A escolha por realizar as entrevistas com as jovens nos territórios em que elas vivem, mobilizou inúmeras questões, dentre elas, a mais recorrente foi a segurança, tanto minha quanto a das jovens. No entanto, decidimos sustentar a posição de estar com elas onde suas vidas acontecem, compreendendo que, para além de ser uma novidade no campo das pesquisas com mulheres e tráfico de drogas, também ali se constituiria um cenário em que elas pudessem sentir-se mais confortáveis frente à interpelação pela narrativa, no qual os atravessamentos institucionais seriam minimizados. A partir do atravessamento das leituras, compreendendo existência de enquadramentos para a aparição da vida uma questão se apresentou: por quais quadros somos capazes de enxergar essas vidas? Nossas reflexões nos fizeram concluir que esses quadros são definidos pelas estruturas de poder que são possíveis para aparição das/xs/os sujeitas/xs/os, portanto “elas são em si mesmas operações de poder.
Não decidem unilateralmente as condições de aparição, mas seu objetivo é, não obstante delimitar a esfera da aparição enquanto tal” (BUTLER, 2018a, p.14).
Então o cenário do território em que as jovens habitam apresentou-se para nós como um desses quadros, e estivemos presentes em três territórios da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Compreendemos, no entanto que o conceito de território está em construção e constante disputa. Aqui apresentaremos brevemente algumas formulações desenhadas por Milton Santos, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Marcelo Santos e outros autores que são de campos e perspectivas distintas, para que possam, junto à experiência do campo, servir como chave de leitura para compreensão das análises que realizamos, em que o território apresenta-se como um dos enquadramentos para a vida das jovens.
Para o geógrafo Milton Santos, território “é o lugar em que desembocam todas as ações, todas as paixões, todos os poderes, todas as forças, todas as fraquezas, isto é, onde a história do homem plenamente se realiza a partir das manifestações de sua existência” (2011, p. 13). Nos estudos de Milton Santos, o território usado é uma categoria central, o autor afasta-se da visão que assimila o território como um objeto estático, e o propõe como um objeto em constante movimento, que se reconfigura, portanto é vivo e tecido pelas relações sociais. O território abarca as características naturais de uma determinada localidade, mas também as modificações implementadas pelas pessoas que ali habitam. Desse modo, todos os objetos naturais passam a ser objetos sociais a partir do momento em que as pessoas os reconhecem e passam a atribuir-lhes significados que passam então a ser atributos do território.
As paisagens que se percebem, tanto no caminho percorrido para chegar aos territórios tanto quanto o lugar de encontro, compõem os enquadramentos vivenciados nessa pesquisa. A praça central movimentada, com gente, com vida. O campinho com crianças correndo, a gritaria. A espera pela conversa. O trânsito da rodovia que corta um desses territórios e o barulho intenso dos caminhões. O beco estreito. O comércio, açougue, padaria, mercado. A presença visível do tráfico de drogas. O território se apresenta como um conjunto de sensações experiênciadas por mim enquanto pesquisadora, e pelas jovens como habitantes daqueles lugares. Para Milton Santos, a categoria de análise não é o território enquanto extensão da área geograficamente delimitada, mas sim o território utilizado, “dessa maneira defrontamo-nos com o território vivo, vivendo” (SANTOS, SILVEIRA, 2001, p. 247).
Marcelo Souza (2013), também geógrafo que se dedica à produção teórica sobre território, nos elucida que é necessário compreender o conceito para além de um espaço político, e que recorrentemente as pesquisas e pesquisadoras/xs/es o simplificam e o utilizam de forma genérica. Para ele, território e espaço geográfico não são sinônimos, partindo do entendimento de que território constitui-se “fundamentalmente, um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder” (SOUZA, 2013 p. 78). Essa noção sobre território dialoga diretamente com os conceitos de espaço e poder, que também são elaborados por Michel Foucault, para quem “território é sem dúvida uma noção geográfica, mas é antes de tudo uma noção jurídico-política: aquilo que é controlado por certo tipo de poder (FOUCAULT, 2017, p. 250)”. Nas concepções de Marcelo Souza, o poder não se exerce sem referência a um território e sem o território como meio, sendo que “não há influência que seja exercida ou poder explícito que se concretize sem que seus limites espaciais, ainda que às vezes vagos, igualmente sejam mais ou menos perceptíveis (SOUZA, 2013 p. 87)”. Considerando então, que o território é um instrumento de exercício do poder, a questão sobre quem o governa é suscitada e podemos ter a dimensão das influências e confluências que operam dando sentido ao que é vivido nesses ambientes. Assim para Michel Foucault o território é o espaço em que se materializa o controle sobre os corpos, portanto território e poder estão imbricados, não configurando apenas como um lugar delimitado pelo poder, mas o espaço onde o poder se exerce (FOUCAULT, 2017). E para Marcelo Souza o território representa a base do exercício do poder (SOUZA, 2013).
Ao conceituar desterritorialização e reterritorialização, Marcelo Souza alude que esses processos envolvem o exercício das relações de poder, assim como a “projeção dessas relações no espaço (espaço que, vou repetir, também é simultaneamente, enquanto substrato
material e lugar, uma referência e um condicionador das próprias práticas de poder)”
(SOUZA, p. 102). A exemplo dessas práticas de exercício de poder, podemos elencar as que são exercidas por meio das violências, como a desapropriação de pessoas moradoras de áreas consideradas de risco, a expulsão de uma/x/um jovem do território por ameaça de morte,
“higienização social” de pessoas em situação de rua em nome da “revitalização” de espaços públicos, dentre outras. Para compreender o que estamos chamando nesse texto de território, buscamos suporte neste autor através de sua concepção de microterritórios, os quais podem ser recortes espaciais de território, em que suas fronteiras são redimensionadas e as/xs/os sujeitas/xs/os inscrevem suas resistências cotidianamente no espaço ou as expressam espacialmente. Isso nos elucida a noção de que o território não é algo coisificado, e está em constante movimento de desterritorialização e reterritorialização. Podemos compreender esse movimento em um dos territórios em que essas jovens vivem, onde, devido a pouca oferta de espaços de convivência e equipamentos estatais acessíveis às/xs/aos moradoras/xs/es, um campo de futebol é espaço de práticas esportivas e de realização de encontros e festividades para a comunidade e também ponto de comércio do tráfico de drogas. Este campo, como recorte espacial dentro do bairro torna-se território de várias práticas sociais e comunitárias, cada um delas com seus fluxos, regras e duração.
Na intenção de compreendermos melhor a noção de desterritorialização e reterritorialização encontramos suporte nos escritos de Félix Guattari e Suely Ronilk (2010), que ampliam o entendimento de território. Assim,
[...] o território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações os quais vai (sic) desembocar, pragmaticamente, toda série, comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos. (GUATTARI; RONILK, 2010, p. 388)
As sujeitas dessa pesquisa, que vivem em territórios favelizados da Região Metropolitana de Belo Horizonte, estão constantemente envolvidas em situações objetivas, subjetivas, de necessidade e de desejo, partindo de relações contraditórias, complexas, múltiplas e em constante movimentação com seus pares e consigo mesmas. Assim podemos caminhar rumo à noção de que território abarca mais possibilidades que apenas um espaço demarcado geograficamente. A concepção com a qual nos alinhamos aqui diz também das relações produzidas entre pessoas que compartilham a vida em um mesmo local.
Toda essa construção teórica nos subsidia a compreender que o tráfico de drogas está imbricado nas relações de poder presentes no território e tem efeito na vida das pessoas a todo tempo. Não há como viver em um território onde há presença do tráfico e não se relacionar com ele, seja através do envolvimento direto, indireto, ou simplesmente pelo acompanhamento das notícias que se referem à movimentação da dinâmica social e criminal.
O tráfico de drogas influencia na organização e desorganização das comunidades em que está presente, pode produzir efeitos de segurança, mas também violências. Em minha experiência de trabalho e vivência nas comunidades periféricas, na leitura das dinâmicas territoriais sempre esteve presente o mapeamento das áreas de abrangência que cada grupo ou gangue cobria, pois saber disso nos informava sobre as dinâmicas sociais impostas ou negociadas com os demais moradores dessas áreas, e nos ajudava a perceber como as violências operavam na vida das juventudes, inclusive sobre a vida e a morte. Por isso tem sentido a afirmativa ao chegar nos territórios onde as participantes dessa pesquisa vivem, e que nos acompanha desde as primeiras reflexões sobre a importância de se refletir sobre o território como relação de poder. Ao perguntar às lideranças comunitárias, moradoras/xs/es das comunidades, trabalhadoras/xs/es de políticas públicas presentes ali sobre “como está o território?” a intenção é de ser informada sobre se a juventude está vivendo ou morrendo, como a dinâmica social do tráfico de drogas e da criminalidade tem operado, como o poder estatal tem se comportado frente a isso, quais estratégias estão sendo mobilizadas em favor da vida e da segurança pública. Essa pergunta compreende a inscrição do território enquanto poder que controla o corpo dessa juventude, que é alvo das políticas de extermínio implementadas pelas estruturas de poder estatais e assimiladas pelo tráfico de drogas, questões que aprofundaremos nos capítulos seguintes. A intenção desta pergunta é querer saber sobre a morte que ronda e criar comunitariamente estratégias de resistência para a vida que se deseja.