• Nenhum resultado encontrado

Território e Territorilidade na Aldeia Bananal

No documento FÁTIMA CRISTINA DUARTE FERREIRA (páginas 37-40)

PERCURSO TERENA: TERRITÓRIO, TERRITORIALIDADE E AMBIENTES

1.4 Território e Territorilidade na Aldeia Bananal

Em ecologia, o termo ‘ambiente’ significa o estudo do lugar onde se vive, as interações, as relações de poder dos seres vivos entre si e com o meio. E inclui todos os fatores que afetam o metabolismo ou o comportamento de um ser vivo ou de uma espécie, incluindo a luz, o ar, a água, o solo, dos seres vivos que habitam no mesmo local (LEITE, 1998). Na educação, o termo ‘ambiente’ é tratado como o local onde a pessoa vive ou onde foi educada, o conjunto das instituições sociais com quem interage.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais/Meio ambiente e Saúde (BRASIL, 2001), a expressão ‘educação ambiental’ está centrada principalmente no desenvolvimento de valores, de atitudes, de posturas éticas e no domínio de procedimentos; mais do que na aprendizagem de conceitos. Isso significa que vários dos conceitos em que o professor se baseará para tratar dos assuntos ambientais pertencem a todas as áreas disciplinares.

O termo ‘meio ambiente’ vai significar o conjunto de forças e de condições que cercam e influenciam os seres vivos e as coisas em geral. Os constituintes do meio ambiente compreendem: clima, iluminação, pressão, teor de oxigênio, condições de alimentação, modo de vida em sociedade e, para o homem são acrescidos a educação e a vida coletiva (LEITE, 1998). Partindo da compreensão de meio ambiente, Leite (1998) enfatiza o modo de vida em sociedade, detalhando o modo de ser Terena.

Conforme Brand (2003), os conhecimentos acumulados pelos indígenas sobre a natureza que refletem suas experiências cumulativas de busca de compreensão e entendimento serão repassados às gerações, tendo como referência as suas cosmologias.

Segundo Miranda (2006) para entender a relação dos indígenas com a natureza é necessário compreender sua cosmologia, sua vida, sua sociedade e sua história expressas nos rituais, nas músicas, nos mitos, entre outras manifestações culturais. Segundo o autor, os Terena mais velhos aproveitavam os recursos da natureza para produzirem seus alimentos, tirando da natureza somente o suficiente para alimentar suas famílias. Seus conhecimentos eram repassados na educação dos filhos e além desses saberes, transmitiam os valores e as qualidades da terra, seu período de cansaço, a necessidade de repouso e o que fazer quando o solo era duro e compactado. Esses saberes são ou eram de domínio dos mais idosos.

Quando os pais indígenas Terena saíam com seus filhos para trabalhar na roça, ou para ir “à mata buscar lenha e madeiras, tirar mel ou para o rio pescarem tinham o cuidado de ensinar as melhores estratégias, sob o ponto de vista indígena. O entendimento da natureza e o como lidar com ela em suas atividades”, explicou Miranda (2006, p.85). Esses dados obtidos da oralidade confirmam essas referências bibliográficas e também as deixadas por Altenfelder:

[...] os Terena possuíam no passado um conjunto de crenças e práticas inter-relacionadas, redundando em uma harmonia em sua cultura. Eles reconheciam uma alma, hoipihapati, para as pessoas, animais e plantas. [...]

Acreditavam ainda que certos objetos e plantas possuíam poderes mágicos, eram animistas. (1949, p. 349).

A mitologia estava presente, relacionando o meio ambiente da natureza com o ambiente social. Da natureza, a mitologia menciona as árvores, os frutos e a disseminação das sementes. Plantavam e as árvores frutificavam, assim como a justificação do seu modo de ser.

A origem telúrica lhes dá um sentimento de forte ligação à terra e ao plantio, ressaltando a importância da terra para esse povo de agricultores. Segundo Altenfelder (1949), o ano agrícola Terena iniciava em agosto. A época do plantio era determinada pelas chuvas e vinha com a limpeza das roças. O respeito à natureza vinha com o processo de rotação das roças. Talvez um aprendizado estabelecido com os roçados e derrubadas, queimadas e limpeza das áreas carbonizadas, cortados e macetados com os machados, foram elaborados ao longo dos anos. As primeiras flores do mato anunciavam o período propício para plantar, como dispunham de instrumentos de lavoura movidos à força humana e animal, as atividades eram predominantemente coletivas, segundo os papéis sociais: a mulher semeava e o homem preparava a terra.

O ‘jeito Terena’ de semear consistia em sentar sobre os calcanhares e nas mãos empregar um bastão para perfurar a terra. O semear cabe à mulher, responsável por lançar sementes nas covas abertas pelos homens. As principais plantas cultivadas eram: o milho de diversas variedades, a mandioca, o fumo, a batata doce, o cará e várias espécies de abóboras, conforme Altenfelder (1949). Com folhas de palmeiras, as mais utilizadas, as de carandá e os sisais, os Terena teciam cestarias para transportarem a lenha, os utensílios agrícolas e os frutos; também nelas guardavam alimentos e carregavam as crianças.

Hoje existem algumas roças que são plantadas com pequena ajuda da mulher, pois ela cuida com prioridade de algumas plantações pequenas nos quintais. No entorno das

moradas estão os roçados maiores sob a responsabilidade dos homens, que usam fazê-los com equipamentos agrícolas motorizados.

O povo Terena mostra desempenho ao utilizar a terra na agricultura. Por um longo processo, o qual consiste em variar os tipos de árvores para tê-las à sua disposição, quando necessários, respeitam o ciclo de recomposição da árvore, que depende de cada espécie a ser plantada. Conforme o depoimento de P 4, (SILVA, 2008) hoje algumas pessoas plantam para preservar o que existia e plantam mais árvores para não ficar sem elas. Plantam árvores frutíferas para desfrute e roças pequenas para subsistência. O depoimento de outro entrevistado, o professor P 1, (PAES, 2008) explica que o material para artesanato que existia com fartura na Aldeia, hoje não existe mais. Ele atribui as dificuldades de acesso à natureza, mais limitado devido à evolução do homem em seu relacionamento com a natureza.

Os dois informantes (P1, P4) indicam um comportamento tradicional sobre como realizavam a reposição do plantio de árvores dizimadas. No entanto, um deles aponta para uma ‘evolução do homem em seu relacionamento com a natureza’, que foi compreendido como mudanças com a chegada da tecnologia e da mudança de valores, devido à desterritorialização.

O modo de ser Terena e sua relação com a natureza foi, de forma abrangente, caracterizada por um conhecimento da tradição de que a terra precisa também do descanso para se recompor. Os papéis sociais, masculino e feminino, e suas relações com a terra estão fragilizados pelas mudanças sócio-econômicas e não foram obtidos dados que indicassem os novos comportamentos.

CAPÍTULO II

No documento FÁTIMA CRISTINA DUARTE FERREIRA (páginas 37-40)