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Na Introdução da tese, com referência aos procedimentos metodológicos explicitou-se que a pesquisa esteve centrada nas famílias e nos territórios, e que dentre os procedimentos analíticos, um deles seria o das políticas territoriais, como referendum às múltiplas funções, que a agricultura familiar camponesa é capaz de cumprir. No Capítulo II, quando foi revista toda a concepção e implicações teórico-metodológicas acerca da multifuncionalidade da agricultura no Brasil, em diversos momentos, também, se fez referências aos que abordam a questão territorial como elemento intrínseco dessa discussão (cf. MALUF, 2001; ROUX, 2001; CAZELLA, 2003, 2005, etc.). Já no Capítulo III, mesmo que para a caracterização do

lócus de estudo tenha se adotado à tradicional regionalização preconizada pelo IBGE,

igualmente referiu-se a território, vez que um dos municípios estudados não só faz parte do

Fórum Territorial do Cariri202, como também as pessoas que se identificam nesse homônimo. Por último, não menos importante, na terceira seção desse capítulo, quando serão apresentadas as informações preliminares à pesquisa de campo, passará a se utilizar, daí em diante, somente à denominação território ao conjunto dos municípios da amostragem.

Diante de tudo isso, nessa primeira seção faz-se necessário esclarecer e aprofundar essa abordagem territorial e sua relação com o debate da multifuncionalidade da agricultura. Para tanto, primeiro, definições e concepções sobre território, situando o leitor acerca dos argumentos, que vão além de uma discussão setorial, envolvendo as funções da agricultura. Isto é, de uma multifuncionalidade do território, da qual a agricultura é integrante. Depois algumas referências dessa abordagem „multifuncional do território‟, referendando essa afinidade entre ambos os debates acadêmicos. Isto é, do debate da multifuncionalidade da agricultura com o debate sobre território.

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E serviram para minimizar o desconhecimento do local por parte do pesquisador.

202

Que tem a participação de municípios das microrregiões (Carirí Ocidental, Carirí Oriental e Campina

Grande) e da microrregião do Curimataú Ocidental (o município de Soledade). Mais adiante estar-se-á

analisando mais aprofundadamente essa distinção entre território administrativamente determinado e território culturalmente construído.

2.1- Definições e concepções

Inicialmente, tratado nas ciências naturais, território estabelecia a relação entre o domínio de espécies com sua determinada área física. Depois, incorporado pela geografia, território passa, primeiro ao espaço e aos recursos naturais, posteriormente a sociedade e ao poder. Somente agora, na contemporaneidade, é que outras áreas do conhecimento passam, também, a incorporar, nos seus debates, a idéia de território. Dentre essas a sociologia, a antropologia, a economia e a ciência política. De toda sorte, mesmo existindo uma gama de trabalhos e discussões acerca de uma definição mais adequada para território, sobretudo, no âmbito da geografia – espaço mais adequado dessa discussão –, não é demasiado ratificar aqui algumas dessas referências. Além disso, essa multiplicidade de conceitos, amparados, cada um, em distintas concepções ou correntes econômicas e/ou sócio políticas, muitas das quais em várias situações, nem sempre são cabíveis à compreensão das múltiplas funções que a agricultura é capaz de cumprir no processo de reprodução das famílias camponesas.

Mesmo não sendo prioridade, nesse momento, uma ampla revisão dessa diversidade conceitual de território, cabe referenciar aquelas abordagens que sinalizam para essa afinidade existente entre as abordagens da multifuncionalidade e de território. Por isso, além da clássica definição, de que território enquanto espaço físico, geograficamente definido e delimitado, servindo como parâmetro empírico e normativo para inúmeras ações humanas, sensato seria também lembrar, a existência, no âmbito da geografia, de outras definições, que se aproximam daquilo que a compreensão da multifuncionalidade da agricultura ou do

território, exigem do ponto de vista sociológico. Nessa lógica, a primeira consideração sobre

território a transcender e até contrapor a concepção Ratzeliana203 foi sugerida por Claude Raffestin, que fez o diferencial entre espaço e território, ou seja, diferente daquela concepção de espaço (superfície) apropriada pelo homem ou por um grupo, no sentido de uma interação homem – recursos naturais, que serviu por muito tempo, como conduta de poder estatal.

Diante disso, nessa nova concepção proposta por Raffestin (1993), território como

espaço, simplesmente é o referencial ao patrimônio natural existente numa dada região, e

como território, passa a ser a apropriação desse espaço pela atuação e ação social de diferentes atores, incorporando o jogo de poder. Noutras palavras, seria o conjunto de relações humanas, que se apropriam, de um espaço físico e simbólico, como processo de construção

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Quando se diz “concepção Ratzeliana” está se referindo a Frederich Ratzel, que concebia território no contexto histórico da unificação alemã em 1871 e na instituição da geografia com disciplina nas universidades européias. Ver mais sobre essa concepção em (SCHNEIDER, 2004, p. 100-101).

social. No âmbito analítico do território, Raffestin defende a existência de múltiplos poderes que se manifestam nas estratégias locais e regionais. Isto é, território, antes mesmo de uma noção geográfica, como algo jurídico-político, “controlado por certo tipo de poder”, pautado numa correlação de forças entre dominadores e dominados. Nesse campo de forças a análise da realidade social se mostra essencial na apreensão de estratégias de relações de poder.

Outras definições de território como: Um espaço governado (ANDRADE, 1995); Um ambiente de vida, de ação e de pensamento de uma comunidade (TIZON, 1995); Um espaço histórico e socialmente, associado aos processos de construção de identidade; (CIRAD-SAR, 1996); Uma construção social (MÉO, 1998); Uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades (ABRAMOVAY, 1998); Um espaço social construído de produção e interação humana, em que atuam relações de poder e dominação (HAESBAERT, 2002), englobam um conjunto de conceituações que ensejam chegar a um sentido mais próximo da sociologia do desenvolvimento.

Na linha desses dois últimos autores [Abramovay e Haesbaert], Schneider (2003) compreende território como a interação entre espaço e homem, ou seja, uma construção humana, que se assenta na definição das relações dos indivíduos com o espaço. No entanto, não recomenda o uso ou a adaptação pura e simples do conceito de território com fins normativos e operacionais às ações humanas. Para Schneider, esses conceitos requerem as devidas mediações e adequações, sob pena de que o entendimento sobre território fique, apenas, como unidade referencial, para um nível de operação e agregação dessas ações, sobretudo daquelas políticas de intervenção no espaço. Exemplo dessa observação é encontrado na conceituação adotada pelo MDA (2005), para o qual território é:

“O espaço físico, geograficamente definido, geralmente contínuo, compreendendo cidades e campos caracterizados por critérios multidimensionais, tais como o ambiente, a economia, a cultura, a política e as instituições, e a população, com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coesão social, cultural e territorial” (MDA, 2005, p. 28).204

Em relação a essa conceituação adotada pelo MDA é importante salientar a questão das relações externas preconizadas por esses territórios rurais, relações estas que passam a permear a conduta de seus planejamentos e ordenamentos. Sobre isso, no mesmo artigo, de

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MDA. Referências para uma estratégia de desenvolvimento rural sustentável no Brasil. Brasília: SDT/MDA, 2005 (Série Documentos SDT, 1).

forma bastante didática, Schneider (op. cit.) alerta para o, ainda, insuficiente esclarecimento dessas relações territoriais, com uma dinâmica social e econômica mais ampla, mesmo que já esteja incorporada, conceitualmente, à visão de que o território engloba diferentes setores econômicos (agricultura, indústria, serviços, etc.), superando, na maioria das vezes, a dicotomia rural-urbano. Por isso Schneider sugere as explicações de José Reis, como forma de resolver essa dificuldade relacional do território, pois, para Reis (1992), territórios são espaços de mediação e articulação entre o local e ambiente externo. Se assim não for, a noção de território acaba se restringindo a simples idéia de planejamento e ordenamento, enquanto função prática, sufocando a noção de local ou esfera endógena que ele deve ter. Isso levaria ao retorno da idéia ou noção de região, utilizada como mero sinônimo de espaço. E não é isso que a concepção sociológica de território tem evitado rumar.

Nesse resgate conceitual, não se podem excluir os estudos de Bernard Pecqueur, que de longa data vem pesquisando sobre essa problemática conceitual-metodológica de território, em busca daquilo que a geografia e a sociologia contemporânea têm exigido. Principalmente, porque busca analisar o processo de desenvolvimento, numa nova abordagem perfeitamente cabível às economias ditas periféricas (do hemisfério Sul), como é o caso da brasileira. Assim, para Pecqueur (2005), território deve ser encarado como algo construído, isto é, como resultado de um processo de construção pelos atores. Como algo constatado a posteriori, contrário ao que é, geralmente, postulado, institucionalizado e homogeneizado exogenamente (como região, distrito, província, etc.).

Em semelhante viés, Tonneau & Cunha (2005), pautam que todo o território “pertence” a um grupo social, como produto de um entrelaçamento de projetos individuais e coletivos, pautados numa negociação de interesses e conflitos. Nessa concepção esses autores entendem que território é um espaço diversificado de poderes e estratégias de gestão, ao que chamam, de forma simplificada, de “território-espaço de poder”. Além disso, ao se referirem a poder, exemplificam o semi-árido brasileiro, no qual as relações de poder ainda são permeadas por estratégias de gestão bastante distintas. Isso ficou patente no Capítulo III, quando se mostrou toda a trajetória ocupacional e, a partir dela, as atividades socioeconômicas, que apontam para a existência de outro tipo de concepção mais operacional de território, que denominaram de “território-espaço de projeto” (TONNEAU & CUNHA, 2005, p. 47). Este se dá, substancialmente, em torno de uma identidade consolidada ou em consolidação, em que seus integrantes, mesmo na diversidade, buscam o consenso em torno de uma atividade produtiva de desenvolvimento (da agroecologia, por exemplo).

Mesmo existindo uma visão minimalista sobre o rural, visto como espaço disperso, associado a processos de exploração agropecuária, o importante é a existência de uma visão territorial, capaz de influenciar as dinâmicas de desenvolvimento da sociedade, ou seja, nas políticas de bem-estar e sustentabilidade dos sistemas produtivos e reprodutivos rurais. Diz-se isso, por entender que a agricultura é apenas um dos fatores constituintes dessas sociedades, por sua vez assentadas no território.

2.2- A abordagem multifuncional de território

Como vimos no Capítulo I, as primeiras preocupações em torno dos verdadeiros e reais papéis reservados a atividade agrícola mundial, especialmente, na Europa, todas, sem exceção, levaram em consideração o espaço (o território) ocupado por essas atividades produtivas e reprodutivas das sociedades rurais. Tenham elas sido no viés da segurança alimentar; tenham sido no viés do ordenamento dos espaços agrários, no viés da integridade da paisagem, etc., fato é que o espaço territorial configurava essa pauta teórico-metodológica acadêmica e, também, de gestão de algumas políticas públicas. Prova disso é que na própria Lei de Orientação Agrícola, homologada na Europa de 1962, entre seus objetivos, já estava assegurado, a tarefa de “efetuar o equilíbrio social e humano de certas zonas, que mereciam

ser preservadas”205.

Schneider & Tartaruga (2004) apontam que sempre houve uma clara preocupação instrumental e normativa nesse debate sobre território, que busca tê-lo como unidade de observação, atuação e gestão de planejamentos institucionalizados estatais. Citam como exemplo o programa LEADER na UE, o Programa de Empoderamento Comunitário nos Estados Unidos, as mesas de Concertação e dos Sistemas Locais de Produção Agrícola no Peru, de Produção Agroecológica de Frutas no Chile e o Programa Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Rurais (PRONAT) do MDA no Brasil. Para os autores, todos esses programas, ao usarem a noção de território, buscam explicar o papel do espaço [social] como fator de desenvolvimento da sociedade.

Nessa mesma linha de entendimento, é importante ressaltar que nos próprios Contrats

Territoriaux d‟Exploitation, em 1999, já estava implícita a ligação a um “território”, como

forma de participação dos atores (agricultores) e instâncias locais na definição das estratégias e dos encargos, que fariam jus às remunerações correspondentes. Inclusive dentre suas idéias- chave estava a do vínculo com um “território”, obedecendo, obviamente, às particularidades

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sociais e ambientais locais. Isso ficou demonstrado, anteriormente, no Capítulo I página 37, através, do Esquema interpretativo sobre o modo de ação pública do CTE. Ou como defendia o MAP francês: “Uma nova aliança entre os agricultores e a sociedade”. Sobre isso é importante mencionarem-se as observações de Remy (2002), que viu com a implantação dos

CTEs na França, novos modos de governança nos espaços rurais, através das políticas

territoriais. Estas políticas, por sua vez, passaram a recorrer mais profundamente à implicação dos atores locais, num processo de co-gestão entre o Estado e os agricultores.

Ainda sobre essa relação dos CTEs com a compreensão de território, ressalta-se a importância que a internalização do debate territorial trouxe e traz para a discussão dos papéis que a multifuncionalidade da agricultura é chamada a cumprir, principalmente quando recursos públicos, na forma de benefícios são alcançados pelos agricultores, sobretudo, pela unidade agrícola familiar. Através desses recursos (benefícios) tornava-se evidente a necessidade de uma abordagem conjunta ou única da multifuncionalidade da agricultura com a territorial, ou ainda, porque “favorece a passagem do (desenvolvimento) „agrícola‟ para o

„familiar e rural‟, olhados desde uma ótica territorializada” (MALUF, 2002, p. 315).

Noutra produção acadêmica Maluf (2002a), aponta que a combinação de uma abordagem de tipo setorial, representada pelos produtos, com considerações numa dimensão espaço-territorial das atividades produtivas e das relações mercantis é o enfoque recente que o desenvolvimento rural tem buscado. Isso propicia, segundo Maluf, o estabelecimento das relações de proximidade ou distanciamento entre a produção e o consumo de alimentos, que se assenta em valores e identidades construídas no território, a exemplo daqueles produtos com denominação de origem, artesanais ou típicos da cultura local (territorial).

Fruto do intercâmbio de experiências em âmbito local, nacional e internacional e pela dinamização do diálogo amplo e aberto na busca da institucionalidade que demanda a nova ruralidade, os pesquisadores Echeverri & Ribero (2002, p. 117) também analisaram as políticas implementadas na América Latina, ao longo dos últimos anos, expressando a opinião de que a visão territorial é um dos fatores mais importantes no desenvolvimento rural. E é nesse contexto que a abordagem da multifuncionalidade da agricultura se agrega, partindo do princípio de que a agricultura incorpora outras funções do espaço rural (funções social e ambiental) e passa a ser notória a institucionalidade da abordagem territorial. É como descrevem os próprios pesquisadores, ao referirem-se às condições dessa institucionalidade territorial rural: “No coração das mudanças ocorridas nas relações institucionais dos agentes

Diante disso, cada vez mais, é estabelecida uma abordagem, que não seja simplesmente setorial e sim territorial. Prova disso é que inúmeros pesquisadores e instituições vêm propiciando essa nova trajetória de debate. A FAO, por exemplo, desde a segunda metade década de 1990, insiste, de maneira crescente, na importância das atividades não agrícolas no meio rural, abrindo caminho ao debate territorial206. O Instituto

Interamericano de Cooperación para la Agricultura (IICA) vem divulgando, cada vez mais

sobre a necessidade de uma política territorial à agricultura207. O Banco Mundial publicou, em 2005, um grande estudo sobre o tema, reconhecendo que a questão do desenvolvimento vai muito “além da cidade”208

, isto é, de um desenvolvimento rural e territorial. Por último, no México, em 2006, ocorreu uma grande conferência internacional sobre desenvolvimento, envolvendo a temática territorial209.

Ao analisarem as atividades agrícolas e não-agrícolas no novo rural brasileiro, Carneiro & Teixeira (2003), referindo-se à relação da pluriatividade com a multifuncionalidade da agricultura, entendem que o debate da pluriatividade remete, necessariamente, à noção da multifuncionalidade, por promover uma articulação inter-setorial a agricultura stricto senso como outras importantes atividades desenvolvidas no espaço rural. Notadamente, entendem as autoras que

“A noção de multifuncionalidade da agricultura vem responder à necessidade de se perceber a agricultura familiar no contexto dos novos desafios que lhe são propostos pela interação contínua, e cada vez mais presente, entre práticas e valores sociais, culturais e econômicos diversificados. [...] que não reduz o agricultor a um mero homo

economicus, movido exclusivamente pela sobrevivência e pela

produção, mas que o vê como um ser social de múltipla inserção, sujeito a desejos e orientado por valores que não são reduzidos à lógica econômica” (CARNEIRO & TEIXEIRA, 2003, p. 24).

Sugerem, por conseguinte, que o debate da multifuncionalidade reoriente suas análises com vistas a formulações de políticas públicas para a população rural, nas condições multifuncionais que o território apresenta, incluindo diferentes categorias, onde a agricultura é apenas um dos elementos, nessas novas dinâmicas socioeconômicas das ruralidades contemporâneas. Dessa forma, romper-se-ia com a ótica setorial, anteriormente mencionada no Capítulo I, considerando, obviamente, toda heterogeneidade da agricultura familiar. Além

206

FAO. El estado mundial de la agricultura y la alimentación; los ingresos rurales no agrícolas en los países

en desarrollo. Roma, 1998.

207

No I Fórum Internacional Territórios, Desenvolvimento Rural e Democracia, 16 a 19 nov., 2003, Fortaleza.

208

WORD BANK. Beyond the City – The Rural Contribution to Development. Word Bank Latin America and Caribbean Studies, 2005.

209

disso, a incorporação de outras atividades desenvolvidas no espaço rural não, necessariamente, agrícolas, ao conjunto de atividades do grupo doméstico ou familiar, estaria contemplando o leque de funções que emanam da própria agricultura. Carneiro (2002) já sustentava que isso incrementaria as discussões sobre outros universos – social e cultural – dessas famílias camponesas. Com isso, o uso da noção da multifuncionalidade “provoca um

redirecionamento dos procedimentos analíticos de maneira a resgatar (e tornar visível) a

condição humana210 (e não apenas econômica) dos agricultores e suas famílias”

(CARNEIRO, 2002, p. 9). [grifos meus]

Schneider (2003) lembra que a abordagem territorial vem ganhando rápido interesse em muitos países, inclusive no Brasil, notadamente, por aqueles ligados à formulação de políticas públicas. Quando diz isso, Schneider está se referindo à Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) do MDA, que primou, a partir de 2003, em trabalhar sob ótica territorial. As razões para essa opção institucional de política governamental, na opinião de Schneider são: primeiro, em decorrência do esgotamento teórico e prático da abordagem regional, que evidencia os limites da noção de região, como unidade de referência às políticas destinadas a promoverem o desenvolvimento rural; segundo, pelo crescente questionamento da dinâmica setorial de ramos da atividade econômica (alguns segmentos do agronegócio, por exemplo), desenvolvidos muito mais pela lógica de finalidade do que de escala.

De maneira mais elucidativa sobre as razões que favoreceram a abordagem territorial, Schneider explica que a primeira razão – noção de região – não estava conseguindo mais refutar a vasta literatura, que lá muito já indicava o anacronismo da idéia de que o desenvolvimento se restringe ao crescimento. Para a segunda razão – a dinâmica setorial – as explicações, amparadas em concepções mais neoclássicas, já não estavam conseguindo explicar, satisfatoriamente, o desenvolvimento econômico e o papel das externalidades, que levam à evolução ou ao atraso de determinadas regiões.

210

Ao destacar “condição humana” cabe lembrar-se da esclarecedora obra de Hannah Arendt, para a qual se trata de “algo mais que as condições na qual a vida foi dada”. Nesse sentido, para essa autora, os homens, enquanto seres, “são condicionados”. Assim, tudo aquilo que ele (o homem) toma contato, “torna-se uma

condição de existência”. Além disso, para Arendt, através da expressão vita activa designa as três fundamentais

atividades humanas: labor, trabalho e ação. Elas correspondem à condição básica de mediação da vida humana na terra. Então, labor corresponde ao processo biológico do corpo, mediado pela própria vida; trabalho é o artificialismo da existência humana, condicionado pela mundanidade; e, ação são as atividades/atos exercidas (os) entre os humanos sem a mediação material, a exemplo da política. Além do mais, para Arendt, há uma relação entre estas três condições da existência humana. O labor assegura a sobrevivência; o trabalho e seu produto emprestam certa permanência/durabilidade à vida e ao caráter efêmero do tempo; e, a ação ao