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TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

PROJETO: MULHERES DAS ÁGUAS: SIGNIFICADOS DO CORPO-QUE- TRABALHA-NA-MARÉ

Estou convidando você para participar de uma pesquisa sobre o corpo no trabalho da maré. O objetivo deste estudo é compreender como as marisqueiras significam o corpo- que-trabalha-na-maré. Eu como mestranda da Universidade Federal da Bahia, através do Programa de Pós-graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho, sou responsável por este projeto que foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Maternidade Climério de Oliveira.

Estão sendo convidadas para participar deste estudo as marisqueiras da comunidade de Ilha das Fontes. Serão feitas entrevistas, observações das atividades, fotografias e ou filmagens. Neste momento, você está sendo convidada a responder uma entrevista, que será gravada e transcrita posteriormente. Nesta entrevista faremos uma questão aberta sobre seu trabalho de mariscagem aqui na Ilha das Fontes.

Sua participação é voluntária e muito importante. As informações obtidas serão mantidas sob sigilo, sendo estritamente confidenciais e somente serão utilizadas para este fim. Se você precisar de qualquer esclarecimento adicional sobre a pesquisa estes serão fornecidos em qualquer tempo do seu curso.

Consentimento: Eu,____________________________________ li ou ouvi a leitura do consentimento informado. Tive a oportunidade de perguntar questões sobre o projeto e elas foram respondidas adequadamente. Sou voluntária em participar deste estudo.

Salvador, ___________ de _____________ de 2011.

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ANEXO II

O julgamento de Zé da ‘Costa’

Era cedo, a segunda-feira que geralmente se inicia tranqüila devido às comemorações do domingo parecia às avessas. Já se observava desde o outro lado da Ilha um tumulto na praça, muitos homens, um falatório, um vai e vem de pessoas, cenário bem diferente dos outros dias de calmaria e labor.

O barqueiro disse que era roubo. “Entraram no bar de Renato e levaram quatro mil essa madrugada. Pegaram um cara perambulando aqui perto, nunca vi por aqui. Deve ser da Costa. Agora tão lá apertando pra vê se ele fala alguma coisa”.

O que de longe era tumulto de perto estava muito bem organizado. O suposto acusado Zé da ‘Costa’, nome pelo qual ficou conhecido, estava sentado no banco da praça cercado por um pequeno júri composto pelo irmão de Renato e Tonho, aparentemente calmos. A platéia era representada por quase todos os homens da Ilha, a priori todos da platéia o condenavam. Duduca, um jovem rapaz com problemas mentais, vigiava o acusado. Agitado e com o celular em punho estava Renato, a vítima, a ligar para alguns conhecidos da polícia.

Ao lado do bar de Renato tem o de Rafael e de sua esposa Wilma. Neste dia apenas Wilma presenciava o movimento de forma ativa, porém dentro de seu bar. Gritava a todo o momento “Soltem o rapaz, você não sabem se ele roubou, não batam nele”. E era isso o que mais acontecia, Zé da ‘Costa’ apanhava da platéia mais afoita, pois a função de Duduca era só vigiar, não tinha ninguém para proteger o réu, apenas os gritos de Wilma.

Entre tapas, empurrões e alguns murros sempre chegava uma ‘bombinha’ de cachaça vinda do bar de Renato. Bebia o réu, o júri e a platéia. A vítima bebia vinho no bar de Wilma. Zé da ‘Costa’ alegava “Só digo quem foi quando a polícia chegar!” e a platéia gritava “Ele sabe quem foi e não tá querendo dizer!”, “bate que ele fala!”. E lá ia mais uma cena de tapas, empurrões e alguns murros e novamente a rodada de cachaça acompanhada de amendoim.

O sol que antes despertava ao leste agora se encontrava acima de nossas cabeças, o cenário permaneceu quase intacto, quase, pois agora todos estavam embriagados, réu, júri, platéia e vítima. Cambaleantes os tapas, empurrões e alguns murros já surgiam seu

motivo. “Quero urinar” gritou Zé da ‘Costa’. “Acompanha ele Duduca, mas fica de olho se não ele foge”. “Fugir para onde? Olha como ele tá, não consegue nem andar, deixe o rapaz em paz” retrucava Wilma. “Ele só sai daqui quando falar o que sabe” dizia Renato que ainda ligava, porém nada da polícia chegar.

Passou um pescador que compadecido com o estado de Zé da ‘Costa’ se aproximou, tirou dois reais do bolso e falou “Vá lá e compre sua cachaça”. Cambaleante Zé levantou e pediu a bombinha que foi oferecida aos demais. Todos muito solidários, novamente beberam.

A tarde passou e a noite já se aproximava. Duduca ainda vigiava o réu, a platéia tinha diminuído, porém ganhou a presença de algumas mulheres, como Del, Dalice e Quequel. Acompanhando o coro de Wilma as três pediam para não baterem e conversavam entre si sobre o acontecido, o roubo do bar de Renato. “Roubaram três mil, acho”. “Sabe o que é... Renato não deixa o dinheiro em casa pra mulher não pegar, isso é que dá. Escondeu de um e deu pra outro” disse uma delas, todas riram. Todas observavam a situação da porta do bar de Wilma, Del, a mais curiosa, se aproximava para ver o estado do rosto de Zé da ‘Costa. “Ele tá com o nariz sangrando, bateram demais, porque ele não conta logo? Ou diz que não viu nada..., fica ai dizendo que vai contar pra polícia, tu é doido”.

Já era noite, a platéia estava esgotada, Renato já não sabia mais para quem ligar, passou o dia todo com o celular no ouvido e um copo de vinho na mão. A essa altura já não pensava mais nem tanto no dinheiro perdido, mas no seu prestígio que não foi valorizado. Ele um homem com contatos na polícia não tinha conseguido um para resolver seu problema. Até um barqueiro ficou aguardando para transportar os policias, passou o dia sem beber nada.

Com o anoitecer veio a chuva, as 21:00 um carro da polícia parou do outro lado da Ilha. Rapidamente o barqueiro foi em sua direção. O suspense pairou no ar. Renato se alegrou, a platéia animada, todos na expectativa da intervenção. Zé da ‘Costa’ respirava calmo, mal abria o olho e não conseguia passar mais de cinco segundos em pé.

Antes que o barqueiro conseguisse chegar à margem para atracar, o carro dos policiais deu partida para seguir. O ânimo de desfez, até Zé da ‘Costa’ se abateu, o que ele tanto guardou para contar para os policiais estava prestes a deixar de ser dito. O barqueiro conseguiu arrancar algumas palavras de um dos policiais. “Se vocês acham que ele é culpado atire-o ao mar amarrado a uma pedra!” O eco da frase chegou antes mesmo do barqueiro. O barulho recomeçou, todos falavam ao mesmo tempo,

indignados com a atitude dos policiais e a possível sentença. “Ele não vem aqui e ainda manda a gente matar o infeliz, e se ele não for culpado é a gente que paga depois”, “Oxe, como ele pode falar isso”, “Jogou a responsabilidade dele para a gente”, “Como é que fala isso, quem vai fazer uma coisa dessas”. Quando a confusão ficou um pouco mais contida Zé da ‘Costa’ se pronunciou após tomar mais um gole da cachaça. “Eu ia falar..., eu ia falar pra eles que eu não vi nada!” Após a fala caiu ao chão. Duduca não mais o vigiava, a platéia se esvaziava e a vítima assumiu o papel de juiz e decretou a sentença pondo um fim no julgamento de Zé da Costa. Zé estava livre para voltar à Costa, embriagado, mal se agüentava em pé, feliz e pela primeira vez valente. “Pode vim todo mundo que eu bato, eu bato...”

Todos cambaleantes seguiram para suas casas, apenas as mulheres permaneceram aguardando a chuva passar e observando se Zé conseguiria mesmo ficar em pé.

ANEXOS III

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