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CAPÍTULO IV PARTES E TERCEIROS NO PROCESSO CIVIL

2. Terceiros

2.1 CONCEITO PROCESSUAL DE TERCEIRO

O conceito de terceiros, como adiantado no sub-item 1.1 deste capítulo, é encontrado por negação, exclusão, ou seja, é terceiro todo aquele que não é parte.

Sobre o assunto, já tivemos a oportunidade de colacionar a lição de Chiovenda198que define terceiro como todo aquele que não pede e em face de quem nada se pede em juízo.

198

CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. São Paulo: Saraiva, 1965, II v, p. 234.

Logo, em um processo pendente entre A, como autor, e B, como réu, sendo, portanto, A e B partes do processo, apresentam-se como terceiros todos os demais que não são partes no processo pendente, é dizer, C, D, E, F etc.199

Terceiros, portanto, são todos os que não são partes, por isso, afirma-se que o conceito de terceiros é encontrado por negação.

Nesse sentido, para verificarmos quem são terceiros, basta verificarmos aqueles que não são partes.

Desse modo, se consideram terceiros no processo: (a) todos os que não são autores; (b) todos os que não foram citados; (c) todos os que não intervieram voluntariamente no processo; (d) todos os que não sucederam a alguma das partes originárias.200

De ver-se que o conceito de terceiros aqui exposto é singelo, entretanto, o mesmo é de inestimável utilidade para o objeto do presente trabalho, uma vez que a distinção entre partes e terceiros, para nós, tem apenas a finalidade de identificar quem suportará a autoridade da coisa julgada (partes) e, ao revés, quem suportará tão-somente o efeito natural da sentença (terceiros).

Logo, como dito, revela-se de suma importância a fixação do conceito de partes e de terceiros no estudo dos limites subjetivos da coisa julgada.

2.2 TERCEIRO E INTERESSE NA DEMANDA

Como já enfatizado no Capítulo III, há repercussão da eficácia da sentença e, excepcionalmente, da coisa julgada, diante de terceiros.

O fato é que a grande maioria das pessoas é alheia as causas em andamento no País e sequer sabem do que estas tratam. Poucas pessoas, é bem verdade, tem um sumário conhecimento de algumas destas causas em decorrência da divulgação das

199

CARNEIRO, 2003, p. 63.

200

mesmas nos meios de comunicação. Diante desses casos, cuida-se do que denominamos pessoas (terceiros) totalmente indiferentes a tais demandas.201

A propósito, terceiros juridicamente indiferentes são aqueles em que a repercussão de uma demanda atinge somente a sua esfera afetiva ou expectativas econômicas.202Assim, citamos dois exemplos clássicos trazidos pela doutrina de terceiros juridicamente indiferentes: a) familiares de um casal que decide ajuizar ação de separação judicial, pois podem vir a ser afetados, emocionalmente, pelo desenlace dos cônjuges desavindos; b) demais credores, diante de ação de execução promovida por apenas um deles em face do devedor comum, pois tal fato poderá prejudicar a perspectiva de adimplemento quanto aos demais credores.203

O que se observa, portanto, nos casos dos terceiros juridicamente indiferentes é que a repercussão de uma determinada ação não atinge as suas respectivas esferas jurídicas, embora possa causar um prejuízo de fato ou econômico.

Há outros casos, todavia, em que a demanda ajuizada entre X e Y pode vir a afetar, direta ou indiretamente, a esfera jurídica de Z. Um caso clássico é a ação de despejo ajuizada pelo locador X em face do locatário Y que, se procedente, poderá provocar a resilição do contrato de sublocação firmado com Z. De ver-se que o sublocatário Z tem interesse jurídico na ação de despejo, pois o mesmo poderá ter o seu contrato de sublocação extinto em caso de procedência da ação de despejo. Logo, esse interesse jurídico é o suficiente para que o terceiro (sublocatário Z) possa participar da relação processual entre X e Y sendo, neste caso, Z um terceiro juridicamente interessado.

O que decorre dessas assertivas é que existem terceiros juridicamente indiferentes e terceiros juridicamente interessados. A importância da distinção entre estas duas espécies de terceiros é que somente os terceiros juridicamente interessados podem vir a: (a) intervir na causa (artigos 56 a 80 do CPC); (b) ajuizar ação rescisória (art. 487, II do CPC); (c) interpor recurso na condição de terceiro prejudicado (art. 499 do CPC); (d) opor embargos de terceiro (art. 1046 do CPC) e (e) impetrar mandado de segurança. 201 CARNEIRO, 2003, p. 64. 202 Ibid., p. 64. 203 Ibid., p. 64.

Portanto, não é todo terceiro que pode intervir no processo, ajuizar ação rescisória, interpor recurso, opor embargos de terceiro ou impetrar mandado de segurança, mas somente aquele que for juridicamente interessado na relação jurídica material discutida em processo alheio.

Como adverte Cassio Scarpinella Bueno,204o terceiro tem interesse jurídico quando o bem da vida de que se afirma titular depende, em maior ou em menor grau, do que já está posto em juízo.

De ver-se que a previsão no Código de Processo Civil de institutos ligados à tutela dos direitos de terceiros, revela que o legislador estava ciente da possibilidade dos efeitos e, eventualmente, da coisa julgada, proferida em um processo inter alios, vir a atingir não somente as partes, mas, também, terceiros.

Note-se que se a possibilidade de extensão dos efeitos da decisão judicial a terceiros não existisse, por qual razão, então, haveria o legislador de conferir legitimidade ao terceiro juridicamente interessado de interpor recurso? Ou opor embargos? Ou, até mesmo, ajuizar ação rescisória?

Logo, não há dúvidas de que terceiros podem ter interesse jurídico no resultado de uma demanda entre A e B (partes), razão pela qual, o Código de Processo Civil, acertadamente, trouxe a previsão de institutos destinados à tutela dos direitos dos terceiros.

Diante do exposto, duas situações são possíveis: (a) aos terceiros que sofram prejuízo jurídico por decisão judicial já transita em julgado, é possível o ajuizamento de ação rescisória dentro do prazo decadencial de 02 anos; (b) aos terceiros que sofram prejuízo jurídico (ou possam vir a sofrer) em decorrência de ação judicial, ainda não transita em julgado, a depender do momento processual e das peculiaridades do caso concreto, é possível: b.1) intervir na causa (intervenção de terceiros); b.2) interpor recurso; b.3) opor embargos de terceiro e b.4) impetrar mandado de segurança.

O estudo dos instrumentos processuais disponíveis aos terceiros juridicamente interessados, contudo, extrapolaria os limites a que este trabalho se dispôs, razão pela qual, limitamos a citá-los como instrumentos existentes no ordenamento jurídico vigente e, sobretudo, como indicativos de que embora de forma excepcional, terceiros

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podem vir a sofrer prejuízo jurídico decorrente de sentença proferida em processo alheio (inter alios).