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Territórios e territorialidades: conceitos e relações

No documento 1 Giovana Goretti Feijó de Almeida (páginas 67-71)

A palavra território tem sua procedência no latim, territorium, que segundo Albagli (2004, p. 26) "deriva de terra e significa pedaço de terra apropriado‖. Já espaço refere-se ao patrimônio natural que existe em uma determinada região e, conforme salienta Santos (1996), é uma relação sociedade versus natureza, sendo esta organizada. Assim, pode-se dizer que território origina-se também dessa discussão. Contudo, território é o homem na natureza, um limite espacial singular adequado, usado. Neste caso a dualidade (espaço versus natureza) desaparece. De acordo com Raffestin (1993), território é um espaço apropriado por atores

sociais, sendo definido e delimitado por e a partir das relações de poder em suas múltiplas dimensões. Destarte, ele estaria em conexão com a construção social das pessoas que vivem em uma região ou local e como elas relacionam-se entre si, criando laços intermediados (de identidade e cultura) por relações de poder. Por conseguinte, segundo Albagli (2004, p. 26),

"cada território é produto da intervenção e do trabalho de um ou mais atores sobre determinado espaço." É uma obra coletiva disposta socialmente que cria um sentimento identitário e de pertencimento em comum que estabelece ligações de interesses.

Percebe-se que o termo cultiva significados específicos vinculando-se a uma variedade de dimensões, tais como: dimensão física, dimensão econômica, dimensão sociopolítica e dimensão simbólica. Esta última, segundo Albagli (2004, p. 27), é "um conjunto específico de relações culturais e afetivas entre um grupo e lugares particulares, uma apropriação simbólica de uma porção do espaço por um determinado grupo, um elemento constitutivo de sua identidade." Dentro dessa perspectiva, "cada território é, portanto, moldado a partir da combinação de condições e forças internas e externas, devendo ser compreendido como parte de uma totalidade espacial." Assim sendo, torna-se singular, visto que possui significados que somente podem ser compreendidas por seus atores sociais e econômicos naquela referência socioespacial (ALBAGLI, 2004, p. 27).

Flores (2006) traz a reflexão sobre o conceito de território também como um local de articulação de estratégias de desenvolvimento através de várias argumentações sobre o processo de construção social. Apresentando, assim, um debate sobre as noções e conceitos que o conduzem à identidade cultural. Para isso, utiliza-se de autores como Raffestin (1993) que apresenta a concepção incorporada ao jogo de poder entre os atores que atuam em um mesmo espaço, surgindo, o território como o resultado de uma ação social49. Abramovay (2000) o considera como uma trama de relações com raízes históricas, configurações políticas e identidades com papel pouco conhecido no desenvolvimento econômico. Já Pecqueur (2005) fala em dois tipos: a) o território dado, ou seja, aquele sendo um espaço-lugar estabelecido pela decisão político-administrativa em um processo top-down (de cima para baixo), sem valor acrescentado e, b) o território ou espaço construído que seria formado a partir do encontro de atores sociais em um espaço geográfico definido, que buscam identificar e resolver problemas em comum, ou seja, seria um produto oriundo de um processo de melhoria, fruto do jogo dos atores.

Mas eles não são apenas áreas estáveis e contíguas, separadas por limites, divisas e

49 Processo de construção social.

fronteiras50, salienta Albagli (2004, p. 27-33). Há também superposições e instabilidades dentro de seus próprios limites, a partir de territorialidades distintas. Nessa mesma linha de pensamento, Souza (1999, p. 87), diz que os territórios podem ―formar-se e dissolver-se, constituir-se e dissipar-se de modo relativamente rápido, ser antes instáveis que estáveis ou, mesmo, ter existência regular, mas apenas periódica, ou seja, em alguns momentos [...]‖.

Ambos os autores ressaltam a importância desse sentimento de pertencer a algum lugar como forma de manter viva sua história, tradições e cultura.

De uma forma mais abrangente, observa-se que os conceitos estão interligados. O território se origina da forma como seus atores vivem e se relacionam; sejam pessoas, grupos, organizações, enfim, todos que compartilham desse relacionamento vivido, experenciado cotidianamente. Dessa relação exposta deriva o conceito de territorialidade e de sentimento de pertencimento, unindo presente, passado e futuro em uma situação que se encontra em constante movimento. A territorialidade diz respeito à forma como as pessoas vivem por meio de seus vínculos sociais e sua compreensão sobre o uso do território, diferenciando-os uns dos outros. É, portanto, a forma como os grupos da sociedade entendem a ligação com seu local, sobre seu sentido ou significado.

O mesmo território pode ser compreendido de diferentes formas por seus grupos sociais e econômicos. A noção de pertencimento dá, portanto, ideia ao conceito de territorialidade. Contudo, segundo Flores (2006), o território compreendido como espaço de articulação de ideias é um processo que apresenta dois problemas principais: a) confronto entre políticas setoriais e territoriais, estruturas centralizadas e descentralizadas de gestão e planejamento e, b) ambiente institucional local e externo. Esse território estabelecido como espaço das relações sociais articuladas criaria um sentimento de pertença em relação à identidade elaborada (laços de solidariedade), já que, ambas estão interligadas, fortalecendo a identidade e refletindo sobre essa sensação. Sendo esta condicionada às normas sociais e valores culturais que variam de sociedade e também de período espaço-tempo.

A territorialidade aparece então como constituída de relações mediatizadas, simétricas ou dissimétricas com a exterioridade. [...] se inscreve no quadro da produção, da troca e do consumo das coisas. Conceber a territorialidade como uma simples ligação com o espaço seria fazer renascer um determinismo sem interesse. É sempre uma relação, mesmo que diferenciada, com os outros atores (RAFFESTIN, 1993, p. 161).

50 "[...] hoje todas as culturas são de fronteira. Todas as artes se desenvolvem em relação com outras artes; o artesanato migra do campo para a cidade; os filmes, vídeos e canções que narram acontecimentos de um povo são intercambiados com outros. Assim, as culturas perdem a relação exclusiva com seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento" (CANCLINI, 1997, p. 348).

Albagli (2004, p. 28) refere-se ao conceito de territorialidade quanto "às relações entre um indivíduo ou grupo social e seu meio de referência, manifestando-se nas várias escalas geográficas [...] e expressando um sentimento de pertencimento e um modo de agir no âmbito de um dado espaço geográfico." Essas relações com o território acabam fornecendo significados que intensificam seu poder territorial por meio de suas identidades coletivas e regionais.

Visto dessa forma, concorda-se com Albagli (2004, p. 30) quando afirma que a territorialidade age como um "elemento de coesão social, fomentando a sociabilidade e solidariedade, mas pode também ser fonte ou estímulo de hostilidades, ódios e exclusões." É como se fosse uma contínua (re)negociação entre os atores que formam o território. Nesse sentido, Raffestin (1993, p. 153-165), salienta que o território "exprime a relação que um grupo mantém com uma porção do espaço [...] O limite cristalizado se torna então ideológico, pois justifica territorialmente as relações de poder". Relações essas que, conforme Albagli (Idem, p.33), "entram frequentemente em lutas e disputas ideológicas e econômicas, pois [...]

envolvem escolhas e tomadas de decisão por um ator ou conjunto de atores, os quais, desse modo, produzem o território‖.

Santos (1996) traz também o conceito de re-territorialidade no sentido de redescoberta da resignificação de lugar e da comunidade. O local se manifestaria sempre e é construído a partir da memória coletiva51 e das relações sociais que se formam pelas interações locais e externas. Além desses conceitos sobre território, Flores52 fala sobre o capital cultural e social53 e diz que ele é quem estabelece o potencial do desenvolvimento do território, sendo formado a partir da sinergia entre Estado e sociedade. As territorialidades seriam construídas a partir do interno e baseadas neste capital sociocultural (FLORES, 2006). Essa produção territorial, enquanto espaço de relação de poder, se distingue das demais por meio de suas identidades e vínculos com seus interesses sociais, políticos, culturais e econômicos.

51 Termo cunhado pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs, em1992, para designar o fenômeno que surge da interação social. A memória coletiva age no reconhecimento e reconstrução, atualizando os ―quadros sociais‖, nos quais as lembranças podem permanecer e, dessa forma, articular-se entre si.

52 Flores (2006) traz o conceito de território associado aos conceitos de vários outros autores como: Raffestin (jogo de poder), Milton Santos (conceito de re-territorialização), Abramovay (trama de relações), Pecqueur (território dado), Brunet (espaço de relações sociais, laços solidariedade entre os atores), Albagli (sentimento de pertencimento), Lacour (espaço de desenvolvimento multidimensional) e outros. Percebe-se, portanto, a importância de se compreender melhor esses conceitos.

53 Segundo o sociólogo francês, Pierre Bourdieu, em sua obra O Poder Simbólico (1998), os indivíduos se posicionam de acordo com o capital acumulado - social, cultural, econômico e simbólico. O capital social diz respeito à rede de relações interpessoais que cada um constrói, com os benefícios ou malefícios que ela pode gerar na competição entre os grupos humanos. Já na educação se acumula, sobretudo, o capital cultural, na forma de conhecimentos apreendidos, livros, diplomas, etc.

No documento 1 Giovana Goretti Feijó de Almeida (páginas 67-71)