Capítulo 1. Passira e algumas histórias
1.2. Terra do Milho
Não necessariamente a “Terra do Milho”, mas uma cidade que já teve uma produção significativa de milho, feijão e também de algodão. A Secretaria de Educação, Cultura e Esportes de Passira relata que o município “já foi considerado o maior celeiro de milho e feijão da região”. Com uma terra favorável para a agricultura, o impedimento mais forte no desenvolvimento dessa atividade são as condições climáticas que tendem a se alterar com a
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Abordagem sobre o bordado, como artesanato, do Jornal do Comércio, em 5 de marco de 1993, numa matéria intitulada “O melhor roteiro do artesanato.
estiagem. Quanto ao cultivo do algodão, não se restringia às terras de Passira, mas a uma grande parte do agreste setentrional. No entanto, por volta de 1980, a chamada “praga do bicudo” 46
não só pôs a perder todo o plantio daquele período, como dificultou que se voltasse a produzi-lo e grande parte da população de Passira, segundo o relato da SECM, vivia desse cultivo.
A Lei nº 10.923 estadual de 12 de julho de 1993, previu em Orçamentos Fiscal e de Investimentos das Empresas, para 1994 47, a reativação da economia algodoeira, “expandindo em 20.000 ha as culturas de algodão no Estado.” A mesma pesquisa da SECM, que relata o declínio da produção do algodão em Passira, também confirma essa intenção, do governo, em 1994, de “reativação da cultura algodoeira”, por outro lado devido a “escassez das chuvas”, o projeto foi “esquecido”.
Quanto ao cultivo do milho, ainda em 1994 dizia-se que Passira possuía o “título de maior produtor de milho do Estado” simultaneamente a posse também da “tradição” do bordado manual. 48 Um ano depois, uma matéria do jornal Diário de Pernambuco, afirma que o bordado estava disputando com o milho “a categoria de principal produto do município”. O argumento era a rentabilidade de um e outro. Um trabalhador braçal, que trabalhasse no cultivo do milho, ganhava R$ 4,00 por dia, enquanto uma bordadeira ganhava aproximadamente R$ 3,00 por cada peça bordada, podendo ser um pano de bandeja que não demandava muito tempo para ser bordado. 49 Ou seja, uma bordadeira poderia ganhar mais, a depender da agilidade de sua produção, enquanto os trabalhadores no campo recebiam um valor fixo correspondente a sua diária de trabalho.
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O estudo intitulado “Bicudo do Algodoeiro: Identificação, Biologia, Amostragem e Táticas de Controle” nos traz uma definição sobre o assunto: “Uma das pragas diretas que possui um grande potencial causador de injúria à cultura é o bicudo do algodoeiro, Anthonomus grandis Boh. (Coleoptera: Curculionidae). Em regiões altamente infestadas por esta praga e onde o controle adequado não é realizado, o inseto pode inviabilizar o cultivo do algodoeiro a longo prazo.” Trata-se de “ um besouro de coloração marrom avermelhado a cinza escuro variando sua coloração de acordo com a idade do inseto.” O mesmo estudo, diz que “em Pernambuco, a primeira
constatação do inseto deu-se em julho de 1983, no município de Toritama. Acredita-se que estas infestações foram decorrentes da dispersão natural do inseto a partir de áreas infestadas do agreste da Paraíba. Dois anos após, em 1985, o inseto já ocorria em lavouras de todo o Estado.” Disponível em: <
http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CNPA/18282/1/CIRTEC79.pdf> Acesso: 19 de março de 2015. 47
Disponível em: <
http://legis.alepe.pe.gov.br/arquivoTexto.aspx?tiponorma=1&numero=10923&complemento=0&ano=1993&tipo => Acesso: 18 de março de 2015
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Segundo recorte do Jornal Diário de Pernambuco, datado com o ano de 1994, arquivado na Secretária de Educação do Município.
49
Jornal Diário de Pernambuco, 12 de março de 1995. Recorte arquivado também na Secretária de Educação do Município.
Além disso, mesmo com toda essa fama de ser “o maior produtor de milho do Estado”, o município de Passira aparece em 1990 representando apenas 3% da produção estadual. Por outro lado, nesse mesmo ano, é apontado como o 3º lugar em aumento de produtividade. Mas ainda sim, entre 1990 e 2003, em relação a outros municípios “principais produtores de milho no Estado”, como Brejinho, São José do Egito, Salgueiro, Santa Terezinha e Afogados da Ingazeira, Passira não se equiparou em termos de “evolução” da produtividade do milho. 50
No entanto, para o município de Passira, o milho se comparado a outros de seus produtos agropecuários, tem maior participação no PIB, ficando à frente dos bovinos e do leite. 51
Mesmo que algumas dessas fontes demonstrem certo declínio do cultivo de milho na região, Passira ainda sustenta esse produto agrícola como um dos seus fortes: está no seu brasão, na sua bandeira, e é motivo de um evento que está no calendário de Feriados Oficiais nas Comarcas de Pernambuco52, a “Festa do Milho”. Essa festividade é divulgada pela Prefeitura da Cidade como uma festa tradicional que anima a população anualmente desde 2006, no mês de julho.
No brasão da cidade, conforme Imagem 2, o milho está representado graficamente por meio do desenho de um ramo de pé de milho, “um dos principais produtos cultivados na região.”, de acordo novamente com o site da Prefeitura da Cidade. Essa justificativa talvez se apresente dessa forma, porque do outro lado, quase que espelhado, está desenhado um ramo da planta do algodão, outro produto agrícola importante por ter sido “muito cultivado no passado especialmente na época em que a bandeira foi criada.” 53
Acreditamos pelo que já fora mencionado sobre o cultivo do milho “no passado”, que a bandeira e consequentemente o seu brasão tenham sido criados entre 1970 e 1980.
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Aspectos Agrosocioeconômicos da Cultura do Milho: Características e Evolução da Cultura no Estado de Pernambuco entre 1990 e 2003 / Manuel Alberto Gutiérrez Cuenca, Cristiano Campos Nazário, Diego Costa Mandarino. - Aracaju : Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2006, p.22.
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Agencia Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco - CONDEPE/FIDEM. Município: Passira. 2007. Disponível em:
<http://www2.transparencia.pe.gov.br/c/document_library/get_file?p_l_id=98754&folderId=285734&name=DL FE-16148.pdf> Acesso: 13 de agosto de 2015.
52
Disponível em:
<http://www.tjpe.jus.br/documents/10180/148961/Feriados+Oficiais+nas+Comarcas+de+Pernambuco.pdf/6d98e c64-2895-481d-9793-4a5a7c68efbb> Acesso: 15 de agosto de 2015.
53
Informações que constam no site da Prefeitura sobre a cidade e seus símbolos. Disponível em < http://www.portalpassira.com.br/a-cidade/simbolos> Acesso: 15 de agosto de 2015.
Imagem 2 – Brasão do Município de Passira.
Fonte: Arquivo da Prefeitura da Cidade.
Então, apesar das adversidades climáticas que contribuíram para o enfraquecimento da produção do milho, sua figura resiste como um dos elementos de identificação da cidade. Por outro lado, são convincentes os indícios que a notoriedade do bordado suplantou a fama do milho em Passira. E se antes era conhecida como um dos principais municípios produtores do cereal no Estado, depois passou a ser percebida pelo seu potencial de produção de bordado manual, sendo reconhecida como a cidade do bordado ou a terra do bordado manual. Contudo essas produções e suas consequentes popularidades não se sucederam, mas coexistiram e coexistem, por exemplo, no mesmo brasão do município, que também traz uma representação gráfica do bordado.
Nesse ponto lembramos sobre a “produção de símbolos para um novo regime” a qual se refere Carvalho (1990, p. 11), sendo o brasão da cidade de Passira um símbolo produzido com o intuito de difundir os valores da cultura do milho, do algodão, da produção do bordado,
entre outros. Essa difusão de valores em nada adiantaria se não houvesse uma predisposição no imaginário da população como concorda Carvalho (1990) e sendo a maioria da população passirense, naquele contexto54, envolvida com agricultura e com o bordado, não seria difícil disseminar tais emblemas.