3. METODOLOGIA
4.3 Modelo de Gestão de Riscos
4.3.2 Teste de Spearman
Por último, como análise complementar, realizou-se o teste de Spearman, buscando verificar se existe inter-relacionamento entre as variáveis utilizadas no modelo, bem como o nível de significância. Considerando que o risco do contrato foi previamente classificado de acordo com as punições sofridas pela empresa, foi analisada a correlação das demais variáveis em relação à variável número de ocorrências, conforme demonstrado na Tabela 5. Cabe salientar que o número de ocorrências da empresa reflete o histórico de punições (advertência, multa, suspensão temporária de licitar e impedimento de contratar com a administração pública e declaração de inidoneidade)
recebidas em função da inexecução total ou parcial dos contratos administrativos com os órgãos públicos.
Tabela 5: Teste de Spearman
Número de Ocorrências do Fornecedor
Variável Correlação p < 5%
Escolaridade Gestor -0,1249 0,2489
Tempo do Gestor na UFV 0,4639 0,0000 Racionalidade Limitada -0,1996 0,0638 Oportunismo -0,1176 0,2780 Incerteza 0,3065 0,0039 Frequência -0,2497 0,0197 Liquidez Corrente -0,3731 0,0004 Treinamento -0,3026 0,0044 Controle Interno -0,0513 0,6370 Processos Trabalhistas 0,7907 0,0000 Valor do Contrato -0,0743 0,4938
Fonte: Dados da Pesquisa
O teste de Spearman revela que, a um nível de 95% de confiança, apenas as variáveis tempo, processos trabalhistas, liquidez corrente, incerteza, treinamento e frequência demonstraram-se significativas diante do número de ocorrências. Ou seja, essas variáveis foram estatisticamente significativas ao nível de 5%.
Assim, as variáveis significativas tempo, incerteza e processo trabalhista possuem uma relação positiva com o número de ocorrências. A correlação positiva indica o crescimento ou decrescimento concomitante das duas variáveis consideradas. Em outras palavras, quanto mais alto os valores dessas variáveis, mais elas contribuem para o número de ocorrências da empresa prestadora de serviço.
Existente uma relação direta entre a gestão contratual e a aplicação de penalidades pelo órgão ou entidade ao contratado. Conforme expõe Fernandes (2006), embora goze a Administração de prerrogativas especiais no âmbito dos contratos administrativos, ela não pode simplesmente impor sua vontade, aplicando penalidades sem adequada fundamentação, uma vez que tem como dever constitucional legal de zelar pela justiça. Assim, é neste momento que entra em cena a figura do fiscal do contrato, personagem crucial de cujo labor depende, em essência, a caracterização das irregularidades cometidas pelo contratado. Da correta anotação dos livros de contratos, da juntada tempestiva de
informações e documentos comprobatórios das ocorrências, resultará a possibilidade de exercício do poder sancionador pela Administração.
Portanto, acredita-se que quanto mais tempo na instituição, maior a experiência adquirida pelo gestor, que tende a aplicar corretamente as sanções em face às irregularidades cometidas pela empresa prestadora de serviço, justificando assim a relação positiva da variável tempo com o número de ocorrências. Cabe destacar que não é raro casos em órgãos públicos onde o gestor identifica algo errado durante o contrato, mas insiste em conversar com o fornecedor informalmente, sem registrar as punições conforme determinado na legislação. Quando se registra devidamente as irregularidades as intuições estão colaborando com os demais órgãos públicos, alertando-os dos problemas que o fornecedor poderá causar.
Em relação à variável incerteza, o resultado apontado corrobora com a Teoria de Custos de Transação, que afirma que quanto mais incerteza maiores possiblidades de custos de transação, contribuindo para aumentar o risco do contrato. Ou seja, quanto mais incerteza a empresa estiver sujeita, maior a possibilidade de não cumprir com o estabelecido no contrato, e ser punida pelo órgão público. Nesse sentido, Vasiliauskiene e Snieska (2009) afirmam que a incerteza desempenha um papel muito importante nos contratos terceirizados, uma vez que a medida que a incerteza aumenta, os custos de transação e o risco do contrato também crescem.
A correlação positiva da variável de processos trabalhistas com o número de ocorrências, se justifica pelo fato da mesma indicar as falhas que uma empresa pode ter com seus funcionários. Assim, quanto mais processos trabalhistas ela possuir, significa que maiores são as chances de ocorrência de situações inadequadas em relação aos empregados, aumentando as possiblidades de má prestação do serviço dentro do órgão público, gerando um maior número de ocorrências, bem como o risco do contrato. Adicionalmente, empresas que possuem alto volume de processos trabalhistas poderão ter sua capacidade financeira afetada em caso de condenações.
Já as variáveis liquidez corrente, frequência e treinamento, também significativas, possuem uma relação negativa com o número de ocorrências. A correlação negativa indica que o crescimento de uma das variáveis implica, em geral, no decrescimento da outra. Assim, o resultado está de acordo com o esperado, pois quanto maior essas variáveis, indica que a empresa possui condições de executar os contratos sem grandes problemas, eliminando as situações passíveis de punições e redução do risco.
Acredita-se que as variáveis, escolaridade gestor, controle interno e valor do contrato não se mostraram significante para o número de concorrências e risco do contrato
em função dos controles aplicados pela UFV e que se mostraram alto nesta pesquisa. Cabe mencionar que quando os valores dos contratos são altos há mais controles envolvidos, reduzindo as possibilidades de quebra contratual e punições.
Os pressupostos da Teoria de Custos de Transação, racionalidade limita e oportunismo, não demonstraram o resultado esperado, visto que não foram significativas. Ressalta-se que ao ser questionado sobre a presença de tais pressupostos nos contratos, os gestores responderam que não identificaram a presença do oportunismo, ou estava presente em baixo grau, em 51,72% dos contratos. Já para a racionalidade limitada esse percentual é de 48,27%, justificando a não correlação com o número de ocorrências e risco do contrato.