SUMÁRIO
2.5 O Território como base de Estratégia de Desenvolvimento
2.5.1 Território e seus Elementos Sociais e Culturais
2.5.1.1 Um breve debate conceitual e a apresentação da revisão de literatura sobre território e suas dimensões
Raffestin (1993) relaciona o território ao patrimônio natural existente numa região definida. O autor apresenta a distinção mais conhecida entre espaço e território, afirmando que o primeiro antecede o segundo. Para ele o território é o resultado das interações de “atores sintagmáticos” capazes de realizar programas em qualquer nível dado ou construído socialmente. Enquanto o espaço é uma realidade “material preexistente a qualquer conhecimento e a qualquer prática” (1993, p. 144). Assim, os espaços serão territorializados pelos atores através de “processos de apropriações” concretos ou simbólicos.
Haesbaert, concordando a priori com Raffestin, em sua afirmação que espaço e território não são equivalentes, a complementa considerando que essas categorias jamais poderão ser separadas uma vez que “sem espaço não há território” (2010, p. 166). Assim, o território, no interior da dimensão espacial74, envolve manifestações das relações de poder em suas diversas esferas e resulta de um processo de construção social e cultural (HAESBAERT, 2004; 2010).
Abramovay (1998) apresenta o conceito de território como sendo a representação de um complexo de relações com origem histórica, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico.
74 Tizon (1995) considera que o território, em sua dimensão antropológica, passa pela construção de processos
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Pecqueur (2000), por sua vez, distingue “território dado” de território construído. Afirma que o primeiro é o resultado de decisões político-administrativas, num processo “topdown” de decisão e, o segundo resulta do encontro de atores sociais, em um espaço geográfico dado, que identificam e resolvem um problema comum.
Haesbaert (1994; 2005) entende o território como espaço dominado e/ou apropriado, tendo um sentido multiescalar e multidimensional na concepção de multiplicidade, da multiterritorialidade como a única perspectiva para construir outra sociedade universalmente igualitária e reconhecedora das diferenças humanas.
Em síntese, Haesbaert & Limonad (2007) apresenta três concepções de território: i) política ou jurídico-política, onde o território é visto como um espaço delimitado e controlado através do qual se exerce um determinado poder, muitas vezes, mas não exclusivamente, relacionados ao poder do Estado; ii) cultural ou simbólico-cultural, como sendo aquela que prioriza a dimensão simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da apropriação/valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido;
iii) econômica, que enfatiza a dimensão espacial das relações econômicas, o território é
compreendido como fonte de recursos e/ou incorporado no embate entre classes sociais e na relação capital-trabalho, como produto da divisão “territorial” do trabalho, por exemplo. Juntas, essas concepções levaram o autor a definir que o espaço tem sido moldado com finalidades específicas, já o território é tido como “um espaço sobre o qual se exerce um domínio político, e como tal, um controle de acesso” (HAESBAERT, 1995, p. 168).
Com base neste debate, privilegiamos a noção de território “construído”, entendido como um espaço de relações sociais, existindo o sentimento de pertencimento dos atores locais à identidade construída, associada ao espaço de ação coletiva e de apropriação, com a criação de vínculos de solidariedade entre esses atores (BRUNET, 1990), enquanto categoria- chave na presente tese. Contudo, seguindo as orientações de Haesbaert, não perdemos de vista, a necessidade de considerar o território em uma perspectiva multidimensional. Em outras palavras, levando em conta sua dimensão de poder, controle de acesso e manifestação de múltiplas escalas. Assim, pretendemos analisar ações e inações dos atores que integram as relações socioeconômicas da carne caprina Norte-Neuquina e da bovina do Pampa Gaúcho e suas manifestações no território construído por esses atores, conforme veremos ao longo do item sob exame.
2.5.1.2 O capital cultural e social do território como fator do desenvolvimento
Ostrom (1995) chamou de capital cultural e social75 de um determinado território aquilo que é estabelecido pelo potencial do seu desenvolvimento. Trata-se do conhecimento e o “saber-fazer” local, como resultado da capacidade dos atores locais de promoverem um desenvolvimento com atributos externos, a partir do sentimento de pertencimento dos atores na territorialidade. Evans (1988), por sua vez, rejeitando a visão puramente culturalista, considera que o capital social pode ser formado a partir de sinergias entre a sociedade e o Estado. Assim, através da existência de organizações sólidas e capazes de superar entraves políticos e promover ações políticas na criação do capital social em dado território (ABRAMOVAY, 2002).
O território construído torna-se um espaço de desenvolvimento multidimensional, permitindo que as diferentes racionalidades das sociedades interajam a partir da ampliação de
75 Para maiores discussões sobre capital social, ver trabalhos de Lacour (1985) que considera o espaço-lugar
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redes estabelecidas através do capital social76 existente, ou por meio da interação com organizações que apoiem a ruptura de impedimentos políticos e institucionais locais.
A título de ilustração dos conflitos existentes em um território construído com valores culturais diversos entre si, que em dado momento de crise se revelam em posições antagônicas defensáveis igualmente, encontramos a repercussão na mídia local das notícias sobre o permanente conflito de interesses entre os crianceros trashumantes e os sedentários, em relação a natureza jurídica dos títulos das terras, na Província de Neuquén, localizada no norte da Patagônia argentina, como se vê abaixo os argumentos apresentados pelos crianceros sedentários a respeito da eventual usurpação ocorrida em suas terras (JORNAL RÍO NEGRO, 2003).
SE AGRAVA O CONFLITO COM OS CRIANCEROS DENUNCIAM USURPAÇÃO DE SEUS CAMPOS. Falta de pasto leva crianceros ocupar terras estrangeiras.
ZAPALA-Neuquén (AZ-AN). Um grupo pequeno de fiscaleros a dias atrás tomaram um campo de veranada, os ocupante chamavam de “patriada camponesa” dos crianceros e a Associação de Estados continua firme em sua determinação de incorporar essas terras a região fiscal. Os fiscaleros ocuparam as pastagens em áreas de propriedade privada e advertem que a greve vai se espalhar em outras partes da Província. Devido os problemas provocado pela seca e pela alta mortalidade de animais em Neuquén, os Mapuches estão determinados a seguir os passos dos crianceros crioulos.
A primeira ocupação de campos ocorreu a um mês, em Pulmarí (ao lado Alumi-né), quando Mapuches, da comunidade Zalazar colocaram suas cabras em um lugar onde não havia mulas do Exército.
Juntamente com a repressão, os proprietários dos campos de Pino Hachado estão reivindicando que o governo tome providências para ajudar as vítimas da seca, além de garantir a defesa da propriedade privada.
O empresário, Andrew Vela, dono dos campos, manifestou a sua preocupação e perplexidade: “Estamos impotente nesta situação, estão violando a propriedade privada. Essas pessoas podem entender, mas não é tão simples quando houve uma ocupação nos campos que pertencem a minha família, desde 1959”.
Vela solicitou aos meios de comunicação para se unirem e defenderem a propriedade privada. “Os campos se destinam a arborização, infelizmente os projetos estão atrasados”. E prossegue: “Os ocupantes são aconselhados de forma incorreta. Estamos diante de um roubo, e é necessário que os meios de comunicação se unam e defendam a propriedade privada. Temos permitido que eles permanecessem em um setor do campo para resolver os seus problemas, mas eles avançaram para outras áreas. Esta é uma usurpação”. O Setor de Crianceros, presidido por Juan José Gutiérrez, argumentou que a medida do progresso nessas terras, que são consideradas propriedades fiscales, tem sua origem na “baixa sensibilidade do governo provincial”.
O eixo de conflito é a seca que mata os seus animais devido à falta de alimentos. (Tradução do autor)
O mesmo veículo local de comunicação noticiou a grave denúncia feita pela comunidade indígena dos Mapuche a respeito do cerceamento do seu direito ancestral de
76 O conceito de capital social foi introduzido no pensamento econômico sobre o desenvolvimento com os
trabalhos de Putnam (1995), que empregou o conceito sociológico de redes sociais. No entanto, o marco decisivo para o surgimento da atual teoria do capital social foram os trabalhos de Bourdieu (1986, 2005) e de Coleman (1990, 2000). Para Bourdieu, o capital social compreende a totalidade de recursos ativos, mobilizados em rede de relações que adquirem uma vantagem competitiva, proporcionando maior retorno sobre os investimentos realizados. Os debates sobre a teoria do capital social chegam ao ponto de indicá-lo ora como um resultado desses recursos ora como uma causa.
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acesso à água do rio Litrán que serve para saciar a sede do rebanho e de seus pastores (DIÁRIO DE RÍO NEGRO, 2011).
MAPUCHE DENUNCIAM BLOQUEIO DE ÁREAS DE VERANADA
A Confederação Mapuche ontem denunciou que, em vários setores das Cordilheiras ocorre o impedimento do ingresso dos veranadores ao centro de Neuquén. Além disso, demoliram edifícações e barracos onde crianceros passavam a noite. O porta- vóz Huerquen Maliqueo Martin apresentou uma exposição policial, onde aponta contra os governos provinciais e nacionais e o proprietário aparente de um lote na área, Roberto Iriarte, conforme segue abaixo.
ZAPALA (AZ). “O que está acontecendo é muito grave. Temos muitas famílias que não podem alimentar seus animais porque existem policiais que impedem a passagem, e em outros lugares, como a costa do río Litrán está cercada”, disse Maliqueo.
Em Lonco Luan, de acordo com a denúncia, a instalação de um esquadrão de especial da polícia de Neuquén está impedindo o acesso aos campos de pastagem. “No sábado, eu fui me aproximar para falar e me disseram que tinham a ordem de Corfone de não permitir a entrada de qualquer pessoa”, disse o porta-voz, acrescentando que “estas terras ancestralmente ocupadas por famílias Mapuche, inclusive tendo no acampamento uma avó de quase cem anos e agora estão impedido a todos de realizar suas tradiçoes por capricho do governo”.
Maliqueo denunciou o caso em Litrán, onde um fazendeiro cercou boa parte do rio e derrubou as construções ribeirinhas, que os Mapuche tinham construído há muito tempo. “É um fazendeiro chamado Roberto Iriarte que pretende fechar todos os acessos ao rio, com a cumplicidade da Província, que não faz nada para detê-los”, explicou ele.
O porta-voz acusou o governo nacional como participante dessas ações ao “não iniciar de uma vez o programa de levantamento territorial. Esta situação já ultrapassa o direito legítimo do povo Mapuche, porque está afetando o direito de toda a população, que sequer pode acessar a costa do río Litrán porque alguém veio fechado tudo com fio”, disse.
Maliqueo confirmou que nos próximos dias ampliará sua denúncia, acrescentando outros elementos para a causa, que mantêm em expectativa muitas famílias Mapuche, que não podem acessar suas terras para a temporada de verão. (Tradução livre do autor)
O pensamento sobre território e identidade cultural se configura num processo contínuo de transformações proporcionado pelas relações sociais, em suas dimensões locais e globais77, de poder e de acesso e uso dos recursos naturais locais. No caso da IG da Carne do Pampa Gaúcho, um dos aparentes conflitos existentes é aquele proporcionado pelo adensamento das grandes áreas destinadas a plantações de essências florestais exóticas (pinos e eucalipto) e as culturas do arroz e da soja, que vêm competindo com a destinação tradicional do uso para pecuária de corte nesse território, como veremos no item próprio.
A perspectiva multiculturalista de território reforça a noção de que a interface entre o saber local e a ação global provoca interpretações locais que se diferem de acordo com as próprias culturas locais, criando a pluralidade cultural, baseada em redes solidárias e fortalecendo o desenvolvimento local (SCHEREN-WARREN, 1998).
O fator que determina a construção social de um território seria a institucionalidade, enquanto conjunto de regras e normas que regulam as ações dos atores locais, o poder estabelecido entre os diferentes grupos de atores, a confiança e a cooperação (PUTNAM, 1993). Nos casos estudados das IGs da Carne do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional e do Chivito Criollo Norte-Neuquino, o uso consorciado da terra com florestamento e culturas
77 Ver importante trabalho de Haesbaert e Limonad (2007) sobre a importância do território em tempos de
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consolidadas historicamente nas regiões deixou de ser objeto de disputa de uso da terra para se tornar alternativa de ganho para o pecuarista de gado vacum ou caprinos, como se comprovará nos respectivos itens desta tese.
Como já focalizado nos trabalhos de Haesbaert (2004; 2007) toda a referência espacial identitária resulta de uma articulação territorial com maior ou menor carga simbólica permeada por relações de poder. O autor propõe uma análise do termo “territorialidade” no sentido de um processo social de “controle simbólico” (2010) sobre um espaço. Sendo assim, pretende-se adotar essa concepção nas discussões sobre as dimensões do território travadas na presente tese, conforme será visto no item abaixo.