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Capítulo 3. – Cavacas de Resende

3.2. As hipóteses de estudo e os resultados possíveis

3.2.3. Teste de hipótese de trabalho: Doce Regional

Para Virgílio Gomes (2013, pp. 211-212), a doçaria regional é aquela que é feita do povo e para o povo, é simples e confecionada para dias festivos ou mercados. Quanto aos produtos, na sua generalidade empregam maior quantidade de farinha do que açúcar, poucos ovos e, por vezes, frutos secos locais. Existem diversas versões destes doces, desde bolos pequenos, bolachas, fritos, bolos para cortar à fatia, até aos doces de colher. Claro que o autor dificilmente conseguiria definir povo, por isso desta afirmação interessa sobretudo reter a noção da proporcionalidade dos ingredientes.

De acordo com Joaquim Caetano Pinto (1982, p. 247), as Cavacas são uma especialidade originária do concelho. Começaram por ser fabricadas sobretudo nos lugares de Invenções e Massas. Em 1982, data da publicação da monografia, diz que são cozidas em S. Gens, mas que não igualam as antigas. Descrevendo as antigas como um pouco menores e muito bem apresentadas, feitas quase exclusivamente de ovos e açúcar. Joaquim Correia Duarte (Duarte, 1994, p. 362), indica que eram fabricadas em Felgueiras, Pimeirol, Vinhós, nas Lages e em Corno. Eram produzidas em casa, assim como outros doces, e levados para vender em feiras, festas e romarias.

Sobre o açúcar na região não encontramos testemunhos diretos que atestem a sua presença de modo continuado e generalizado nos séculos passados. Contudo, considerando a presença de instituições monásticas na região, além do convento e recolhimentos já abordados existia o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, assim como algumas famílias pertencentes à nobreza terá sido provável a existência de açúcar. Quer

como bem alimentar de distinção, quer como na sua utilização enquanto um remédio. Ou seja, temos os dois grupos sociais, clero e nobreza, que podiam ter acesso a este género com maior facilidade que outros grupos sociais, por vezes na forma de tenças de protetores, como a Casa Real. Outra possibilidade seria através das trocas comerciais que sabemos existirem com abundância na região.

Na análise feita por Joaquim Gonçalves Guimarães (2006, pp. 11-12), ao documento Descrição do terreno em redor de Lamego duas léguas [1531-1532] de Rui Fernandes, o autor refere que se existisse açúcar seria uma raridade que Rui Fernandes não deixaria de anotar. Contudo esta afirmação do autor é desmentida pelo próprio quando descreve a doçaria que não abundaria na região, mas dá conta da existência das queijadas de Lamego, feitas à base de leite, ovos, açúcar e massa de trigo. E afirma mesmo que apesar destas não serem referidas no documento de Rui Fernandes, são referidas no foral de 1514 dado por D. Manuel I (Guimarães, 2006, p. 10). Analisando os ingredientes encontramos mencionado o açúcar, por isso achamos pertinente validar a presença do mesmo na região desde os princípios do século XVI.

Mais tarde já para os anos de 1700 a 1840, João Nunes de Oliveira (2002, p. 420), indica que na Beira Alta se faziam diversas trocas comercias de vinho, azeite, frutas, lã, linho, seda e de produtos artesanais para o exterior. E desse exterior recebia-se sal, pescado salgado ou seco e ainda algum fresco, arroz, açúcar, alguns panos, ferro e louças.

Relativamente aos ovos, a primeira referência que encontramos foi a galinhas, no foral medieval de S. Martinho de Mouros datado de 1342, onde é mencionado que os cavaleiros, escudeiros e outros poderosos mandavam arranjar galinhas, e outros animais, e nunca pagavam ou pagavam tarde e mal, a quem os fornecia (Marques, Resende, & Costa, 2014, p. 119). Mais galinhas surgem no foral manuelino de Aregos (1513), onde 6 propriedades pagavam impostos com elas. Por exemplo no lugar de S. Romão, 1 casal de Maria Gonçalves, pagava de pão meado (centeio e milho) 5 alqueires, de castanha pisada 5 alqueires e 1 salamim, e de aves 1 par de galinhas e 1 capão (Marques, Resende, & Costa, 2014, pp. 82-83). Outra menção às galinhas, também foi feita por Rui Fernandes na sua Descrição de Lamego…, onde no título dos farelos, apresenta o valor a cobrar por um par de boas galinhas (34 réis) (Barros A. J., 2012, p. 72).

A primeira referência aos ovos em concreto, encontramos na lista de bens isentos de cobrança de passagem, nos extintos concelhos de Aregos e S. Martinho de Mouros (Marques, Resende, & Costa, 2014, p. 92). Outro registo de ovos que encontramos, data de 2 de fevereiro de 165254, é feito em S. Martinho de Mouros, no tempo do comendador

Frei Manuel Carneiro de Sousa. Surge numa apegação de metade de um casal, onde é indicada a renda que os caseiros devem ao senhorio, sendo ela de uma quarta de trigo, 42 réis em dinheiro, ½ capão, ½ galinha e 2 ovos e meio. Para além deste, muitos outros documentos do mesmo tipo indicam pagamentos em ovos.

No que concerne aos cereais, mais concretamente ao trigo, no foral manuelino de Aregos (1513), refere-se que 9 propriedades faziam o pagamento neste género, no lugar de S. Romão, no Souto de Valdemir (moradores de S. Romão e das Bafueiras), pagavam 140 alqueires de trigo (Marques, Resende, & Costa, 2014, p. 82). No foral manuelino de S. Martinho de Mouros (1513), 17 casais faziam o pagamento em cereais. Como, por exemplo, os 17 casais a que chamam fogueiras, cada um paga, de cereais 2 alqueires de trigo e 3 alqueires de centeio e 4 alqueires de milho ou painço, de castanhas pisadas 4 alqueires, de aves 1 frangão, das partes de animal 1 corazil ou 60 reais, de bragal 6 varas de estopa grossa ou 10 reais por vara, e de afusais de linho (de 12 estrigas cada) 3 (Marques, Resende, & Costa, 2014, p. 84).

Nas Memórias Paroquiais de 1758, o trigo surge mencionado na maioria das freguesias. Em Anreade, “Os fructos que esra terra mais produz ainda que não em muita abundancia (…) são trigo bom, (…)”. Em Barrô, “Dá esta terra trigo (…) mas em pouca cantidade, (…)”. Em Feirão “Os frutos da terra mais uzuais são centeios e trigos munto poucos”. Em Freigil, “Os frutos de maior abundancia que esta terra produz hé (…) trigo, (…)”. Em Miomães, “Os fructos que produz em maior abundancia são (…) trigo, (…)”. Em Ovadas, “São os fructos que produz esta freguezia em maior abundancia (…) trigo, (…)”. Em Paus, “Os fructos que os lavradores colhem em maior quantidade hé milho grosso e excellente trigo.”. Em Resende, “Os fructos que se recolhem nesta terra são em maor abundancia (…) triguo, (…)”. Em S. Cipriano, “Os fructos que preduz a terra desta freguezia são bastante trigo e bom, (…)”. Em S. Martinho de Mouros, “Os moradores

desta terra colhem em maes abundancia trigo, (…)”. Por último, em S. Romão de Aregos, “Os fructos desta terra em maior abundancia hé milho graúdo, taobém dá bastante trigo e bom.”. (Capela & Matos, 2010, pp. 449-468).

Depois deste percurso por documentação que permitisse, para uma determinada data, obter uma visão das produções em Resende, verificamos que pelo menos desde os forais até meados do século XVIII, tanto o trigo, cereal de primeira qualidade e que não crescia em todas as circunstâncias, mas que era tão considerado, como os ovos, estão presentes neste território e são alvo de imposições senhoriais ou de pagamentos de rendas.