I IMPOSTO SOBRE A RENDA IR
I.2 Espacialidade possível do Imposto sobre a Renda
I.2.1 Territorialidade e Universalidade
Preciso, como em todas as suas análises, Alberto Xavier destaca que os princípios da fonte e da residência apenas esclarecem as conexões (respectivamente objetiva ou pessoal com o território do pais tributante) relevantes para fundamentar o poder tributário de um Estado, entretanto, não respondem diretamente à questão de saber qual a extensão desse poder, isto é, até onde se estende o âmbito de incidência das leis tributárias internas.
Em linha com o que foi afirmado neste trabalho linhas atrás (quando se tratou do princípio da territorialidade), Heleno Taveira Torres93 – a respeito da escolha do
princípio em que se guiará o Estado para tributar a renda – destaca: "Em verdade, tal escolha
paira, tão somente, na opção entre adotar o princípio da universalidade, ou não, porque o princípio da territorialidade é imanente a todo e qualquer ordenamento jurídico. Não há uma terceira opção".
Neste mesmo sentido é a opinião de Paulo de Barros Carvalho94, para quem a opção pelo princípio da universalidade não significa afastar o princípio da territorialidade:
"Não obstante seja este o atual regime de tributação das pessoas jurídicas, de modo algum tal circunstância poderá ter o condão de levar-nos a concluir, apressadamente, que a opção pelo princípio da universalidade tenha afastado aquel' outro, da territorialidade. Ao contrário, como diz com procedência Heleno Tôrres (Pluritributação Internacional Sobre as Rendas de Empresas, SP, Ed. RT, 1997, 75), o princípio da universalidade pressupõe a territorialidade, que servirá como critério
93
Pluritributação Internacional sobre as Rendas das Empresas, p. 69.
94
O Princípio da Territorialidade no regime de tributação da Renda Mundial (Universalidade) – Revista de Direito Tributário, 76, p. 5.
de conexão para determinar o regime jurídico próprio das rendas produzidas no interior do Estado brasileiro, seja por residentes ou não residentes."
(...)
O princípio da territorialidade é regra implícita, mas que está na raiz do nosso Estado Federal. Deflui, com grande força e intensidade, constituindo as esferas jurídicas parciais. Ao mesmo tempo, é regra expressa do subsistema do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza e não foi derrogado pelo princípio da universalidade. Estatui aquele primado, em suma, que operações jurídicas realizadas no exterior são também hipóteses de incidência para a tributação no Estado brasileiro, devendo ser escrituradas em observância a deveres formais previstos na lei, para efeito de ulterior percussão da regra matriz de incidência do imposto que alcança fatos imponíveis ocorridos dentro ou fora do territorial nacional.
São vários os critérios de racionalidade impositiva que determinam essa orientação. E é perfeitamente legítimo ao sistema jurídico brasileiro projetar os efeitos de suas normas para além fronteiras, ampliando o critério espacial de localização das materialidades tributáveis, exigindo tributo no que concerne a operações celebradas fora do Brasil e garantindo o exercício coativo das suas regras."
E assim é porque, como já tive a oportunidade de me referir, o princípio da territorialidade é imanente à soberania do poder tributante. Os fatos sujeitos à incidência da norma estão relacionados à jurisdição jurídica decorrente da ligação entre as partes (sujeito ativo e passivo), o que não necessariamente coincidirá com a localidade onde se deu a ocorrência do fato jurídico tributável.
Portanto, é possível afirmar que segundo o princípio da territorialidade, no que tange ao imposto sobre a renda, todas as situações jurídicas que dêem origem ao auferimento da renda geram uma obrigação tributária, devida ao Estado soberano do sistema jurídico aplicável em decorrência do elo jurídico estabelecido com a geração da renda, seja pessoal (residentes) ou com o fato do qual decorreu a renda (p. ex. estrangeiros desenvolvedores de atividades em solo nacional).
Entretanto, em que pese não seja tecnicamente perfeita tal afirmação (face ao que se viu a acima) costuma-se afirmar que o Estados que optam por não tributar as
efeitos da tributação do Imposto sobre a Renda.
Em contraposição ao Princípio da Territorialidade (na acepção constante do parágrafo anterior), os Estados modernos têm adotado o sistema de tributação de rendas com base no Princípio da Universalidade (também denominado de Base Global, Princípio da Pessoalidade, Princípio da Renda Mundial ou ainda World-Wide Income
Taxation). Segundo esse princípio passa a ser tributada a universalidade das rendas (auferidas no mercado doméstico e exterior) por pessoas jurídicas domiciliadas no país. Assim, todas as rendas obtidas pelos residentes (mesmo obtidas fora do território nacional) encontram-se dentro do âmbito da incidência do imposto sobre a renda.
Ainda segundo Alberto Xavier, os sistemas fiscais quando adotam o elemento de conexão residência, a estabelecer uma obrigação tributária ilimitada, no sentido de que o residente de um país, seja pessoa física ou pessoa jurídica, é tributável por todos os seus rendimentos, tanto de fonte interna, quanto de fonte externa: e daí que se fale num princípio da universalidade ou do "world-wide-income", que conduziria, assim, a uma extensão "extraterritorial" da lei interna.
De outro lado, prossegue Alberto Xavier afirmando que os mesmos sistemas fiscais tendem a impor uma obrigação tributária limitada aos não residentes, submetendo a imposto apenas os rendimentos decorrentes de fontes localizadas no seu território. E assim é por concluir que o Estado da fonte não pode, face ao Direito Internacional Público, estender o âmbito espacial das suas leis a rendimentos auferidos no exterior por pessoas que não residam no seu território, já que neste caso não há elemento de conexão possível.
Por fim, destaca ainda Alberto Xavier que certo é que o princípio da residência não anda necessariamente associado ao princípio da universalidade, já que poderá a lei dispor que também os residentes são tributáveis exclusivamente em função dos
rendimentos de fonte interna, portanto, renunciando tributar rendimentos de origem externa, estabelecendo obrigação limitada para os seus residentes ou certas classes deles.