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Os termos software livre e hardware são empregados quando as informações (có-

No documento Distopias Tecnológicas – Editora Circuito (páginas 112-118)

coletivo gambiologia

43. Os termos software livre e hardware são empregados quando as informações (có-

digos, especificações e diagramas esquemáticos) sobre o software ou hardware são dis- ponibilizadas de forma irrestrita, gratuita ou após algum pagamento.

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fred A idéia era fazer uma espécie de Skype analógico, com a mes- ma funcionalidade desse dispositivo de software, contudo sem utili- zar nenhuma ferramenta digital. Tínhamos duas maletas, cada uma com dois televisores pequenos portáteis, uma câmera, uma pequena central de rádio e tv. Cada usuário via a si mesmo num monitor, e via o outro no segundo monitor da maleta, como no Skype.

lucas Cada mala tinha um transmissor, e cada transmissor era um canal. Por exemplo, a primeira mala transmitia a imagem e o áudio no canal 11. E a outra transmitia tudo no canal 15. Dessa forma, cada televisão de uma mesma maleta sintonizava um desses canais. fred O resultado final do áudio era mixado e a conversa das duas pessoas era transmitida numa estação de rádio pirata fm. Essa rádio aberta revertia totalmente a ideia de privacidade, uma vez que torna- va o chat algo público. A privacidade é um grande valor nas comuni- cações atuais, e esse dispositivo não deixa de ser um pouco irônico. lucas Além disso, armar uma rádio pirata foi um recurso que ti- vemos que pesquisar bastante, pois é algo um pouco underground. Compramos o transmissor que atua num raio de dois quilômetros, que é o limite da lei.

fred É que a alta tecnologia, nos dias de hoje, gera um romantismo em relação às velhas tecnologias. Acho que esse tipo de trabalho pro- blematiza isso. A Mala Chat é desajustada, complicada, muito mais pesada para manipular do que o smartphone. Entretanto, essa pode ser, ainda, uma opção. Não importa muito o funcionamento da mala, interessa a discussão que o trabalho propõe.

O trabalho está relacionado igualmente com a desmistificação da tec- nologia. De certa maneira, trata-se de abrir a caixa preta mencionada por Flusser, da qual somos todos alienados, porque só conhecemos o input e o output dos equipamentos tecnológicos que utilizamos.

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Ademais, vejo isso explicitado no fato que vocês estão sempre dando oficinas, como uma tentativa de expandir essa “abertura” aos outros. Nesse sentido, é quase um ativismo.

lucas Sim, uma tentativa de espalhar o vírus. Dar oficinas também faz parte do nosso modus operandi, é uma prática que combina con- ceitualmente com o que fazemos [p. 46].

fred Além do mais, é uma forma de sustentarmos o projeto. Implica a democratização de tecnologias com as quais temos empatia e que são de difícil acesso, como o grafitti digital, visto que temos a oportu- nidade de levá-la para o interior, ou para um duelo de mcs.

ganso O próprio projeto Mala Tag foi muito interessante, as crianças adoram. Misturávamos, juntamente, grafitti eletrônico e analógico. A criança desenhava no papel, uma câmera captava, e esse desenho era projetado numa parede.

lucas Fornecemos, em toda ocasião, uma apostila nas oficinas para que as pessoas guardem aquele conhecimento que aprenderam. Acho isso muito importante. Muitas vezes, no campo das artes plásti- cas, não há o interesse de compartilhar o conhecimento com o outro. O artista guarda sua técnica e seu processo como algo quase secreto. fred Como falei previamente, a Gambiologia é quase um laboratório de experimentação sobre possibilidades de articulação que reverbera em várias mídias ou em vários modos de circulação. Ou seja, experi- mentamos todas as formas e produtos que fazem parte do universo criativo com a qual a Gambiologia quer dialogar, como o trabalho em galerias, peças de design, oficinas, palestras, a elaboração de revis- tas ou realização de exposições coletivas. Às vezes, o resultado de uma oficina é mais estimulante do que a participação numa grande exposição, na qual as pessoas visitam no dia da abertura e depois não há um retorno direto dessa experiência.

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Como vocês vêem a relação entre a gambiarra tecnológica e a arte contemporânea? Vocês acham que há uma dificuldade no sistema de arte contemporânea em absorver certos dispositivos da cultura ciber- tecnológica e da digitalização do cotidiano?

fred Para começar, arte digital, frequentemente, não é levada em consideração em curadorias de arte contemporânea. É como se o con- temporâneo fosse um universo à parte, uma palavra que nomeia um grupo ou tipo de trabalho, e não o que está sendo produzido hoje. Contudo, na arte normalmente se rotulam os movimentos em cada período histórico. Além disso, os projetos de arte eletrônica ou digi- tal possuem fatores de complicação relacionados com a conservação, com o funcionamento dos trabalhos, com a armazenagem e com a venda, o que realmente faz com que a arte eletrônica e digital seja um caso à parte. De qualquer forma, nunca tentamos entrar no circuito da arte contemporânea, somos procurados mais diretamente por pesso- as que já estão ligadas ao meio da arte digital.

Sim, talvez seja complicado esse hermetismo da arte contemporânea, uma vez que vocês circulam numa área mais ampla, com mais liberda- de e mais hibridez.

ganso Acho que a arte eletrônica e digital pode pertencer ao âmbito da arte contemporânea, depende de uma questão de leitura ou de curadoria. Pessoalmente, não tenho nada contra. Participamos, por exemplo, da exposição Tecnofagia, que possui esse viés eletrônico. fred Sim, mas as obras que estavam nessa exposição não entrariam numa Bienal, pertenceriam mesmo a um nicho.

lucas Ainda não, mas quem sabe na 40ª Bienal elas não estariam lá? Na Bienal passada havia o trabalho do Arthur Bispo do Rosário, que trabalha recuperando objetos de uma forma bem “gambiológica”. Faltava só um led (risos).

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fred O que vejo é que muitas pessoas do meio da arte contempo- rânea não entendem a Gambiologia, acham que é uma brincadeira. Talvez pelo fato de que não estamos ligados exclusivamente ao meio das artes plásticas, já que fazemos toda essa articulação, pensando em comunicação, design gráfico, design de produto, além de evocar o sistema de circulação de trabalhos e as redes sociais. Tudo isso nos interessa da mesma forma que uma exposição de arte contemporâ- nea. Tampouco possuímos o vocabulário específico da arte contem- porânea, sua articulação conceitual. Contudo, não somos alienados, só tentamos ser independentes. A Gambiologia pode até ser mais coerente com o tempo no qual vivemos do que um trabalho excessi- vamente apegado a questões específicas do meio das artes plásticas, uma vez que tentamos promover diálogos mais amplos. Finalmente, acho que a nossa relação com a arte contemporânea é mais de baixo para cima, ou seja, estamos mais em contato com os artistas do que com curadores e produtores.

Com base na ideia de antropofagia, vocês se consideram, como diz Giselle Beiguelman, “tecnófagicos”?

ganso O conceito de “tecnofagia” faz realmente parte da nossa proposta: alimentamo-nos desses objetos eletrônicos descartados, reconfiguramos e devolvemos esse material totalmente transforma- do. Porém não ficamos presos a um modelo, a uma pré-concepção. Um desafio surge e sua resolução é algo imprevisível.

fred Vejo que alguns momentos da arte brasileira fizeram retor- nar as ideias do manifesto antropofágico; desse modo, incorpora- mos as ideias de fora rompendo com uma atitude de colonizados. Valorizamos a cultura local e tentamos deglutir isso tudo, para produ- zir um resultado novo. A Tropicália e o Mangue Beat, de certa forma, dialogaram com essas ideias. Penso que as práticas gambiológicas têm um diferencial pelo momento socioeconômico que o país vive. Antes, por mais que a colonização fosse questionada, era impossível

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sair da posição de colonizados por uma questão da lógica mundial. Talvez, nesse sentido, poderíamos falar que nossa proposta é tam- bém política.

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