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Esquema 1 – Proposta de Corografia da Rede de Localidades Centrais na Região Norte

1. TERRITORIALIDADES EM DISPUTA NA REGIÃO NORTE FLUMINENSE

1.2 Territorialidades Fundadoras do Norte Fluminense

À geografia político-administrativa do Norte Fluminense se sobrepõem, portanto, inúmeras relações multiescalares de poder, estabelecidas a partir de diversos agentes sociais que interferem na organização do espaço regional. Aprofundando a linha interpretativa de Henri Léfèbvre (1991), sobre o espaço geográfico como produto e produtor, Souza (1995) e Haesbaert (2004) afirmam que cada agente na sociedade, a participar de suas redes de relações, contribui para compor um mosaico de territorialidades, justapostas e sobrepostas, em constante reconfiguração.

Por territorialidades entendem-se “as relações de poder espacialmente delimitadas e operando sobre um substrato referencial” (SOUZA, 1995, p. 99). Cada grupo, entidade ou agente social se manifesta espacialmente, alterando a dinâmica de relações no espaço geográfico e se deixando influenciar pelas mesmas. Se territorializa e conforma, portanto, sua territorialidade, seja ele uma comunidade local, uma grande ou pequena empresa, uma instituição estatal, uma organização não-governamental, entre tantos outros exemplos. É deste

“campo de forças” (SOUZA, 1995), disputas de poder e conseqüentes modos de apropriação,

que se configuram as dinâmicas em recortes do espaço socialmente inventados. Autores como Souza e Haesbaert desdobram suas concepções de territorialidade sem perder de vista Henri Léfèbvre porque as associam a espaços efetivamente vividos e dinâmicos, não a meras abstrações, por um lado, ou a simples porções do espaço delimitáveis em um mapa, por outro.

As territorialidades guardam, assim, continuidades e descontinuidades no tempo e no espaço. Se materializam, sim, através de ações, mas são bastante mutáveis. Podem ser verificadas e estudadas desde que associadas aos entes que as produzem. Deste modo o Estado, grupos empresariais e a população atuante no mercado de trabalho, em cada setor produtivo, estabelecem territorialidades específicas. Quais seriam, portanto, as mais relevantes territorialidades a compor o espaço geográfico do Norte Fluminense ?

Historicamente, as territorialidades relativas à canavicultura e à produção açucareira foram fundadoras, serviram mesmo de base para incluir cada município no conjunto regional em análise. Em documentos oficiais do governo estadual, as características descritas para a Região Norte Fluminense são as seguintes:

A economia açucareira caracteriza, tradicionalmente, a Região Norte Fluminense. Mais recentemente, a partir da década de 1970, outros dois produtos - o álcool e o petróleo, têm apresentado importância crescente na economia regional, colocando-a, assim, como uma das principais regiões do estado. Contudo, a forma como a agricultura regional tem se desenvolvido vem provocando o êxodo rural. Este quadro relaciona-se à sazonalidade da utilização da força de trabalho na agricultura canavieira, sendo reforçado pela concentração da produção do açúcar e do álcool em grandes usinas e pela mecanização das grandes propriedades. Por outro lado, a não absorção desses fluxos migratórios nas áreas urbanas acentua as elevadas taxas de desemprego e a favelização. A atividade de exploração de petróleo, com base de apoio em Macaé, vem promovendo um crescimento acelerado da malha urbana, com a proliferação de submoradias. (CIDE, 2002, p. 3).

Com exceção da produção de álcool, presente muito discretamente desde os anos 1990, tal descrição ainda carrega grande validade. Trata-se, portanto, de uma das poucas regiões do Estado que apresentam, ainda hoje, significativa quantidade de formas espaciais relativas a uma identidade secularmente constituída, apesar de também ter passado por diversas

transformações sócioespaciais que impedem uma contínua ligação, única e exclusiva, à atividade açucareira 81. À territorialidade deste segmento da economia já se justapunham e sobrepunham diversas outras desde o início do processo de povoamento, no século XVII.

Relativas, por exemplo, à pecuária e ao cultivo da mandioca; ao extrativismo mineral de argila e às olarias, até hoje encontradas na porção sudeste do município de Campos; à pesca na rica rede hidrográfica e no litoral; e, por fim, às atividades comerciais e serviços concentrados dentro dos perímetros urbanos oficialmente delimitados, nascidos como entroncamentos ferroviários (casos de Campos, São Fidélis, Conceição de Macabú e Cardoso Moreira), portos e bases para indústria naval (casos de São João da Barra e Macaé), ou núcleos de povoamento de referência para prósperas fazendas (casos de São Francisco de Itabapoana, Carapebus e Quissamã).

Contudo, ao longo das últimas décadas, o mosaico de territorialidades no Norte Fluminense se tornou muito mais complexo e a “unidade regional” conferida pela outrora generalizada atividade canavieira começou a se diluir. Estas bases produtivas materiais, a compor uma infraestrutura - no dizer de Santos e Silveira (2001), “tecnosfera” - estão intrinsecamente ligadas a aspectos políticos e culturais, em essência imateriais, a compor uma superestrutura – para Santos e Silveira (2001), “psicosfera” - de modo que, como se verá mais adiante, ainda que todo um conjunto de formas e funções de pretéritas origens continue presente, a “visão consolidada” (SAID, 1995) acerca do Norte Fluminense entra em crise, devido à importância adquirida pela atividade petrolífera. As territorialidades dos mais diversos agentes sociais, ligados a diferentes ramos de atividade econômica e cadeias produtivas, entram em disputa e reorganizam o espaço de tal modo, que se projetam novas visões hegemônicas acerca do conjunto regional.

8 A relevante questão da identidade do Norte Fluminense e das demais regiões do Estado fica reservada a momento futuro do processo de pesquisa - um possível doutorado - no qual se pretende empreender uma análise aprofundada de como rural e urbano interferem nas disputas de identidade atribuídas a cada parcela do espaço.

Nesta dissertação, não integra nenhum objetivo específico e será meramente tangenciada em passagens como esta.

Para chegar a tratar, mais adiante, dessas disputas e reconfigurações é preciso, anteriormente, descrever com brevidade o quadro natural e expor mais detidamente o processo de constituição de pretéritas territorialidades.