4 CONFLITOS DE PESCA
4.1 TERRITÓRIOS DE CONFLITOS
O Arquipélago de Marajó é freqüentemente palco de conflitos devido à apropriação criminosa86 dos recursos naturais – terra, água, pastagens, mangues, lagos, igarapés e rios, por parte de um pequeno grupo dominante que acaba impedindo a grande maioria dos trabalhadores de realizar suas atividades produtivas como a caça, a pesca, a agricultura, a produção de carvão e a criação de pequenos animais.
Miranda (1951), fez menção à prática dos fazendeiros locais, de construírem “currais” ou “cercados” ao longo das praias de areias ou de tijuco nos rios, com a finalidade de formar lagoas artificiais que abrigassem peixes e quelônios que mais tarde seriam consumidos na Ilha ou vendidos para a Belém.
A este tipo de prática definida pelo autor como piscicultura é atribuída à utilização de instrumentos comuns à pesca artesanal 87 e o fato constitui uma tentativa pouco eficiente de criar reservas de peixe - devido à baixa concentração destes nas lagoas, provavelmente provocada por períodos de seca prolongada (MIRANDA, 1951).
Os grupos sociais envolvidos nos conflitos daquela época eram principalmente, os fazendeiros (criadores de gado) e os pescadores artesanais. Há na literatura sobre a região, registros de “conflitos de beirada”, que ocorreram na década de 1940 (JURANDIR, 1942; ALMEIDA, 1998; VIANNA, 1998). Jurandir (1942) afirma que houve sérios desentendimentos entre os fazendeiros - que exigiam o direito de uso exclusivo da “beirada do rio”, e os pescadores - que alegavam ser esta área de propriedade da marinha e, portanto de livre acesso.
Os fazendeiros acusavam os pescadores artesanais de invadirem seus lagos e de roubarem seus gados. Este último fato serve de respaldo para os mesmos contratarem vigias armados e darem-lhe a função de expulsar qualquer pessoa que tente usar o recurso. Jurandir (1942), nesse seu trabalho de cunho jornalístico e analítico, dá razão aos pescadores e sugere
86 A apropriação é criminosa, pois fere o código das águas (Capitulo II: Art.7º; Cap. IV: Art. 10 e 11) Decreto n.º 24.643, de 10.07.1934. O código define como águas comuns (de livre acesso) todo corpo de água que ultrapassa o limite territorial de uma propriedade privada (como é o caso dos rios e igarapés), nos terrenos da marinha, nos terrenos reservados nas margens de correntes públicas de uso comum como canais e lagos da mesma espécie. 87 A pesca artesanal de subsistência a que me refiro é aquela cuja produção está voltada para o consumo dos familiares e da comunidade, semelhante a “pequena pesca” descrita por José Veríssimo em sua obra A pesca na Amazônia (1895, p. 69).
como solução para o conflito a reorganização da indústria da pesca e a partir desta uma definição para o uso da beirada.
Atualmente, os conflitos de pesca, no Arquipélago do Marajó caracterizam-se por tensões que assumem feições variadas, “as quais vão das manifestações de insatisfação por parte das categorias envolvidas” podendo chegar a situações de ameaças diretas e até mesmo agressões. A insatisfação surge entre os agentes antagônicos que buscam garantir seus direitos (de uso de recursos, por exemplo) (FURTADO, 1993).
As categorias envolvidas são os pescadores artesanais de subsistência, pescadores artesanais comerciais, os agentes financiadores intermediários (geleiros, encarregados, balanceiros), os fazendeiros (geralmente pecuaristas) e as lideranças dos órgãos governamentais representativos da pesca, como o IBAMA.
As informações empíricas apontam a existência de conflitos entre: pescadores artesanais (de subsistência e comerciais) e as instituições creditícias e de fiscalização; os pescadores de subsistência e os fazendeiros; pescadores comerciais e os fazendeiros e entre os pescadores artesanais de subsistência e os artesanais comerciais.
Os confrontos ocorridos entre os pescadores artesanais e os representantes de instituições federais, e creditícias são percebidos como “conflitos externos”, cujas intervenções partem de ações vindas de fora da comunidade. Entretanto, aqueles que envolvem fazendeiros versus pescadores artesanais ou pescadores entre si são denominados “conflitos internos”. RECURSO (TERRITÓRIOS DE PESCA) CATEGORIAS ANTAGONICAS MOTIVOS CARACTERÍSTICA DOS ENFRENTAMENTOS RIOS E TRIBUTÁRIOS PESCADORES ARTESANAIS X IBAMA
- discursos divergentes sobre a lei do defeso; uso de redes ou épocas impróprias
apreensão de redes de pesca e barcos em época de
defeso; multa RIOS, IGARAPÉS, BAIXAS E LAGOS DE FAZENDA PESCADORES ARTES. DE SUBSISTÊNCIA X FAZENDEIROS
- fazendeiros alegam roubo de gado e cercam os recursos pesqueiros; exploração comercial dos recursos; destruição das lavouras pelos
rebanhos bovinos e bubalinos.
ameaças com vigias armados; cercas eletrificadas RIOS, IGARAPÉS, BAIXAS E LAGOS DE FAZENDA PESCADORES DE SUBSISTÊNCIA X PESCADORES COMERCIAIS
- invasão dos territórios de pesca por pescadores "forasteiros" e uso de redes
impróprias
discussões; proibições verbais; conversa entre
lideranças RIOS E LAGOS (SAFRA) PESCADORES ARTES. COMERCIAIS X FAZENDEIROS
- alto preço do arrendamento; recusa de contratação; conflito de beirada
ameaças com vigias armados; agressões;
mortes?? Quadro 8- Relação de categorias antagônicas/motivos/características do enfrentamento, pelos recursos pesqueiros de uso das comunidades quilombolas de Salvaterra.
No quadro 8, há o resumo dos motivos mais citados pelos entrevistados, em Salvaterra como responsáveis pelas tensões. Os conflitos internos, que envolvem os pescadores artesanais de subsistência e os fazendeiros, diferem dos que ocorrem entre os pescadores comerciais e os fazendeiros, contudo ambos envolvem a proibição por parte do fazendeiro ao uso do recurso.
Na relação com os pescadores de subsistência, os fazendeiros cercam as áreas com arame farpado ou cercas elétricas de limite (sem nenhum aviso de perigo), e usam, inclusive, a estratégia de deixar os rebanhos de bovinos e bubalinos, soltos no campo, para que estes destruam os lagos, as plantações e os quintais dos pequenos produtores familiares, forçando- os a saírem da área de cultivo ou de pesca.
No outro caso, o dos pescadores comerciais, os fazendeiros têm por pratica deixar de realizar arrendamentos com as turmas de rio ou de lago das comunidades e fazer novos contratos com pescadores “de fora”, como forma de retaliação. Podem ainda inibi-los com vigias armados, proibindo o acesso à beirada dos rios e ameaçando-os com a polícia local.
Na relação entre os pescadores artesanais comerciais e os de subsistência pode haver conflito caso os primeiros invadam os territórios de pesca de uma comunidade que não é a sua, ou seja, caso a turma de rio de Barro Alto capture peixe no rio Mangueira ou em seus tributários (como os igarapés) com extensas redes e geleiras e sem a permissão dos moradores da comunidade. Este tipo de conflito tem ocorrido em baixa freqüência, principalmente durante a época do defeso, quando os pescadores comerciais tentam burlar a fiscalização do IBAMA, pescando em rios mais interiores.
Quanto aos conflitos externos podemos citar Leonel (1998) que afirma que a pesca no interior da Ilha do Marajó é conflituosa, pelo fato de os fazendeiros não deixarem os pescadores lançarem suas redes em regiões consideradas pelos primeiros como sua propriedade particular, tanto terra quanto água. O autor situa a temporalidade destes enfrentamentos também com o IBAMA e afirma que eles acontecem principalmente durante os meses de chuva, pois neste período acontecem os dois fatos simultâneos. O primeiro é um fato ligado à dinâmica das populações pesqueiras, que durante os meses que vão de dezembro a junho refugiam-se para reproduzir nos campos alagados e nos lagos da região, ocasionando a falta de peixe nos leitos centrais dos rios. A dificuldade da captura reduz a produtividade dos que pescam nestas áreas, e somado a este fato há a proibição da pesca estabelecida pela Lei do defeso. Tal proibição se dá devido o período de desova dos peixes que ocorre nos meses dezembro e maio, esta lei força os pescadores a esperarem passar a época do defeso. É neste período que os mesmos se enfrentam com o IBAMA, o órgão responsável pela
fiscalização destes recursos, durante seis meses. Os pescadores protestam quanto à generalização do defeso, pois consideram que as desova são diferentes, por exemplo, entre os peixes considerados dos lagos e do mato e os peixes dos rios, que geralmente são espécies migratórias.
É importante frisar que mesmo sendo freqüentes os enfrentamentos entre os quilombolas e os fazendeiros, poucos são os documentos oficiais que podem servir de comprovação formal destes acontecimentos. No geral, quando um pescador é ameaçado ou impedido de pescar em águas pluviais da união costuma levar a denuncia ao IBAMA ou a Polícia Militar, que procede, em sua maioria, informalmente através de conversas conciliatórias. Documentos oficiais como boletins de ocorrência policiais ou processos instaurados são raros e quando existem estão fora de alcance. Pessoalmente fui à delegacia de Soure, ao Fórum Municipal duas vezes e fui informada que não há registros.
Almeida (2003, p. 44) em sua obra “Palafitas do Jenipapo na ilha do Marajó: a construção da terra, o uso das águas e o conflito” apresenta uma relação de três homicídios “e um atentado à bala a um lavrador, pelos denominados ‘vigias’ em abril de 1986, abril de 1989 e abril de 1991”, todos denunciados pelos relatórios da Comissão Pastoral dos Pescadores referentes aos últimos doze anos.
Visualizar e entender os conflitos de pesca se torna relevante à medida que se possam obter informações empíricas que sirvam de base para a elucidação ou a diminuição dos mesmos. Furtado, (1993, p. 389), ao se referir aos conflitos de pesca existentes na região do baixo Amazonas, afirma que os conflitos precisam ser solucionados, “a partir das estratégias criadas e indicadas pelos moradores (e apoiada pela análise crítica do cientista)”. Caso contrário, a tendência é haver a deterioração das condições de vida do pescador regional, bem como o benefício das classes dominantes envolvidas na pesca e, portanto, a desestruturação da “pequena produção pesqueira, a qual vem criando estratégias ou mecanismos que permitem sua reprodução social”.
4.2 TERRITÓRIOS DE PESCA DOS PESCADORES ARTESANAIS CONVERTIDAS EM