora não sejam integran- tes do governo) e tenham uma constituição privada (embora não visem gerar lucros). Como observa Saraiva (2006, p. 25) “o mote para o terceiro setor é, basicamente, preencher uma lacuna cada vez maior entre o que os cidadãos demandam e o que é oferecido pelo Estado”.

Na concepção de Montaño (2005) a ascensão do terceiro setor resulta, so- bretudo, do consenso de Washington, que buscou reinventar as relações do sistema produtivo com o Estado e a sociedade civil. Conforme observam Correa e Pimenta (2006, p. 03), no Brasil o terceiro setor surge “como um compromisso possível da sociedade civil diante da diminuição da responsa- bilidade estatal e do espaço inquestionável do mercado no bojo da reforma neoliberal”. Contudo, Correa e Pimenta (2006) corroboram que no Brasil o terceiro setor concretiza-se a partir do ativismo social do empresariado, com o surgimento e desenvolvimento de importantes fundações, aparecendo, muitas vezes, como frágil a noção de um terceiro setor não-governamental e distante do mercado.

Baseando-se em dados do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) e no relatório produzido por esta entidade sobre as fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil (FASFIL), observamos que para o período de 2006-2010 houve um crescimento da ordem de 8,8% das FASFIL no Brasil, que passaram de 267,3 mil para 290,7 mil entidades no período. Ao analisar a distribuição das atividades do terceiro setor no Bra- sil, os dados da pesquisa (IBGE, 2012) revelam que a distribuição espacial das entidades por grandes regiões mostra diferenças importantes para o caso do Brasil. Entre as entidades mais antigas, criadas até o final dos anos 70, predominam aquelas sediadas no Sudeste (55,4%). Entre as instituições mais recentes, cresce a participação das sediadas na região Nordeste do país, que

representam 25% do total de entidades que surgiram entre os períodos 2001- 2010 (IBGE, 2012).

Uma análise geral das atividades desenvolvidas por organizações do ter- ceiro setor revela sua enorme diversidade, entre as quais se destacam as te- máticas voltadas à defesa dos direitos e interesse dos cidadãos (30,1%) e as religiosas (28,5%). No entanto, os setores que mais cresceram nos últimos anos foram os das entidades de educação e pesquisa, mais especificamente de educação infantil e educação profissional, que apresentaram crescimento de 43,4% e 17,7% respectivamente, seguidas pelas entidades de saúde (8,1%), cultura e recreação (6,8%) e assistência social (1,6%). Em contrapartida, observou- se uma redução na área de habitação (-5,8%).

No grupo de entidades mais antigas, criadas antes dos anos 1980, pre- dominam as entidades de religião (39,5%) e cultura e recreação (19,6%). O relatório de Estudos e Pesquisa sobre Informação Econômica (IBGE, 2012) evidencia que o crescimento do emprego formal ocorreu em paralelo a um ga- nho na remuneração dos trabalhadores das FASFIL: os salários mensais, em 2006, eram de R$ 1.569,53 e elevaram-se para R$ 1.667,05 em 2010 (em va- lores correntes de 2010). Ao atentar-se a questão de gênero, percebe-se que a remuneração média das mulheres equivale a 75,2% da remuneração média dos homens. Assim, o salário médio mensal se configura em 3,9 salários mínimos para os homens e de 2,9 salários mínimos para as mulheres.

A análise da evolução das FASFIL, de acordo com os Estudos e Pesquisa sobre Informação Econômica (IBGE, 2012), indica que essas instituições con- tinuam crescendo no Brasil, ainda que em um ritmo bem menos acelerado do que em períodos anteriores, especialmente entre o final dos anos 1990 e os primeiros dois anos do milênio, quando se observou uma grande expansão do setor.

O terceiro setor tem-se constituído enquanto campo heterogêneo, à me- dida que dele fazem parte entidades de iniciativa privada, sem fins lucrativos, que possuem em comum, fundamentalmente, os propósitos públicos. No Bra- sil, a heterogeneidade do terceiro setor dificultou a realização de ações no sentido de mapear, quantificar, qualificar e analisar as organizações que com- põem este setor específico da economia.

O desenvolvimento do terceiro setor no mundo ganha força a partir das décadas de 60 e 70. No Brasil, em função das restrições político-partidárias impostas no período da ditadura, o terceiro setor prospera nas décadas de 80

e 90. Das antigas organizações nacionais destacam-se aquelas que, direta ou indiretamente, atuavam através das igrejas cristãs. Já nos anos 90 ocorreu a entrada do setor empresarial no terceiro setor, sobretudo através da atuação de fundações e institutos. Este movimento simboliza a entrada do setor empre- sarial na área e insere uma visão mais mercantilista à área em questão, possi- bilitando a captação de recursos e desenvolvimento de parcerias para muitas instituições (BNDES, 2001).

Sugiram, nos últimos anos, discussões em torno de um marco legal para regulamentação do terceiro setor no Brasil. Estas discussões buscam incidir de forma positiva nos mecanismos sociais de controle, fortalecendo iniciativas da sociedade civil na busca pela sua cidadania democrática e maior autonomia.

Entre os eventos que corroboram para a discussão de regulamentação do terceiro setor no Brasil, destacamos o decreto Lei no 9.790, de 23 de março de 1999, que institucionaliza a figura das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) e institui o termo de parceria entre o poder público e as OSCIPs. Até este momento, as organizações não governamentais não tinham suas ações amparadas em uma legislação própria e específica as suas necessidades. A proposição estabelece normas gerais para licitações e contratação entre entidades sem fins lucrativos e a administração pública.

Surge, ainda, o Decreto no 7.568, de 16 de setembro de 2011, cujo ar- tigo 5oprevê a instituição de Grupo de Trabalho “com a finalidade de avaliar, rever e propor aperfeiçoamentos na legislação federal relativa à execução de programas, projetos e atividades de interesse público e às transferências de re- cursos da União mediante convênios, contratos de repasse, termos de parceria ou instrumentos congêneres”.

Atualmente a discussão gira em torno de um marco regulatório para as organizações não-governamentais (ONGs), pois a ausência de uma legislação adequada reduz o papel das ONGs à execução de políticas governamentais. O diretor executivo da Associação Brasileira de ONGs (ABONG)1observa que há, no Brasil, uma fragilização quase generalizada das condições de trabalho das organizações e uma suspeição que dificulta a sua interação com gestores públicos idôneos e com a sociedade de forma geral.

Como observa Saraiva (2006, p. 1), temas como a profissionalização das

1Damien Hazard, Economista, coordenador da ONG Vida Brasil, diretor executivo da As-

ONGs no Brasil e sua relação com o sistema capitalista, o altruísmo dos atores do terceiro setor, o controle do Estado e das ONGs sob a ótica da legislação e da sociedade intensificam o debate sobre a atuação do terceiro setor no país.

As relações públicas e as contribuições e potencialida-

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