Capítulo 3: Trabalho e vida nas vazantes
3.5. Terra: quiabos bons e buchudos, altos e baixões
Das janelas traseiras da casa de Jorge – as dos quartos de Andrea e Wanderson, da cozinha e da sala de jantar – é possível observar praticamente toda a extensão da vazante. Uma imensidão verde que, quem vê por fora e não é da região, diz facilmente: “é mato”, mal sabendo de tudo o que é processado nestas paragens... Boa parte das casas dos vazanteiros localiza-se na Avenida Boa Esperança, com os fundos voltados para o rio, o que permite a quem fica dentro de casa ter uma visão relativamente abrangente de tudo o que se passa na beira do Parnaíba – isso, obviamente, no caso de o quintal não ser murado, como geralmente ocorre nas Olarias. Muito embora, quando saí da Avenida – em setembro – Jorge e tia Claudilene estivessem trabalhando na construção de um muro ao redor da residência, juntamente com a casinha dos cachorros. Lembro que, não raro, a tia chamava Jorge da janela da sala de jantar, passava-lhe recado, fazia-lhe pedidos e, eventualmente, o Pedro gritava-lhe alguma piada que escarnecia da sua condição de vazanteiro: “Jorjãããããão!!! Esse meu patrão tem quiaaaaaaabo!!!”. Tudo isso, vale notar, é feito aos gritos, pois há certa distância entre a vazante e o fundo das casas, situadas em um nível bem acima do rio. Para se chegar à vazante, como referido, é necessário descer uma ribanceira logo atrás das residências, passar por um pequeno trecho que pode ser entendido como um quintal, – no qual estão árvores frutíferas e, em alguns casos, pequenos chiqueiros para porcos – e, depois, atravessar uma cerca de arame farpado.
A vazante é percebida e, assim, constituída com os vazanteiros como um espaço heterogêneo no que se refere aos tipos, unidades e qualidades de solo. A percepção das diferentes variações da terra está intimamente relacionada com a elaboração de uma geografia física e perceptiva do território da vazante63. Neste tópico, procurarei discutir os processos de ordenamento e constituição territorial na vazante, que estão intrínsecamente relacionados com uma percepção cognitiva e sensorial da beira do rio.
Na prática dos/as vazanteiros/as, a beira do rio constitui-se por uma sequência de
altos e baixões. No todo alagável que são as vazantes, os altos podem ser considerados elevações não inundáveis, localizados em um nível pouco acima dos baixões que – a depender do volume de chuvas – podem passar boa parte do inverno sob as águas. Fato que também os fazem serem nominados de lagoas. Se os baixões são declives, os altos são pequenos morros e a transição entre estes dois espaços é denominada de lombo. Logo após a cerca que marca o início das vazantes, tem-se o primeiro alto, perfazendo a seguinte sequência até o curso do rio:
Alto Baixão Alto Baixão Alto Rio
(Utilizo “os/as vazanteiros/as”, expressão genérica e generalizante por captar que ao falar de altos e baixões estou lidando com categorias amplamente compartilhadas tanto nas Olarias, como nos Motéis)
A depender do período do ano, corre-se um risco real de perder a plantação ao cultivar nos baixões. Quando estive na Boa Esperança em fevereiro, estas áreas estavam alagadas, em virtude das fortes chuvas desta época, o que ocasionou a morte de todos os pés de quiabo/quiabeiros plantados nos baixões. Da Avenida Boa Esperança, a imagem era de uma extensa lagoa – o baixão – ladeada por vastas plantações. As chuvas de janeiro foram bem mais do que esperavam. De acordo com seu Valdir, Jorge e os outros vazanteiros, já fazia cerca de cinco anos que os baixões não alagavam, o que lhes
63 Para outros estudos sobre modos de percepção/construção do espaço e formas de produção agrícola, ver
Moraes (2000), Costa Filho (2008) e Oliveira (2005), esta última dialogando, especificamente, com vazanteiros do norte de Minas Gerais.
permitia uma boa colheita já nos meses de fevereiro e março. Mas os tempos não são mais os mesmos e certas mudanças no ciclo e nos níveis pluviais já se fazem notáveis:
–As chuvas já não são mais como antigamente... Agora, a gente já não tem muita certeza nas previsões que a gente faz. Esse ano não era para ter enchido desse jeito... E foi um negócio! Choveu uns três dias seguidos... Só pra encher os baixões e, agora, cadê a chuva? Não se vê mais. (Seu Valdir)
No começo de 2016, enquanto estava na Boa Esperança, as chuvas já haviam cessado e, de fato, parece que elas chegaram poucos dias antes de mim e foram embora tão rapidamente quanto vieram. Seu Valdir, Jorge e Filho estavam plantando quiabos e cuidando das mudas recém-plantadas nos altos, tendo em vista o fato de as lagoas estarem repletas de água. Nesses momentos iniciais do ciclo de desenvolvimento do legume, a terra e a semente precisam ser aguadas regularmente e é necessário cuidar para não deixar que o mato cresça ao redor do quiabo, pois, até que o legume esteja pronto para a colheita, o que leva pouco mais de três meses, é preciso cerca de três capinas nas terras que lhe ladeiam. Como disse seu Valdir, o capim sangra o quiabo. Além das irrigações, o quiabo também precisa do sereno da noite para germinar e, se tem muito capim próximo a ele, o sereno não chega ao legume, o quiabo não desenvolve e, em vez disso, sangra.
– Rapaz, pra cultivar numa vazante – continuava seu Valdir – é preciso muito zelo. Falando, aqui, da margem, tem gente que tem mais terra do que eu ou até a mesma quantidade, mas não consegue produzir do meu tanto.
– É mesmo, seu Valdir? Por quê?
– Eu não te falei?! Por que não tem zelo! Deixa o capim tomar de conta, demora a roçar do lado do quiabo... Mato é coisa que maltrata o legume, rapaz. A gente não pode deixar vingar não, ainda mais quando os quiabos estão assim, pequenos. Já teve gente que chegou para mim: “Seu Valdir, que quiabo bonito, esse, do senhor, qual é o quiabo que o senhor planta?”. E eu falei: é o “orelha de onça”. Aí a pessoa me pediu umas sementes. Eu dei. Os quiabos dele saíram muito diferentes dos meus, rapaz, e olha que ele estava plantando aqui, na mesma terra, no mesmo lugarzinho em que eu plantei o meu. Para saber plantar, é preciso ter zelo!
Há uma variedade de pelo menos três tipos de quiabo. Conversando com Jorge e seu Valdir cheguei nessas espécies: “orelha de onça”, porque, quando novo, esse quiabo tem uma folhinha redonda “semelhante a orelha de uma onça” (Seu Valdir). Esse tipo de quiabo é também conhecido como “normal” ou “comum”. Entre os comuns, há dois subtipos de quiabo: o orelha de onça” e o tardão (que também é conhecido como
garcinha /galcinha). As sementes destes quiabos são trocadas entre os vazanteiros e ninguém soube me informar de onde, exatamente, veio essa semente, porém seu Mamede, cultivador do quiabo tardão, disse-me que as conseguiu com um amigo seu, morador da Santa Maria da Codipi, bairro onde também há cultivo de vazantes. Foi o máximo que consegui aprender. Além do orelha de onça e do tardão, é preciso falar do Santa Cruz, quiabo recebido pelos vazanteiros através da Associação dos Vazanteiros64.
– O Santa Cruz dá mais ligeiro, ele bota mais rápido, mas também só bota uma vez. Ele dá até duas vezes [duas safras], mas a segunda é ralinha e os quiabos não saem tão bonito. É um quiabo mais sensível, tem gente que planta ele no alto, mas eu só planto ele no baixão, porque como ele já é mais fraco a terra tem que ser boa. Agora, do tardão, esse eu posso plantar em qualquer lugar na vazante que ele cresce grande, a folha dele é diferente... Repare... – (Mais à frente trarei outras nuances a respeito do par alto/baixão).
– E ele bota mais vezes do que o Santa Cruz, o tardão? – Ô! Se não cortar ele fica botando, aí, uma vida inteira!
–Agora, os quiabos dele são mais clarinhos do que o Santa Cruz. Isso, na hora de vender, dá um trabalhazinho.
– Por quê?
– Porque o povo gosta mais é de quiabo mais escuro, com um verde mais escuro. Mas tudo a gente vende.
Diferente do Seu Valdir, Jorge e seus irmãos, que vendem a produção na CEAPI, seu Mamede produz em menor quantidade e vende seus produtos em frutarias e mercearias locais, no mercado do bairro São Joaquim e do centro da cidade. Nestes contextos, a relação entre vendedor e cliente é outra, pois os quiabos são vendidos no
64 Os vazanteiros da Boa Esperança se congregam na Associação dos Vazanteiros, que reúne mais de
cento e não na caixa ou no jacá, como são vendidos os quiabos na CEAPI. Se, por um lado, o cliente compra menos, por outro, há uma maior exigência no que diz respeito ao padrão estético dos quiabos, que não podem ser nem grandes e nem pequenos demais, nem verde-muito-claro-quase-amarelecido e tampouco buchudo. Essas exigências também são feitas aos quiabeiros que vendem na CEAPI, mas como a quantidade vendida é maior, os quiabos são analisados só por cima. Seja como for, em virtude das exigências do comprador, há todo um regime de cuidados com este legume.
– Mas o que é um quiabo buchudo, seu Mamede?
– [Pegando um quiabo e me mostrando] Assim, ó: ta vendo?! Pega aqui, ó: sentiu?!
– Senti.
– Isso é um quiabo buchudo.
Para quem não pôde pegar no quiabo, tentarei explicar em palavras o que aprendi físico-sensorialmente: o quiabo buchudo, diferente do quiabo bom, possui uma superfície rugosa, pois suas sementes, em vez e ficarem escondidas atrás da casca, fazem questão de mostrar suas anatomias em pequenas protuberâncias. O quiabo buchudo é mais seco que o normal, possui extremidades finas e o seu meio é avantajado, com as carreiras de sementes perceptíveis aos olhos e ao tocar na casca. Para evitar um quiabo buchudo é preciso ter zelo, agua-lo no e pelo tempo certo, capinar ao seu redor, não deixar que o mato o sangre e chupe toda a vitamina da terra. Retomo a conversa com seu Valdir.
– É, eu vejo que o senhor e os meninos estão aqui todo dia, capinando o mato antes mesmo de ele pensar em crescer – sorri. E por que o senhor usa a enxada e não o facão para capinar ao redor?
– Tem que ser na enxada mesmo, porque o facão trabalha só por cima e a enxada, além de capinar, remexe a terra, faz a umidade circular de baixo pra cima e de cima para baixo. Porque para o quiabo dar bom, a terra tem que tá úmida.
– E será que hoje chove? Lá para a Santa Maria da Codipi tá bonito para
chover... Olhe ali o céu, seu Valdir.
E os dias, em fevereiro, passavam-se assim, ficava bonito de chuva 65 em outros lugares da cidade; no centro de Teresina, inclusive, choveu repetidas vezes, mas nem uma gota sequer caía na Boa Esperança. As tardes e manhãs na vazante se revezavam entre as atividades de plantar novas sementes, capinar ao redor dos legumes e olhar para o céu, na esperança de chuvas que não vinham. Perder as plantações por conta disso era um risco real. “Eita, Lucas, desse jeito nós vamos ter que ligar os irrigadores. Esses quiabos não agüentam mais dois dias sem chover, não” (Seu Valdir). E, mesmo no segundo mês do ano, os irrigadores eram ligados tanto na vazante de seu Valdir quanto nas vazantes dos seus vinzinhos, Jorge, Filho, Luiz Carlos e Mamede.