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2.3 Etapa Pós-decisão ou de Acompanhamento Ambiental

2.3.1 Termos e instrumentos de gestão relacionados

O termo acompanhamento (follow-up, na língua inglesa) é amplo e abrangente e, a depender da jurisdição onde é adotado recebe diferentes denominações.

Segundo ARTS (1998) e ARTS; CALDWELL; TACHÉ (2000), para descrever as atividades pós-decisão do processo de AIA, na literatura em inglês,

encontram-se os termos EIA monitoring and auditing (monitoramento e auditoria de AIA) ou EIA Follow-up (acompanhamento de AIA). Também são usados os termos

ex post evaluation of EIA ou EIA evaluation (avaliação pós-decisão de AIA ou

estudo ou análise de AIA). No Canadá é denominado EIA follow-up (acompanhamento de AIA) e na Austrália e Hong Kong, monitoring (monitoramento) e auditing (auditoria). Na Holanda adota-se ex post evaluation of

EIA (avaliação pós-decisão de AIA ou simplesmente estudo ou análise de AIA).

Outro termo usado em alguns países (CANTER, 1996), para denotar o gerenciamento ambiental no ciclo de vida de um projeto, é análise pós-projeto (PPA – post project analysis, em inglês). Esse termo refere-se aos estudos empreendidos durante as fases de implantação (pré-construção a construção) operação e encerramento de um dado empreendimento após a decisão ter sido tomada.

ARTS (1998) considera o termo acompanhamento como o mais apropriado para abranger esta gama de atividades. Para DIAS (2001), este termo genérico cobre um “leque amplo de atividades, desde a simples inspeção e fiscalização do local até processos sistemáticos, desenvolvidos durante e após a fase de implementação do projeto, depois de tomada a decisão de prosseguir”.

Os instrumentos de gestão ambiental, monitoramento e auditoria são freqüentemente relacionados ao acompanhamento ambiental. Para KRAWETZ; MACDONALD; NICHOLS (1987), monitoramento é uma atividade cuja essência é a coleta de dados, a partir de um programa de observações repetidas e registro de variáveis ambientais em um determinado período de tempo. O monitoramento tem como propósito fornecer informações das características e/ou estimar a magnitude dessas variáveis.

A auditoria contrasta ao caráter contínuo do monitoramento, sendo uma atividade periódica que envolve a comparação e verificação dos dados de inspeção com critérios preestabelecidos. Embora instrumento de caráter voluntário tanto nos EUA quanto na Europa, no Brasil a realização de auditorias ambientais encontra-se respaldada por legislação em alguns municípios (Santos, Vitória) e Estados (Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais), estando, inclusive, objeto de discussão como projeto de Lei Federal 3160/92 (LA ROVERE et al. 2000).

Para ARTS (1998), o acompanhamento ambiental incorpora e apóia-se no monitoramento e na auditoria e, por envolver julgamento de valor, pode resultar em medidas adicionais e ajustes à decisão original. Nesse sentido, não se limita somente a verificar se os impactos atuais estão em conformidade com os previstos.

A adoção de medidas de mitigação e o monitoramento de parâmetros ambientais, estabelecidos com base no projeto e ambiente afetado, são atividades fundamentais para atenuação de impactos. HOLLICK (1981) destaca que são necessários mecanismos que garantam a implementação das medidas mitigadoras preconizadas nas fases iniciais de AIA. Assim, a revisão, reavaliação e readequação das medidas estabelecidas no EIA, e eventualmente dos indicadores ambientais, muitas vezes necessárias, são tarefas pertinentes ao acompanhamento ambiental.

Para MARSHALL (2002), deve ser dado enfoque à forma como as medidas mitigadoras propostas estão integradas no programa de gerenciamento e com relação ao ambiente local. Mais do que a questão tecnológica ou de gestão, deve-se preocupar com o fornecimento de subsídios ao decisor na avaliação da relativa eficiência e integralidade das medidas preconizadas.

Outro instrumento também comumente associado ao acompanhamento é o Sistema de Gestão Ambiental (SGA). O SGA é internacionalmente normalizado, assim como as auditorias ambientais, sendo a série ISO (International Organization

for Standardization) 14.0005, referente ao tema, a mais conhecida e com grande penetração. De acordo com MOURA (2002), a emissão dessas normas “vem motivando as empresas a investirem em melhorias ambientais, através da implantação de sistemas de gestão ambiental e um cuidado maior quanto aos processos de fabricação, produtos e rejeitos gerados, visando atender a uma expectativa dos consumidores. Essa mobilização vem conduzindo à busca certificação dos sistemas de gestão ambiental da empresa, à semelhança da certificação ISO 9.000” (série de normas sobre qualidade).

RIO (1996), ao avaliar as negociações para implantação da ISO 14.000, tece algumas considerações. Para esta autora, o SGA normativo caracteriza-se por ser a forma de manifestação de interesses de apenas um grupo social, no caso a empresa.

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“Estrutura organizacional, atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos para desenvolver, implementar, atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental” NBR ISO 14.001:1996.

Na gestão ambiental, por sua vez, deve prevalecer a multiplicidade de atores e interesses. Ressalta, assim, que a “projeção desse conjunto de normas como instrumento regulador de gestão ambiental não pode ser tomada como instrumento substituto às regulamentações e à gestão ambiental de caráter público”.

A questão da normalização, vantagens e benefícios associados e posições favoráveis ou contrárias à certificação, é um campo vasto de discussão nas várias áreas do conhecimento que se inter-relacionam com gestão ambiental. Uma empresa pode possuir um SGA implementado e optar pela não-certificação. Não obstante, conforme salientado por FORNASARI (2001), “a prática dos princípios e procedimentos contidos nas normas é de grande valia à gestão ambiental de uma organização independentemente de eventuais exigências contratuais ou de mercado”.

Para ARTS; CALDWELL; TACHÉ (2000), o SGA operacionaliza a implementação de todas as medidas desenvolvidas no estágio pré-decisão. Contudo, enquanto o SGA integra, o acompanhamento ambiental garante a conformidade dessas medidas e sua efetividade, devendo ser estreitados os vínculos entre esses dois instrumentos.

SÁNCHEZ; HACKING (2002), ao discutir AIA e SGA, consideram que os dois instrumentos têm o mesmo propósito, redução de impactos ambientais. Porém, enquanto o primeiro, na confecção do EIA, concentra o foco no componente ambiental afetado e na determinação das medidas mitigadoras, o segundo relaciona- se mais com as atividades e a proposição de medidas preventivas. A experiência adquirida tem demonstrado que, pelos formatos e arranjos distintos, o EIA não subsidia um SGA. Uma contribuição para superar tal obstáculo e integrar as duas ferramentas seria a elaboração de um EIA estruturado em torno de um modelo atividade-aspecto-impacto.

Para MORRISON-SAUNDERS et al. (2001), MARSHALL; SMITH; WRIGHT (2001) e LAMOEN; ARTS (2002), o acompanhamento ambiental também fornece a ligação entre AIA e SGA e garante a implementação das medidas de mitigação para proteção e controle do meio ambiente. MARSHALL (2001), ao estudar empresas do setor de transmissão e distribuição elétrica na Escócia, constatou que o acompanhamento possibilitou que os compromissos do projeto com a

mitigação de impactos fossem colocados em prática, por simples estruturas de gerenciamento.

BITAR (2001) considera que o panorama de desenvolvimento de gestão ambiental no Brasil aponta para a utilização da AIA e de SGA, amparados pela auditoria ambiental. Esses seriam os alicerces básicos na construção de um modelo integrado e aplicável às relações de um empreendimento com o meio ambiente ao longo de todo o seu ciclo de vida. Destaca, também, que a fase de instalação de um empreendimento é o início da transição AIA-SGA.

Ainda, conforme enfatizado por BRAGA (et al. 1996), o amplo uso de auditoria ambiental está inserido no contexto de SGA. Isso não exclui que uma empresa que não tenha um SGA implementado não possa ser auditada com base nos documentos utilizados no licenciamento ambiental.

Como a ênfase do acompanhamento está para o monitoramento de indicadores e inspeção das atividades, fornece dados acerca dos componentes ambientais afetados e das modificações geradas pelo projeto, podendo subsidiar a elaboração de um SGA, com suporte de auditorias ambientais.