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4. MARAVILHA DE AMANHÃ

4.2 DIMENSÃO DE PRESENÇA E DE SENTIDO

4.2.2 Terra

quer sejam interativas ou não. A figura 34 ilustra esse olhar “imantado” ao digital, em detrimento à contemplação e à experiência da espacialidade arquitetônica.

O que se apreende é uma imersão ao universo das telas, um chamamento à interatividade capaz de apartar o sujeito da fruição da materialidade em que se encontra, desconectando-o da espacialidade física para conectá-lo ao mundo digital.

O percurso por um museu convencional tem como propósito a construção de uma narrativa ao usuário por meio do acervo, quer seja realizado de forma direcionada ou sem rota predefinida. O fato de ser inteiramente digital não compromete sua inserção na categoria institucional museu, embora usualmente se preservem materiais simbólicos nesses lugares de memória (NORA, 1993), objetos físicos e de valor histórico, cultural, artístico e social. Mas o que interpela sua condição é de fato a negligência com esse resgate e a abnegação de uma temporalidade de suma importância para se pensar o amanhã. O acervo digital se aproxima mais da noção de gamificação89 nessa primeira seção e se reitera nas demais.

O cubo da matéria, o primeiro da sequência, mostra o planeta Terra por fotografias a partir do cosmos. A proposta foi representá-la como um só astro e não mostrá-la em partes fragmentadas90. Paineis luminosos recobrem o grande cubo externamente, criando uma profusão de cores nas imagens do planeta. A proporção dos três módulos dessa “sala” do museu chama atenção e se coloca como um dos pontos centrais da exposição. Ao adentrar o cubo Matéria o visitante se depara com a sala escura e um único elemento central, que representa os oceanos. Um tecido leve e iluminado de forma cênica flutua na espacialidade em uma espécie de dança que acompanha os sons da Terra (Figura 36).

FIGURA 36 – O “BALÉ” DA MATÉRIA

Fonte: À esquerda e à direita: MUSEU DO AMANHÂ. Ao centro: PAIVA, Diego91.

Quatro ritmos associados à luz, ar, água e terra levaram a um só som, que remete ao clima do planeta. A fluidez e a leveza do objeto têxtil contrastam com o peso dessas questões climáticas trazidas nos paineis da sala. Apesar das paredes internas da sala trazerem telas digitais com imagens coloridas e informações textuais em paineis explicativos, o usuário se permite parar por instantes e fruir o “balé” que acontece ao centro.

90 Disponível em: <https://museudoamanha.org.br/pt-br/terra>.

91 Disponível em: <https://museudoamanha.org.br/>. Foto ao centro disponível em:

< http://www.nosnomundo.com.br/2016/01/e-melhor-deixar-o-museu-do-amanha-para-amanha/>.

A performance dançante do tecido em flutuação, parcialmente iluminado na sala escura, quando captada por um sujeito dotado de competência estésica, pode levar a uma dinâmica coordenada de ajustamento a um sentir junto, a partir da noção de regime de interação de Landowski (2005, 2014). Há um ajustamento entre a fluidez do elemento têxtil flutuante, o vento que o coloca em movimento performático, a luz que o desvela visualmente e o som que o embala (Figura 36). A penumbra do entorno cria uma ambiência de caráter cênico e a dinamicidade do objeto faz com que a apreensão seja de forte conotação estética.

O usuário é acionado a se desconectar por fração de minutos e se deixar levar pelos sons, pelas nuances cromáticas e a organicidade resultante do movimento da matéria flutuante. A desconexão, a suspensão do tempo, pode se configurar ainda como uma fratura, conforme termo cunhado por Greimas (2002), uma experiência estética da ordem do inesperado. Se a fratura de Greimas pode ser de algum modo exemplificada para além dos relatos do próprio autor, infere-se nas palavras de Félix Guattari uma aproximação ao que representa esse instante de ruptura temporal:

Um dia, quando eu caminhava com um grupo de amigos em uma grande avenida de São Paulo, senti-me interpelado, ao atravessar uma determinada ponte, por um locutor não localizável. Uma das características dessa cidade, que me parece estranha em vários aspectos, consiste no fato de que as interseções de suas ruas procedem frequentemente por níveis separados com grandes alturas. Enquanto meu olhar se dirigia, de cima para baixo, para uma circulação densa que caminhava rapidamente, formando uma mancha cinzenta infinita, uma impressão intensa, fugaz e indefinível invadiu-me bruscamente. Pedi então que meus amigos continuassem sua caminhada sem mim e, como em um eco das paradas de Proust em seus

"momentos fecundos" (o sabor da madalena, a dança dos sinos de Martinville, a pequena frase musical de Vinteuil, o chão desnivelado do pátio do hotel de Guermante...), imobilizei-me em um esforço para esclarecer o que acabava de acontecer comigo. Ao fim de um certo tempo, a resposta me veio naturalmente, algo da minha primeira infância me falava do âmago dessa paisagem desolada, algo de ordem principalmente perceptiva. Havia, de fato, uma homotetia entre uma percepção muito antiga - talvez a da Ponte Cardinet sobre numerosas vias de estrada de ferro que se abismam na estação Saint-Lazare - e a percepção atual. Era a mesma sensação de desaprumo que se achava reproduzida. Mas, na realidade, a Ponte Cardinet é de uma altura comum. Só na minha percepção de infância é que eu fora confrontado com essa altura desmesurada que acabava de ser reconstituída na ponte de São Paulo (GUATTARI, 1992, p.154).

A impressão “fugaz e indefinível” relatada por Guattari subsume a noção greimasiana de uma suspensão do tempo, que pode vir a suscitar uma experiência estética. O balé têxtil iluminado em meio à penumbra, em uma das poucas salas do museu, pode provocar no sujeito uma ruptura (GREIMAS, 2002).

Próximo à essa sala encontra-se o módulo Terra, que representa a vida.

Externamente o cubo traz letras vazadas em um grande painel digital que remete ao código genético que compõe todos os seres vivos, o DNA. A frase “Vida é inovação e repetição” surge de forma iluminada e em várias línguas, entremeando as letras dispostas no anteparo. Internamente, o módulo Vida apresenta uma variedade de paineis redondos, com diferentes diâmetros, que iluminam a sala escura e fazem remeter aos diferentes organismos da Terra. As fotos mostram os habitats do ecossistema da Baía de Guanabara, onde o Museu do Amanhã está situado e além desse, o ecossistema microbiano, carregado por todos os seres vivos (MUSEU DO AMANHÃ, 2017). Os paineis apresentam uma composição cromática que alude à natureza e às águas dos oceanos. Há uma harmonia visual, apesar do contraste dimensional de suas formas circulares. Os diferentes diâmetros remetem ao movimento, ao crescimento.

FIGURA 37 – “ESTAMOS TODOS CONECTADOS”

Fonte: fotos do arquivo pessoal da autora

Na foto à direita da figura 37 é possível depreender de um dos painéis a inscrição “But We Are All Connected” (Mas todos nós estamos conectados, tradução nossa). As imagens nas telas circulares apresentam ligações em rede aludentes à essa conexão global. O próprio acervo do museu, com telas que convidam à interação reiteradamente, denota que a conectividade permeia todos os espaços e relações humanas. Há um engendrando do fluxo informacional no espaço físico que não se pode mais segregar.

O terceiro e último cubo do ambiente Terra aborda o pensamento, como um dos elementos que compõem o tripé para responder à pergunta “Quem somos?”.

Neurocientistas atuaram na consultoria e elaboração de parte do conteúdo desse módulo (MUSEU DO AMANHÃ, 2017). Externamente o grande painel de LED apresenta o cérebro em atividades funcionais. O vídeo mostra as redes neurais, em conexões que provocam estímulos. Aos leigos na área médica é possível buscar alguns conhecimentos elementares do funcionamento cerebral por meio da interação propiciada pela espacialidade. Noções básicas como a estrutura do cérebro e até o desenvolvimento de funções cognitivas são apresentadas pelas telas interativas, buscando levar o usuário a imergir no universo do pensar e do sentir.

FIGURA 38 – SALA DAS CULTURAS EXPOSTAS

Fonte: fotos do arquivo pessoal da autora

Ao adentrar o cubo o visitante se depara com um labirinto de informações sincréticas — fotos e inscrições textuais aludentes aos sentimentos humanos, ao corpo ao planeta — que o faz perceber o quão diferentes são os seres humanos, apesar de sua igualdade como estrutura orgânica (MUSEU DO AMANHÃ, 2017). “O cérebro está sempre reagindo às mudanças do corpo e do ambiente, por isso é o órgão que desenvolve a incrível capacidade humana de se diferenciar por meio das culturas” (Id., 2017).

A espacialidade traz a cultura como elemento de diferenciação entre os homens. Uma delas faz uma espécie de labirinto com fotos e verbos que referenciam o futuro do planeta, dos sentimentos humanos. A menção a esse fator que diferencia os sujeitos surge em um dos totens centrais da sala escura, com a inscrição “Cultures – We Believe” (Cultura – Nós Acreditamos, tradução nossa). Não obstante haja uma referência direta à importância da cultura, é exatamente nesse aspecto que o museu, como instituição voltada a esse fim, demonstra sua maior abnegação.

Ao longo da análise vem sendo abordada a negligência do empreendimento com as origens do povo e a cultura da localidade onde está implantado. Os totens apresentam inscrições com sentimentos inerentes ao ser humano e fotos de povos e lugares. No entanto, a profusão imagética não leva a uma apreensão, uma captura da ordem da sensibilidade. O excessivo convite à apreensão das imagens reproduzidas nas telas e a diversidade cromática levam a um borramento visual, à efemeridade do olhar. Há uma fugacidade no acervo que parece interpelar sua condição museológica.