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Terras Tchecas (Tchecoslovacas) mudanças territoriais e ondas emigratórias

CAPÍTULO I: TERRAS TCHECAS (TCHECOSLOVACAS) – POLÍTICA E ONDAS MIGRATÓRIAS

1.1 Terras Tchecas (Tchecoslovacas) mudanças territoriais e ondas emigratórias

As Terras Tchecas, correspondentes à Boêmia, Morávia, Silésia, pertenciam ao Reino da Boêmia20, membro independente de fato do Sacro Império Romano-Germânico localizado

na Europa Central. Em 1526, o arquiduque Fernando da Áustria, irmão mais novo do Imperador Carlos V, foi coroado Rei da Boêmia e Hungria (ČECHURA, 2008, p. 22). Desde então, as Terras Tchecas se tornaram parte da Monarquia Habsburgo, sendo incorporadas ao Império Austríaco, a partir de 1806, e ao Império Austro-Húngaro, em 1867 (KALISTA, 1992, p. 298).

Segundo Polišenský, “nos séculos XVII e XVIII a maioria dos estados europeus, no espírito do mercantilismo e do fisiocratismo, consideravam as suas populações, respectivamente aos trabalhadores, como parte da riqueza nacional e não promoveram a emigração” (POLIŠENSKÝ, 1992, p. 9)21

. Assim, no caso específico do Sacro Império Romano-Germânico, até o século XVIII a migração praticamente não foi possível devido à servidão. Só depois da abolição do regime servil de trabalho pelo Imperador José II, em 1781, tornou-se possível a movimentação de contingentes populacionais tchecos no interior do Império, sobretudo em direção aos Bálcãs (Banato e Eslavônia22, Croácia, Vojvodina, Bósnia-

Herzegóvina) e Viena que, devido à concentração de artesãos e operários, transformou-se no segundo centro cultural tcheco da Europa depois de Praga.

Ao contrário da Prússia, cujas autoridades públicas viam os emigrantes como possíveis articuladores de futuros relacionamentos econômicos e culturais entre a terra natal e os países que os recebiam, no Império Áustro-Hungaro a emigração foi estreitamente limitada durante a primeira metade do século XIX, em razão das leis restritivas promulgadas pela monarquia nos

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O reino foi estabelecido formalmente em 1212 por meio da Bula de Ouro da Sicília, promulgada pelo imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico II (ČORNEJ, 1995, p. 69).

21 V 17. a 18. století většina evropských států v duchu merkantilismu a fyziokratismu považovalo své

obyvatelstvo, popř. jeho pracující část, za součástnárodního bohatství a vystěhovalectví nepřála (POLIŠENSKÝ, 1992, p. 9). Tradução: Kateřina Bátorová.

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O estabelecimento das aldeias tchecas em Banato foi feito a pedido do quartel militar local como proteção contra a expansão turca nos Bálcãs. Os tchecos construiram aldeias na Romênia (Santa Helena, Biger, entre outras) e na Sérvia (Češko Selo, Veliký Bečkerek, entre outras.)

42 anos de 1784 e de 1832. Tal atitude só se modificaria a partir da segunda metade do século XIX, quando a lei de 12 de dezembro de 1867 passou a restringir os pedidos de emigração somente àqueles que iam servir ao exército. Porém, ainda assim podia levar até três anos para que as autoridades atendessem aos pedidos de passaporte, processo que só seria acelerado muito mais tarde, quando surgiram registros de que os passaportes passaram a ser emitidos em até dois meses (BÁTOROVÁ, 2013, p. 14-15). Isso permitiu que emigrantes tchecos se dirigissem para os Estados Unidos, Rússia, Ucrânia e, em menor número, para países da América Latina, em particular a Argentina e o Brasil (BARTEČEK, 1993, p. 122-123).

Assim, em decorrência de fatores como a crise econômica européia da década de 1850, a distribuição de terras na parte ocidental dos EUA, ocorrida com fim da Guerra Civil naquele pais (1861-1865), e o barateamento dos custos dos transportes devido à introdução de navios a vapor em viagens transoceânicas, ao longo da década de 1880 levas de imigrantes tchecos instalaram-se nas áreas rurais de estados norte-americanos como o Texas (Moravia, Praha), Nebraska (Bruno), Wisconsin (Slovan, Pilsen) e Iowa, além de marcarem forte presença em centros industriais como Chicago, Nova York e Cleveland. Paralelamente, entre 1861 e 1874 famílias de colonos tchecos instalaram-se em regiões da Criméia (Cechohrad, Alexandrovka), Mar Negro (Metodějovka, Kyrilovka, Vladimirovka, Glebovka) e Volínia, onde o baixo custo das terras permitiu a fundação de mais de 50 aldeias tchecas. Segundo as estimativas de Petrusek, entre 1870 e 1914 emigraram das Terras Tchecas aproximadamente 1,2 milhões de habitantes (PETRUSEK, 1996, p. 256).

Em 1918, após a derrota do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, foi proclamada a República da Tchecoslováquia, referendada pelo Tratado de Saint-Germain-en- Laye. Com capital em Praga e território correspondente às atuais República Tcheca, Eslováquia e, até 1945, a Rutênia23, segundo o censo de 1921 o país contava com 13.607.385

habitantes, sendo a população composta por uma maioria de tchecos e eslovacos (64,37%), além de outros grupos minoritários como alemães (22,95%), húngaros (5,47%), rutenos (3,39%), judeus (1,33%), poloneses (0,56%), estrangeiros (1,75%), outros (0,17%) (ŠKORPIL, 1930).

No período entre as guerras predominou a emigração, principalmente para países da Europa Ocidental como Alemanha, França e Bélgica. Na Alemanha, os mais importantes

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A República da Tchecoslováquia entregou o território da Rutênia à União Soviética em 29 de junho de 1945, voltando as fronteiras do país à situação anterior ao Acordo de Munique de 1938. A partir de então, 120.000 pessoas migraram da região da Rutênia para Tchecoslováquia (RANDÁK, 2011).

43 pólos de atração de migrantes tchecos eram as cidades de Dresden, Leipzig, Hamburgo; os distritos industriais de Renânia e Vestfália, bem como as cidades cuja economia voltava-se para a mineração. Na França, país que nas duas décadas posteriores ao fim da Primeira Guerra Mundial viu aumentar para 80.000 o número de tchecos, a maioria desses imigrantes concentrou-se na fronteira com a Bélgica e a Alemanha (Pas-de-Calais, Norde, Moselle) e em quatro departamentos em torno de Paris (Seine, Seine-et-Marne, Seine-et-Oise e Oise), dedicando-se à agricultura, indústria e mineração. Ainda que em menor número, nesse período os imigrantes tchecos também se instalaram em outros países europeus, como Holanda, Inglaterra e Suíça, e da América Latina (KÁRNÍK, 2000, p. 499).

Em 1939, a Alemanha nazista criou, nas áreas centrais da Boêmia, Morávia e Silésia tcheca o Protetorado da Boêmia e Morávia, que até a rendição final da Alemanha para os Aliados, em 1945, fez parte do Grande Reich Alemão. A ocupação nazista foi responsável pelo surgimento da primeira onda de emigração por motivos políticos, quando saíram do país não só pessoas engajadas na resistência anti-nazista, mas também judeus ameaçados de extermínio nos campos de concentração. Muitos desses exilados lutaram em exércitos estrangeiros ocidentais, sendo posteriormente discriminados e perseguidos pelo regime comunista instalado no país em 1948 (KÁRNÍK, 2008, p. 374).

A partir de 1946, ano em que os comunistas venceram as eleições na Tchecoslováquia, cerca de 2,5 milhões de alemães foram expulsos do país, sob a acusação de terem sido culpados pelo recém terminado conflito armado (HAHNOVÁ, 2014, p. 513). Apesar dessa justificativa, o exílio em massa foi o meio encontrado pelo governo para solucionar as tensões entre alemães e tchecos, em curso desde meados do século XIX, quando tiveram início os esforços para a emancipação política tcheca em relação ao Império Austro-Húngaro. Tensões que seriam ainda mais agravadas com a criação da República da Tchecoslováquia, em 1918. Como observou Petrusek (1996, p. 256), tal atitude repercute ainda hoje nas relações políticas entre a República Tcheca e Alemanha.

Na esteira da vitória dos comunistas nas eleições de 1946, em 1948 a Tchecoslováquia sofreu um golpe de Estado, a partir do qual, com o apoio soviético, o Partido Comunista da Tchecoslováquia assumiu o controle do país por mais de quatro décadas. Isso provocou uma nova onda emigratória por motivos políticos, levando cerca de 40 mil pessoas a se exilarem em países da Europa Ocidental, Estados Unidos, Canadá, Austrália ou Nova Zelândia, entre outros, cujo retorno ao país de origem ficaria ainda mais dificultado a partir de 1952, com a criação da chamada ʻCortina de Ferroʼ (KAPLAN, 2009, p. 76).

44 Uma nova onda emigratória por motivos semelhantes ocorreu em 1968, quando a invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia pôs fim à chamada ʻPrimavera de Pragaʼ, curto período de tempo que se estendeu de janeiro a agosto de 1968 no qual, com o apoio de vários intelectuais tchecoslovacos, Alexander Dubček chegou ao poder propondo reformas de caráter liberal na economia e na política, além de certo relaxamento das restrições às liberdades de imprensa, expressão e movimento. De 1968 ao outono de 1969, quando as fronteiras foram relativamente abertas, facilitando a emigração, cerca de 80 mil pessoas deixaram a Tchecoslováquia, número comparável apenas aos 300 mil húngaros que abandonaram seu país em 1956. A maioria dos imigrantes tchecoslovacos rumou para os mesmos países para onde se dirigiram aqueles que haviam deixado o país em 1948, acrescentando-se ainda a África do Sul e alguns países sulamericanos. Em alguns países, tchecos e eslovacos passaram a formar o principal grupo de imigrantes, casos do Canadá, para aonde migraram 19 mil tchecos e eslovacos, em 1969, e da Suíça onde representaram o terceiro grupo mais numeroso de imigrantes (14,5 mil), depois de tibetanos e húngaros. Estima-se entre 150 e 250 mil o número de tchecos e eslovacos que emigraram entre 1969 e 1989 (CASHMAN, 2010, p. 5-11).

Em dezembro de 1989, a chamada ʻRevolução de Veludoʼ depôs o governo comunista na Tchecoslováquia. Em 17 de novembro de 1989, a polícia reprimiu uma manifestação estudantil em Praga. Esse evento desencadeou uma série de manifestações populares, que se estenderam de 19 de novembro ao fim de dezembro contando com a participação de 500 mil manifestantes. O aumento dos movimentos de rua e o colapso de outros governos comunistas levaram o Partido Comunista da Tchecoslováquia a anunciar, em 28 de novembro, o fim do regime de poder político baseado no partido único. No começo de dezembro, cercas de arames farpados e outras obstruções foram removidas da fronteira da Alemanha Oriental com a Áustria. No dia 10 de dezembro, o presidente Gustáv Husák apresentou o primeiro governo não-comunista na Tchecoslováquia desde 1948, e renunciou. Alexander Dubček foi eleito presidente do Parlamento Federal, em 28 de dezembro, e Václav Havel, escritor conhecido que estava à frente da revolução, tornou-se presidente da Tchecoslováquia, em 29 de dezembro de 1989 (RYCHLÍK, 2012, p. 79-80).

A transferência de recursos do orçamento tcheco para a Eslováquia, anteriormente regulares, cessou em janeiro de 1991. Em termos econômicos, o PIB per capita da República Tcheca era aproximadamente 20% maior do que o da Eslováquia, mas a sua série histórica de crescimento econômico era menor. Uma pequena maioria de eslovacos defendia uma forma

45 mais flexível de co-existência ou a completa independência e soberania, porém muitos tchecos e eslovacos desejavam a preservação de uma Tchecoslováquia federal. Não obstante, em 1 de janeiro de 1993, após uma série de protestos populares que, diferentemente do que se verificou nos países da antiga Iugoslávia, ocorreram pacificamente, a Tchecoslováquia foi dividida, dando origem a dois países: a República Tcheca e a Eslováquia (ČORNEJ, 1995, p. 316).

A migração de tchecos após 1993 tem sido pouco documentada, não havendo, portanto, números exatos. Em linhas gerais, sabe-se que os tchecos saem em busca de trabalho em países desenvolvidos economicamente, alguns deles optando pelo retorno após essa experiência, outros preferindo permanecer nos países por eles adotados. Ao que tudo indica, Nova Zelândia e Austrália tornaram-se destinos preferidos para estudantes e graduados de cursos técnicos e de gestão ambiental. Contudo, destinos tradicionais como os EUA e os países da União Europeia, sobretudo aqueles que não restrinjem a entrada de trabalhadores, caso do Reino Unido e da Irlanda, seguem sendo importantes focos de atração de imigrantes tchecos em busca de melhorias econômicas.

No intuito de compreender a presença de Jindřich Trachta no Brasil torna-se necessário analisar, de forma mais detalhada, a imigração tcheca para a América Latina, tema do segundo item deste capítulo.