4. METODOLOGIA, DEFINIÇÃO E DESCRIÇÃO DOS CORPORA
4.1 COLETA E SELEÇÃO DOS REGISTROS
4.1.3 Critérios para a seleção dos documentos que compõem os corpora
4.1.3.4 Teste: DSGE/NNS são bons termos de busca?
A estratégia de busca adotada aqui (vide seção 4.1.2) se baseia na ideia, discutida no início do capítulo 2 e corroborada por De Vroey (2016, p. 152-3), de que a maioria dos economistas se refere a essa abordagem utilizando os termos DSGE ou ainda, menos usualmente, NNS, que foi criado por Goodfriend e King (1997) para denominar estes modelos quando eles estavam surgindo. Ocorre, porém, que não foi realizado até agora qualquer tipo de mensuração para verificar se os autores dessa abordagem efetivamente empregam tais termos em seus trabalhos. A presente tese, ao adotar os termos DSGE/NNS como termos de busca, está assumindo tal ideia como verdadeira. Entretanto, é fundamental verificar a sua veracidade, testando se não existem artigos que versam sobre DSGE, mas que tenham sido publicados sem empregar tais termos.
A metodologia para realizar tal teste consistiu em elaborar um terceiro corpus (corpus C) e compara-lo com o corpus A. Esse corpus C foi construído a partir da seguinte suposição: dado que os termos utilizados para elaborar o corpus A são termos sugeridos pelos estudiosos da abordagem e que os artigos que o compõe realmente versam sobre DSGE, é razoável imaginar que os artigos do corpus A citam os principais artigos dessa abordagem, de modo que um artigo que verse sobre a abordagem DSGE, ainda que não empregue nenhum dos termos comumente utilizados para designa-la, deve fazer referência a esses mesmos artigos principais.
Admitindo a validade dessa suposição, para identificar os artigos principais da abordagem DSGE, realizou-se uma análise de cocitação com os dados do corpus A. Tal análise, como será descrito com mais detalhes na subseção 4.2.2.2, consiste em representar graficamente o grau de ligação entre dois ou mais artigos a partir do número de documentos
em que estes artigos são citados simultaneamente, de forma que os artigos mais importantes ficam em evidência na representação gráfica (denominada grafo de cocitação).
Os resultados da análise de cocitação17, apresentados e discutidos mais
amplamente na subseção 5.1.1 do capítulo 5, apontaram a existência de dois pares de artigos centrais para a corrente – ou seja, altamente citados e altamente ligados a muitos outros artigos –, são eles: a) Calvo (1983) e Woodford (2003) e b) Christiano, Eichenbaum e Evans (2005) e Smets, Wouters (2007). Tais artigos, cabe pontuar, também foram apontados como centrais pela história da abordagem, como foi visto no capítulo 2 da presente tese. Entretanto, como a literatura DSGE evoluiu ao longo dos anos, artigos que eventualmente eram centrais inicialmente, deixam de ser na literatura mais recente. Desse modo, como os artigos centrais identificados são muito diversos entre si (por data de publicação, contribuição principal e metodologia empírica utilizada), o critério mais apropriado para montar o corpus C, foi, além de considerar esses dois pares centrais, associar a cada um dos quatro artigos que os compõem outros quatro artigos fortemente ligados a eles –, ou seja, que frequentemente são citados em conjunto com cada um –, permitindo considerar 18 pares de artigos que tendem a caracterizar os modelos DSGE. Esses pares são: 1) Calvo (1983) e Taylor (1993); 2) Calvo (1983) e Erceg, Henderson, Levin (2000); 3) Woodford (2003) e Clarida, Gali, Gertler (1999); 4) Woodford (2003) e Bils, Klenow (2004); 5) Calvo (1983) e Woodford (2003); 6) Calvo (1983) e Clarida, Gali, Gertler (1999); 7) Calvo (1983) e Bils, Klenow (2004); 8) Woodford (2003) e Taylor (1993); 9) Woodford (2003) e Erceg, Henderson, Levin (2000); 10) Christiano, Eichenbaum, Evans (2005) e Smets, Wouters (2003); 11) Christiano, Eichenbaum, Evans (2005) e Schmitt-Grohe, Uribe (2004); 12) Smets, Wouters (2007) e Gali (1999); 13) Smets, Wouters (2007) e Na, Schorfheide (2007); 14) Christiano, Eichenbaum, Evans (2005) e Smets, Wouters (2007); 15) Christiano, Eichenbaum, Evans (2005) e Gali (1999); 16) Christiano, Eichenbaum, Evans (2005) e Na, Schorfheide (2007); 17) Smets, Wouters (2007) e Smets, Wouters (2003); 18) Smets, Wouters (2007) e Schmitt-Grohe, Uribe (2004).18
17 Antes de realizar tal análise, como é habitual na literatura de bibliometria, foi realizado um processo de
padronização das referências fornecidas pela WoS para garantir que um mesmo documento citado de forma diferente por diferentes autores não fosse computado de forma separada.
18 Na presente subseção está sendo descrito apenas o processo de construção dos corpora. Os detalhes do que
é uma análise de cocitação serão vistos nas próximas seções desse capítulo (subseções 4.2.2.2 e seção 4.3). Desse modo, para deixar o texto mais fluido e evitar repetições desnecessárias, optou-se por não representar aqui o grafo dessa análise de cocitação. Tal grafo está representado na Figura 5.1.1 que se encontra na subseção 5.1.1 do capítulo 5, onde é analisado com mais detalhes (com está indicado no início do parágrafo a que esta nota de rodapé se refere).
A partir desses 18 pares foram recuperados os artigos escritos em inglês que citam cada par, dando origem a 18 pequenos corpora, que foram reunidos para formar o corpus C, eliminando os artigos repetidos. O corpus C ficou com 1417 artigos, dos quais apenas 541(38%) fazem parte do corpus A, ou seja, a maior parte dos artigos do corpus C – 876 (62%) – não se encontram no corpus A. Isso poderia ser um indicativo de que os termos DSGE/NNS não são suficientes para recuperar uma parcela considerável da literatura a respeito dos modelos DSGE. Entretanto, antes de fazer tal afirmação foi necessário ler os títulos, resumos e, em alguns casos, consultar os textos completos desses 876 artigos para verificar se eles de fato eram artigos sobre modelos DSGE ou, caso não fossem, se pelo menos citavam em alguma parte do texto os termos DSGE/NNS aludindo aos modelos DSGE marginalmente.19
A Tabela 4.1.3.4a apresenta os principais resultados do teste proposto aqui e uma discussão mais profunda é apresentada na subseção 5.1.2 da presente tese. Observando tal tabela percebe-se que 44% (389 artigos) dos 876 artigos presentes no corpus C, mas ausentes do corpus A, têm alguma relevância para a presente tese por fazerem algum tipo de referência dos modelos DSGE, mas que apenas 15% (133) realmente são sobre esses modelos. Em outras palavras, pode-se dizer que os termos DSGE/NNS são bons termos para recuperar a literatura sobre os modelos DSGE, mas que essa recuperação pode ser melhorada buscando pelos artigos que citam os documentos seminais da abordagem.
Tabela 4.1.3.4a – Assunto principal dos 876 artigos pertencentes a parte do corpus C que não é comum ao corpus A.
Assunto principal Quantidade de documentos % do total
Versa sobre os modelos DSGE 133 15%
Emprega os termos DSGE/NNS, mas não versa sobre os modelos DSGE* 256 29% Não versa sobre os modelos DSGE, nem emprega os termos DSGE/NNS 487 56%
Total 876 100.0%
Fonte: WoS.
Elaborado pelo autor
*Esses artigos empregam os termos DSGE/NNS ao longo do texto, mas não nos metadados. Todos os artigos presentes na coleção principal da WoS que empregam tais termos nos metadados já foram recuperados na busca realizada para formar o corpus principal.
19 Aqui, tal como na subseção 4.1.3.3, considerou-se artigos sobre DSGE todos aqueles que tomavam os
modelos DSGE como objeto de sua análise – seja para desenvolve-los, estima-los, critica-los, defende-los ou mesmo para contar a sua história – e artigos que utilizam os termos DSGE/NSS marginalmente todos os demais artigos que empregam os termos DSGE/NNS para de fato se referir a tais modelos, mas que não fazem desses modelos o objeto de sua análise.
Em temos de construção dos corpora, optou-se por integrar os 133 artigos que versam sobre os modelos DSGE ao corpus A, dando origem ao corpus 1, que contém apenas artigos que versam sobre DSGE (utilizando os termos DSGE/NNS ou não). Ao corpus B além dos 133 foram adicionados também 256 artigos que empregam os termos DSGE/NNS, mas não tem como principal objeto de análise os modelos DSGE, dando origem ao corpus 2. No que segue, a presente tese se vale desses dois corpora para levar a cabo a maior parte das análises bibliométricas a que se propõe: corpus 1 com 1408 artigos sobre DSGE e o corpus 2 com 1962 artigos sobre DSGE ou que mencionam marginalmente esses modelos.