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O exorcista foi uma obra escrita em 1971, por William Blatty, e lançada no cinema americano no ano de 1990. As temáticas dos espíritos, das possessões demoníacas, e da eterna luta entre o bem e o mal, comumente figurativizada nas histórias de terror, constituem enredos propícios à atmosfera do medo, comercializada nos livros mais vendidos desta configuração discursiva.

Como já aqui citado, a adaptação de obras literárias pela indústria cinematográfica auxilia no crescimento da vendagem da obra original. Com O exorcista ocorre este processo, já que o cinema divulga a narrativa e instiga o telespectador a se tornar um leitor, muitas vezes.

A história se inicia com Chris MacNeil, uma atriz de Georgetown, que morava com sua filha de doze anos, Regan, e seus criados: Sharon, sua secretária, e o casal Karl e Willie, caseiro e empregada da casa, respectivamente. Chris se divorciou de seu marido enquanto sua filha ainda era pequena, e ele não tinha muito contato com a menina.

A narrativa segue sem complicações. Chris era uma atriz de sucesso, em ascensão na carreira, e acabava de receber um convite para dirigir um filme. Regan era uma menina delicada e meiga, que amava sua mãe e os empregados da casa.

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No dia do aniversário de Regan, o pai da menina não lhe telefonou. Com isso, ela ficou muito abatida e triste por uns dias. Chris começava a se preocupar com a filha, que não queria sair do quarto, comer, nem desenvolver suas atividades rotineiras.

Regan começou, então, a se queixar de uns ruídos em seu quarto, como pancadas na parede. Aos poucos, Chris percebia mudanças no comportamento de sua filha: ela urinava e vomitava frequentemente, sem autocontrole, sua cama sacudia sozinha, e os ruídos só aumentavam. A atriz resolveu levar a filha ao médico, Dr. Klein, um famoso neuropsiquiatra.

Regan explicou ao Dr. Klein que Regan tinha convulsões, incluindo momentos de levitação e de agressividade, em que demonstrava grande força. Regan amaldiçoava e blasfemava com uma voz demoníaca do sexo masculino. Regan sofreu, então, uma série de exames médicos. Quando raios-X não mostraram nada fora do normal, o médico informou que Regan deveria ser levada a um neurologista mais especializado em doenças mentais. Enquanto isso, o quadro de Regan piorava.

Quando todas as explicações médicas foram esgotadas, o novo médico, Dr.

David, recomendou um exorcismo, sugerindo que, se os sintomas da Regan eram psicossomáticos, resultados de uma crença na possessão demoníaca.

Numa tarde em que Chris precisava sair, e Karl e Willie estavam de folga, ela deixou a menina, que dormia, aos cuidados de Sharon. Mais tarde, o diretor Burke Dennings chegou para visitar a atriz, e Sharon pediu para que ele a esperasse.

Aproveitou a presença do diretor para ir à farmácia, já que não podia deixar Regan sozinha. Quando ela voltou, no entanto, Dennings estava caído no chão, do lado de fora da casa, morto, com o pescoço virado para trás.

Chris, Karl e Willie chegaram e lamentaram a morte do diretor, o qual julgaram ter cometido suicídio. A atriz, no entanto, percebeu que não seria possível que a queda torcesse seu pescoço daquela maneira, e concluiu que Regan o havia jogado pela janela de seu quarto. Sua preocupação aumentou quando o detetive Kinderman chegou, tempos depois, a sua casa.

O detetive interrogou todos os que moravam na casa de Chris, mas soube superficialmente do problema de Regan, pois Chris lhe escondeu detalhes. Nas investigações, Kinderman começara a suspeitar de Karl, que era um pouco calado e entrou em contradição ao dizer que, na noite da morte de Dennings, teria ido ao cinema, mas disse que o filme fora transmitido normalmente – naquela sessão, houve uma falha técnica e o filme foi interrompido por vinte minutos.

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Desesperada, e com medo de que Regan pudesse sofrer as consequências do assassinato de Dennings, Chris foi buscar Damien Karras, um padre que também era psiquiatra. A mãe de Regan contou a história da filha, mas, a princípio, o padre Karras se mostrou contrário ao ato do exorcismo.

Karras, no entanto, sensibilizou-se com a dor de Chris, que abandonara sua vida, inclusive a proposta de dirigir um filme, para curar a filha. Ao chegar à casa da menina, Karras ficou espantado com a cena que viu: uma garota presa à cama por meio de correntes, de feição desfigurada, que gritava, rugia, e dizia palavras de baixo calão.

Durante um período em que Karras observou Regan, ela se referiu constantemente a si mesma como o Diabo. Karras inicialmente acreditava que ela estivesse apenas sofrendo de psicose, mas começava a perceber que Regan apresentava todos os sintomas de uma possessão.

Para Karras acreditar que era necessário o exorcismo, ainda era preciso um sinal de que a menina realmente estava fora do controle da situação: o discurso em uma língua desconhecida. Insistente, Karras conseguiu gravar o discurso de Regan em uma língua desconhecida, que era o Inglês falado de trás para frente. Karras decidiu pedir permissão da Igreja para realizar um ato de exorcismo.

Após mostrar a gravação da fala de Regan e de contar sua história ao bispo, este concedeu a permissão para exorcizar Regan, mas permitiu que Karras apenas assistisse ao ato, pois quem o conduziria seria Lankester Merrin, um padre experiente no assunto.

Sendo assim, ambos foram à casa de Chris para iniciarem-se os trabalhos de exorcismo.

Enquanto isso, o detetive Kinderman continuava a investigar o caso da morte de Dennings; todos os dias, ele observava a casa de Chris e passou a seguir Karl. Numa noite, ele viu o caseiro entrar em um apartamento escuro, na periferia da cidade. Foi até lá e descobriu que Karl sustentava uma filha e seu namorado, ambos viciados em drogas. A mãe da menina era Willie, mas esta achava que sua filha estava morta; Karl inventou essa história, pois julgava que a mãe iria sofrer muito ao vivenciar o drama de sua filha com as drogas. Karl, então, deixou de ser suspeito do assassinato, já que o mistério que ele escondia, atrás de uma timidez suspeita, era um drama familiar.

O detetive, então, continuou suas investigações e observações sobre quem entrava e saía da casa de Chris. Por julgar muito estranho o pescoço do diretor ter sido encontrado totalmente virado para trás, por conhecer Merrin e saber que ele fazia exorcismos, e depois de ler muito sobre possessões espirituais, o detetive deduziu o caso: tratava-se de um assassinato. No entanto, como se tratava de um crime

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involuntário, já que Regan apenas oferecera seu corpo material para o espírito matar Dennings, Kinderman resolveu arquivar o caso.

Iniciava-se o trabalho de exorcismo. Merrin e Karras tentaram conduzir o espírito de Regan. O demônio ameaçava e provocava os sacerdotes, tanto física como verbalmente. O exorcismo de Regan foi um ato difícil para os padres, pois o espírito que dela se apossava era poderoso e se recusava a libertá-la. A força do espírito que se apossava de Regan foi suficiente para fazer com que Merrin morresse de ataque cardíaco.

Karras, desesperado, tentou realizar o exorcismo sem sucesso, enquanto Regan ria de como Karras tentava salvar o companheiro. Karras atacou Regan e tentou sufocá-la, desafiando o demônio a sair de Regan e entar nele. O demônio, então, faz isso, porém com outra finalidade: matar Karras – o padre se atirou pela janela do quarto de Regan e caiu, permanecendo, no entanto, ainda vivo.

Chegou, então, à casa de Chris, o padre Dyer, amigo de Karras, que administrou os últimos sacramentos, e o sacerdote morreu. Regan recuperou sua saúde e, ao despertar do transe, não se lembrava de nada que havia ocorrido nos últimos tempos.

Chris e a menina partiram de Georgetown em uma viagem de lazer, a fim de se esquecerem dos traumas vividos. A narrativa se encerra.

Classifica-se O exorcista como uma obra da configuração discursiva do terror pelo fato recorrente de um elemento insólito aparecer na ordem real da narrativa, sem haver dúvidas, provocando medo. No início do processo de possessão de Regan, várias foram as tentativas de negar o insólito: Chris achava que os barulhos no quarto da menina eram provocados por ratos no porão, os médicos julgavam que ela sofria de esquizofrenia, depressão, lesões cerebrais, entre outras doenças, o padre Karras julgava que a menina se encontrava naquele estado por auto-sugestão, já que lera um livro de feitiçaria.

No entanto, as tentativas de negação foram sendo excluídas aos poucos, na medida em que cada personagem começava a detectar alterações em Regan que não poderiam ser obra de uma menina de doze anos, como a mudança de feição, de linguagem, de voz e até o cometimento de um crime.

Não há um momento exato na narrativa em que alguma personagem tenha constatado claramente que havia um elemento sobrenaturtal inserido na ordem real fictício, mas as personagens passavam a crer, lentamente, que a menina estava envolvida por um ser maligno. A primeira que constatou a situação foi Chris, pois os

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exames médicos de Regan não mostravam quaisquer alterações e pelo fato de ela conhecer muito bem a menina, desacreditando que ela fosse capaz de tantas atrocidades.

E então, por sugestão de Sharon, foi procurar um padre para realizar o exorcismo de Regan.

O trecho citado acima (BLATTY, 1971, p. 128-9), que mostra a conversa entre Chris e padre Karras, em que a atriz implorava ao sacerdote que realizasse o exorcismo na filha, ilustra que a mãe de Regan estava convencida de que o problema da menina era de ordem espiritual. A passagem a seguir, também referente à conversa entre Chris e Karras, confirma esta afirmação (BLATTY, 1971, p. 128-9):

— E o que é que se faz para se conseguir um exorcismo?

— Perdão, não compreendi.

— Se uma pessoa estiver possessa de algum demônio, o que é que se faz para se conseguir um exorcismo?

(...)

— Bem, padre Karras, acontece que uma pessoa que é muito querida por mim está possuída. Necessita de um exorcismo. O senhor pode fazê-lo?

Fica claro, portanto, que há a constatação de que havia um elemento sobrenatural inserido na ordem real do enredo, que, por meio do corpo físico de Regan, se manifestava. Este elemento provocava medo, como será visto mais adiante.

Como é comum em obras de terror, em O exorcista há uma conotação sexual de caráter muito acentuado. O espírito que se apossou de Regan usava a menina para manifestar cenas e discursos em que o sexo se fazia presente, como mostram os trechos abaixo:

(1) Uma gargalhada parecida com um latido brotou-lhe da garganta. Depois caiu de costas como se alguém a tivesse empurrado. Puxou a camisa de noite para cima, expondo os órgãos genitais. — Venham para a cama comigo! — gritou para os médicos, e começou a passar freneticamente a mão pela vagina.

Momentos depois, Chris saiu do quarto a correr, sufocando um soluço, na altura em que Regan levou os dedos à boca e os lambeu (BLATTY, 1971, p. 69).

(2) — Queres possui-la? – perguntou Regan ao padre. – Desaperta as correias que eu deixo fazê-lo!

— Deixe-me vê-la.

— É muito apetitosa — disse Regan com altivez, passando lentamente a língua pelos lábios rachados, lambendo a saliva (BLATTY, 1971, p. 133).

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(3) (...) e Regan, de pernas levantadas e abertas, numa cama que saltava e sacudia, agarrava o crucifixo de osso com muita força e o enfiava na vagina, ao mesmo tempo em que olhava aquilo cheia de terror, com os olhos esbugalhados e a cara ensaguentada (BLATTY, 1971, p. 132).

Nas obras de Anne Rice, por exemplo, em que os vampiros são descritos com uma beleza divina e amam outros seres, o sexo assume um papel que conota essa nova composição da figura do vampiro, fazendo parte de um cenário de amor, sedução, conflitos emocionais, medo, etc. Em O exorcista, não há este amor entre seres da ordem sobrenatural, mas apenas cenas sem censura em que a sexualidade é fortemente explorada. Neste caso, o sexo ocorre como um afloramento do reprimido, assim como o terror, conforme já aqui citado; a literatura fantástica é o lugar propício para expurgar sentimentos e liberar repressões, e o sexo é uma delas.

Na obra, são citadas as missas negras, rituais de culto ao demônio sobre os quais o padre Karras foi pesquisar. Nesses rituais, fica clara a relação entre terror e sexo, tão comum nas obras desta configuração discursiva (BLATTY, 1971, p. 95):

Karras respirou naquele silêncio ,em seguida pegou numa obra erudita sobre feitiçaria, abrindo-a numa página que tinha marcado com um clipe.

Nela relatava o que era uma missa negra, uma forma de culto ao diabo, em que o ritual consistia principalmente em:

1) exortação (o "sermão") à prática do mal entre a comunidade;

2) cópula com o demônio (considerada dolorosa, sendo o sexo do demônio invariavelmente descrito como "frio como o gelo") e

3) uma série de profanações, na sua maior parte de natureza sexual, na maior mistura entre a simbologia sacra e sacramental e as imagens religiosas como símbolos e práticas ligadas ao erotismo e à vida sexual...

(...) As missas negras aplicam-se às pessoas que não podem ter nenhum prazer sexual a não ser relacionado com um ato blasfemo.

As cenas que desempenham uma conotação sexual nesta obra ressaltam a malevolência e a crueldade do espírito que se apossou de Regan. Todo o cenário construído remete ao grotesco, ao escatológico. Percebe-se que a sexualidade, em O exorcista, não exerce a mesma função que em obras como as de Anne Rice, por exemplo, ou seja, o sexo não é visto como resultado do amor de duas personagens ou como busca de um determinado prazer corporal, mas sim é um ato animalesco,

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selvagem, brutal, o que acentua ainda mais a atmosfera do baixo, impressionando o leitor.

O exorcista é um clássico das obras de terror, já que é um dos pioneiros a tratar dos espíritos e das possessões em literatura de ficção. A obra apresenta um cenário em que o medo é presente em todos os momentos, sobretudo pelo fato de o leitor encontrar nas páginas finais a informação de que a história foi baseada em fatos reais. Não se pode garantir que tal afirmação seja verdadeira, mas é possível afirmar que, ao final da leitura, quando o leitor está envolvido com a trama, e muito provavelmente amedrontado, esta informação pode enfatizar ainda mais medo provocado pela obra, dentro do estímulo à imaginação que a literatura propõe.

O medo, em O exorcista, é sentido tanto pelas personagens quanto pelo leitor.

As passagens abaixo confirmam que a sensação do medo é sentida pelas personagens da ordem real da narrativa e, consequentemente, é transmitida ao leitor:

(4) Chris foi para o seu quarto e deixou-se cair na cama, fatigada; adormeceu quase imediatamente. O som de horríveis gritos histéricos, escutados no limiar da consciência, fez a atriz acordar.

— Mãe, vem cá, vem cá, tenho medo!

— Sim, vou já, está bem, querida, vou já!

Chris correu pelo corredor até ao quarto de Regan. Ouviu gemidos, choro, uns sons como de molas do colchão.

— Oh, meu bebê, que aconteceu? — exclamou Chris ao acender a luz. – Deus Todo-Poderoso!

Regan, deitada de costas, toda retesada, com a cara molhada de lágrimas e contorcida de terror, agarrava-se aos lados da cama estreita.

— Mãe, por que é que a cama está se mexendo? — gritou.

— Faz com que pare!

Oh, tenho medo! Faz com que pare.! Mãe, por favor, faça com que isto pare!

O colchão se mexia violentamente para trás e para frente (BLATTY, 1971, p. 52).

(5) — Os médicos, Chris!

Chris veio imediatamente à porta, com a face contorcida de medo.

— Oh, meu Deus, entrem! — disse, trêmula. — Entrem e veja o que ela está fazendo! (BLATTY, 1971, p. 68).

(6) Karras olhou espantado. Sentiu mãos na nuca, frias de gelo, tocando-o levemente. Depois, desapareceram. Causado pelo medo, concluiu ele. Medo. (BLATTY, 1971, p. 151).

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(7) — Deus no Céu! — murmurou Karl, com medo. Mas Karras não o viu fazer o sinal da cruz quando a parte de trás da cama se levantou, ficando ao mesmo nível da parte da frente. Não pode ser!, pensou ele, observando aquilo, pasmado. (BLATTY, 1971, p. 196).

Essas cenas descritas no livro objetivam chocar o leitor. Percebe-se que a descrição desse cenário, em que uma situação comum da ordem real fictício (o cotidiano de uma menina de doze anos) é perturbada pela presença do sobrenatural, acentua o medo que o texto faz suscitar.

Nestes excertos, percebe-se que as personagens da ordem real temiam a manifestação demoníaca que se apossava de Regan; mesmo o padre Karras, que assistira a outros exorcismos, entregara-se à sensação de medo provocada pela situação.

A forma com que o medo é suscitado e sentido pelo leitor é, como já citado em outras análises, provocada por meio do arranjo discursivo da narrativa, em que se encaixam a ordem sintagmática e a escolha das palavras utilizadas para favorecer o clima de terror no enredo.

O exorcista é uma obra cujos termos são utilizados sem censura, tanto em relação ao medo, quanto à conotação sexual que a obra expressa. Palavras como

“sangue”, “barulhos”, “escuridão”, “feição amaldiçoada”, “demoníaco”, “possuída”,

“gritos de terror”, entre outros, são responsáveis por conferirem à obra a atmosfera sombria de um caso de terror.

Quanto à ordem sintagmática que compõe o discurso de O exorcista, pode-se dizer que o clima de terror vai sendo instaurado gradativamente, pelas descrições detalhadas e pelas palavras selecionadas, que produzem a atmosfera do medo. O excerto abaixo exemplifica como a construção do cenário do terror vai sendo construído de forma gradativa. Nele, são narradas as percepções do padre Karras ao ver Regan pela primeira vez (BLATTY, 1971, pp. 130-1):

Ele sustentou o olhar fixo de Chris e, em seguida, voltou-se para a porta do quarto. Ao pegar na maçaneta da porta, os sons que vinham lá de dentro cessaram de repente. No silêncio sublinhado pelo tiquetaque do relógio, Karras hesitou, depois entrou devagar no quarto, quase recuando ao sentir o cheiro nauseabundo de excrementos baforentos que o atingiu na cara como o sopro de uma explosão.

Refreando rapidamente a repulsa, fechou a porta. Os olhos espantados ficaram, então, presos àquela criatura que era Regan,

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àquele ser que jazia de costas, na cama, de cabeça afundada na almofada, enquanto os olhos, saindo-lhe esbugalhados das órbitas encovadas, brilhavam com argúcia de demente e inteligência febril, com interesse e maldade, ao fixarem os seus; observando-o, atentos, ferventes de cólera, num rosto moldado numa máscara esquálida e medonha de malevolência que subjugava a mente.

Karras passou os olhos pelo cabelo despenteado e densamente emaranhado, pelas pernas e pelos braços definhados, pelo estômago dilatado, sobressaindo grotescamente. Depois voltou aos olhos;

vigiavam-no... cravavam-se nele... desviando-se, então, para lhe seguirem os movimentos quando se dirigiu para uma cadeira da escrivaninha perto da janela.

Como pertence à configuração discursiva do terror, O exorcista tem como fundamentação de base a oposição real vs. sobrenatural; no entanto, como já citado nas outras análises aqui apresentadas, cada enredo, com suas figuras e temas específicos, apresenta uma oposição de base própria. Em O exorcista, pode-se dizer que o que sustenta a narrativa é a oposição bem vs. mal, em que a instância do bem, para os seres da ordem real da narrativa, recebe um valor eufórico, e o mal recebe um valor disfórico.

Todas as personagens envolvidas na história são boas e corretas, inclusive Regan, que é a menina possuída. Contra eles instaura-se a forma mais extrema do mal.

No enredo de O exorcista, há uma mescla do bem com o mal em vários momentos. Regan é a representante principal desta mistura de instâncias que confere ao leitor o efeito de sentido do medo: ela deixou de ser a menina que sempre fora a partir do momento em que foi possuída por um espírito maligno. Assim, ela permanecia com seu corpo, porém transfigurada em um aspecto animalesco, com atitudes e palavriado que não eram dela, devido à possessão.

Regan era, portanto, o objeto da possessão. Uma menina meiga, linda, carinhosa, que de repente transformou-se numa figura perversa, animalesca. Ela é o veículo por meio do qual o mal entra na ordem real fictício, que era bom e sereno, onde as pessoas viviam felizes tranquilamente.

O espiritual, dessa forma, age no material, tomando conta da vida da menina; ao

O espiritual, dessa forma, age no material, tomando conta da vida da menina; ao