2. TERRITÓRIO DE PARENTESCO NA COMUNIDADE DE ALTO IGUAPE
2.3. TERRITORIALIDADE ATUAL NAS GOIABAS E CONFLITOS INTERNOS EM
Após as três ondas de migrações que abordei na seção anterior, boa parte dos membros da Comunidade Quilombola de Alto Iguape estabeleceu-se na área urbana
do município. Hoje, a maioria dos residentes das Goiabas é formada pelos membros da família Santana, que habitam o terreno que pertence à família Borges de Almeida, por ser uma herança de Deoverdino. Desta família, apenas Celina de Almeida Rangel e Maria Jocinéia Almeida Santana moram nas Goiabas; a primeira ao lado da casa em que seu pai morou antes de descer para Jabaraí e a segunda com seu marido, filho de Seu João, próximo à casa em que morou este senhor.
Da família Rangel, apenas Paulino, Elielza e Adilson continuam na roça. Os demais firmaram-se em Kubitschek, onde moram próximos de Carmosina Andrade Rangel. Já da família Barcelos, permanecem nas Goiabas Pedro Pereira Barcelos e sua esposa Isabel Ramos Barcelos, bem como Anália Barcelos Santana, que é casada com Valdemar Santana. Pelos relatos dos membros desta família, os demais também estão estabelecidos em Kubitschek, com a exceção de Almir Pereira Barcelos e sua esposa Carmem Pereira Barcelos, que moram em Jabaraí, próximos de Seu Emílio. Por fim, das famílias Andrade e Mendes da Vitória não há mais nenhum representante nas Goiabas.
Com a saída dos membros da família Borges de Almeida das Goiabas, o terreno outrora pertencente a Deoverdino foi ocupado majoritariamente pelos membros da família Santana. Abaixo do córrego representado nos croquis (p. 35-36), estão situadas a casa em que Seu João morou até falecer e que hoje é habitada por sua filha mais velha, Benedita Santana, bem como as residências de suas filhas e de seus netos. Celina mora com Adilson acima do córrego, ao lado da casa que pertencia a Seu Emílio.
A ocupação do terreno dos Borges de Almeida pelos Santana gera conflitos entre as duas famílias. Alguns membros da primeira família, nas entrevistas que concederam a mim, muitas vezes se posicionaram como proprietários do terreno, que está registrado no nome de Seu Emílio. Eles queixaram-se que, apesar de morar e trabalhar ali, os Santana não dão a meia ou a terça do que produzem para seu pai e nem contribuem com o pagamento do imposto rural. Membros da família Santana, por sua vez, queixaram-se que os Borges de Almeida limitam a construção de novas casas ou a abertura de poços na Goiaba de Baixo. Porém, eles afirmam que existe um documento que comprova que Benedita Vitória de Santana também era uma das
herdeiras do terreno, o que os daria o direito de usufruir dele. Esse documento teria sido deixado pelo próprio Deoverdino, que criara Benedita Vitória.
A despeito do conflito em torno do usufruto do terreno da Goiaba de Baixo que existe entre os membros da geração intermediária das famílias Santana e Borges de Almeida, Seu Emílio finaliza o relato já citado acerca da mudança de Seu João para aquele terreno demonstrando que tem em mente a ideia da propriedade coletiva do território da comunidade quilombola.
Eu num vou tirar ninguém dali, né, rapaz? Tem hora que eu fico pensando: “Gente, tirar dali e botar aonde?” Deixa lá! Lá nem eu grito, nem ninguém grita. Todo mundo grita, então, todo mundo é dono (Emílio Borges de Almeida, entrevista concedida ao autor. Guarapari, 2015).
O grito se refere à autoridade sobre o território. Se todos gritam, todos têm autoridade, todos os parentes são os “donos do lugar” (FERREIRA, 2009); logo, o território é uma apropriação comunal da coletividade de parentes e herdeiros dos antigos moradores ancestrais. Ainda assim, Seu Emílio é visto como o “chefe do quilombo” pelos membros da comunidade, não só por ter o título de propriedade das terras da Goiaba de Baixo, mas também por ser o “remanescente mais velho”, como eles dizem.
Além da questão do usufruto da terra, Adriano explica que os conflitos envolvendo os membros das famílias Santana e Borges de Almeida devem-se às divergências no estilo de vida entre o núcleo familiar de Seu João e o de Seu Emílio.
[O conflito] não é Jabaraí com Goiabas, é... Dois grandes núcleos da família, o núcleo de tio Emílio e de tio João. Por quê? É... Por questões lá do passado, né? Que eu até te falei que o tio Emílio, ele andou saçaricando, né? Com a cunhada, e o tio João, e, e, a, os filhos do tio João têm uma lógica de vida diferenciada da lógica que o tio Emílio, né? Deu pra vida do lado da família dele (Entrevista do autor com Adriano Albertino da Vitória, Vitória, 2015).
Então, o fato de Seu Emílio ter tido dois filhos com Etelvina Santana enquanto era casado com Dona Alicia foi apresentado como um dos motivos do conflito entre os dois núcleos familiares. Diante disso, o casamento entre Seu Emílio e Dona Alicia, que inicialmente reforçou a aliança entre as famílias Santana e Borges de Almeida, veio a se constituir em um elemento de enfraquecimento das relações existentes entre as duas famílias nas gerações mais novas, devido a tal lógica de vida familiar diferenciada.
Um terceiro motivo para o conflito que observei na Comunidade de Alto Iguape é a organização política dos membros da comunidade. Por morarem na área urbana e terem os seus afazeres cotidianos, João de Almeida e Durval nem sempre se fazem presentes nas Goiabas quando são solicitados, além de não convocarem reuniões periódicas da ARQUI, que, segundo os quilombolas das montanhas, deveriam ser mensais. Isso faz com que os moradores do núcleo rural da comunidade nem sempre tomem conhecimento das ações que eles realizam enquanto presidente e vice-presidente da associação quilombola. Por não disporem dessas informações, os membros do núcleo das Goiabas questionam muito a gestão de João de Almeida e Durval.
Então, um conflito que tem origem territorial, familiar e espacial alcançou as relações políticas internas à comunidade quilombola. Diante disso, João de Almeida e Durval sofrem constante oposição dos habitantes das Goiabas, que afirmam que “nada aconteceu” ou que “nada mudou” após o reconhecimento da comunidade como quilombola pela Fundação Cultural Palmares. Alguns deles, inclusive, expressaram que preferiam o período em que Régis Loureiro estava à frente da comunidade, logo após a certificação, alegando que ele providenciava transporte para que os quilombolas vendessem seus produtos nas feiras de Guarapari, programava mais ações sociais da Prefeitura do Município nas Goiabas e levava bandas de congo para tocar na comunidade, além de realizar reuniões com mais periodicidade. Por outro lado, João de Almeida e Durval demonstram muita desconfiança com àqueles e afirmam que eles são muito ingênuos e influenciáveis, e que eles acreditam em qualquer promessa que desconhecidos lhes façam.
3. TRABALHO, RELAÇÕES COM A NATUREZA E RELIGIOSIDADE: OUTROS