4 O BAIRRO DA LUZ NO CENTRO DA DISPUTA
4.1. Territórios de acumulação
A teoria do imperialismo, tal como formulada por Rosa Luxemburgo, compreende a expansão territorial do capital como uma estratégia adotada pela reprodução ampliada para
36 ARAÚJO, Peu. Mesmo com mudança, 'cracolândia' continuará no centro, dizem ativistas. UOL, 2018. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/08/23/mesmo-com-transferencia-cracolandia-continuara-no-centro-dizem-ativistas.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em 05 de dez. de 2019.
solucionar suas próprias crises. Influenciada pelos escritos de David Harvey sobre o assunto37, Rosa Tello Robira transpôs esta teoria para a produção do espaço da metrópole e denominou “territórios-reserva” (também “espaços marginais” ou “territórios adormecidos”) estes fragmentos metropolitanos que são acionados em contextos de sobreacumulação, caracterizando uma nova expansão imperialista do capital sobre o tecido urbano. Em seu artigo “Áreas metropolitanas: espaços colonizados”, a caracterização destes territórios feita por Robira permite traçar um paralelo com a condição do bairro da Luz hoje:
Social e economicamente, os espaços marginais – esses ‘territórios-reserva’ – também estão fora do sistema regular de produção, consumo e formação. Seus habitantes constituem a reserva de mão de obra metropolitana, portanto o subemprego e o desemprego são situações dominantes. Para subsistir neles, são desenvolvidas economias internas, obviamente irregulares, baseadas especialmente no comércio ilegal, tanto de bens legais (“camelôs” em São Paulo), como também de bens ilegais (drogas, armas, pessoas) que alimentam os circuitos nacionais e internacionais de capital fraudulento. Quanto aos bens de consumo cotidiano, incluída às vezes a habitação, é comum que processam da reciclagem, da autoconstrução ou da ‘apropriação indevida’.38
Para a autora, no entanto, esses territórios-reserva são fundamentalmente não-capitalistas. César Ricardo Simoni Santos, tomando este conceito elaborado por Robira, atualiza as suas determinações – é evidente que as transformações sofridas por esses espaços metropolitanos são de ordem qualitativa e não apenas quantitativa, mas isso se dá ao acionar seu potencial de valorização, não negando sua condição previamente capitalista. O fato de um território estar à margem do ciclo de acumulação do grande capital não necessariamente implica em um caráter não-capitalista das relações sociais reproduzidas ali.
Dessa forma, Santos compreende que este processo de acumulação primitiva se dá sobre espaços que haviam sido integrados a ciclos pretéritos de acumulação, mas que tornaram-se obsoletos – vale destacar a existência da Estação da Luz, principal estação da estrada de ferro Santos-Jundiaí (e sede da São Paulo Railway), grande empreendimento logístico que permitiu a exportação via Porto de Santos do café produzido no interior do estado. Em frente ao Complexo Júlio Prestes, o prédio histórico da Estação Júlio Prestes ainda exibe a palavra “Sorocabana” na fachada, em referência a outra estrada de ferro (Estrada de Ferro Sorocabana) que também desempenhou importante função logística para a economia cafeeira. Trata-se,
37 HARVEY, David. O novo imperialismo. 8ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
38 ROBIRA, Rosa Tello. Áreas Metropolitanas: espaços colonizados. In: CARLOS, A. F. A. e CARRERAS, C. (Org.) Urbanização e mundialização: estudos sobre a metrópole. São Paulo: Contexto, 2005, p. 9-20.
portanto, de uma região estratégica para a realização do capital do café e posteriormente industrial, mas que se desvalorizou com a reordenação espacial do capital na metrópole, fruto da superação de determinados ciclos de acumulação.
Para que o capital se reterritorialize nesses locais deve haver não só a destruição dessa infraestrutura obsoleta, mas de toda a dinâmica comercial e social que ela produziu – a destruição se estende, portanto, ao comércio informal e a um perfil de habitante, alterando profundamente a vida cotidiana do bairro. A construção de outra rede de equipamentos e serviços dará suporte aos investimentos, podendo tornar o bairro novamente central do ponto de vista da realização do grande capital. Seguindo o raciocínio de Santos (2006), a distância entre as condições de desvalorização e revalorização (o potencial de valorização em questão), portanto, só existe por conta da manutenção dessa desvalorização após a fuga de capitais, produzindo a “degradação” desses locais – degradação essa que é material, dos imóveis e equipamentos urbanos, mas que frequentemente se refere à degradação da própria vida social. A desvalorização, portanto, deve ser considerada também a partir de seus aspectos positivos para a acumulação, pois ela possibilita a produção dessa “reserva territorial de acumulação primitiva do espaço” (SANTOS, 2006). É justamente a “inviabilidade econômica” desses espaços que os torna tão atraentes para os novos investimentos, pois o gap entre o antes e depois da intervenção urbana permite alta rentabilidade. No fim do século XX e início do XXI, este processo tem se repetido nas áreas centrais de diversas metrópoles da periferia do capitalismo.
No entanto, esse processo não é espontâneo: não é possível compreendê-lo sem considerar o papel do Estado, pois é sua agência destruidora que pode arrasar esses estoques de espaços desvalorizados (ou legitimar essa ação). Para abrir caminho para a valorização, a burocracia estatal se vale do aparato legal e da violência para remover famílias de moradias precárias e pequenos comércios. Este é o momento crucial do que foi chamado por Harvey (2004) e Santos (2006) de “acumulação por espoliação” ou “acumulação por despossessão”, uma atualização do processo de acumulação primitiva.
Pensando na produção de Operações Urbanas Consorciadas, que normalmente envolve a remoção de pessoas de suas propriedades particulares mediante compensação (abaixo do valor de mercado) paga pelo Estado, o movimento da acumulação por despossessão se faz entender. Na PPP Habitacional, todavia, este processo se dá de outra forma – isso porque, como já visto, o empreendimento foi construído exclusivamente sobre terrenos do Estado. Se considerarmos que esse banco de terras consiste, de fato, num patrimônio de toda a sociedade (ainda que a
apropriação desses espaços nem sempre se dê de forma pública), é possível identificar este processo como um momento da acumulação por despossessão indireta39.
Caracterizar a Luz como um território-reserva implica identificar o papel central da Cracolândia na manutenção da desvalorização do bairro – ela é o grande entrave para a valorização dos terrenos na região e, dialeticamente, é a sua existência que possibilita a formação de um potencial de valorização. É justamente a degradação atribuída à Cracolândia (ainda que, como visto, essa degradação remonte ao período da Boca do Lixo) que possibilita uma escalada futura da rentabilidade das terras no entorno do fluxo, tornando a região estratégica para investimentos.