4. EXPERIMENTOS
4.2 Teste 2 Teste de Linguagem ABFW – TESTE DE LINGUAGEM INFANTIL de
ANDRADE et. al.(2000). (teste acessório)
1. Teste de escrita ZORZI(2003)
423 Possíveis Trocadores (PTs)
+ 8 Indivíduos Controle (ICs)
2. ABFW 66 PTs +8 ICs 3. Audiometria 11 PTs +10 ICs 4. PAC 10 PTs +8 ICs 6. Análise Acústica 10 PTs +8 ICs 5. TESTE DE EVOCAÇÃO 10 PTs +8 ICs 7. TESTE DE PERCEPÇÃO 9 PTs +8 ICs
Tese de Doutoramento de Liliane Ramone |Programa de Pós-Graduação em Linguística | Universidade Federal do Rio de Janeiro 64 O teste ABFW é composto por um fichário de figuras que correspondem a palavras contendo fonemas variados em contextos fonéticos diferentes. O teste destina-se às áreas da fonologia, vocabulário, fluência e pragmática e seu princípio é a obtenção de dados objetivos para maior precisão diagnóstica das desordens da linguagem. Neste trabalho foi utilizado com o objetivo de evidenciar possíveis trocas na fala dos participantes.
Participantes
Participaram deste teste 66 crianças. Deste total, 55 crianças foram selecionadas no teste de escrita de Zorzi por apresentarem na escrita, trocas referentes ao traço de sonoridade e 11 que não apresentaram alterações na escrita, porém foram indicadas pelos professores como trocadores na fala. Participaram ainda 8 IC após avaliação e confirmação da não apresentarem trocas na escrita.
Estímulos
Foram utilizadas 34 figuras do fichário da Prova de Fonologia do ABFW. (ANDRADE et al., 2000).
Metodologia
Neste trabalho, foi realizada apenas a prova de Fonologia, uma vez que nosso objetivo era verificar somente a existência de alterações na fala, não envolvendo outros aspectos cognitivos da linguagem.
Os participantes visualizavam as figuras do teste e eram solicitados a nomearem as figuras. A nomeação era registrada em protocolo para anotações. Caso o participante não fosse capaz de nomear alguma figura, a nomeação era feita pela pesquisadora. Após a
Tese de Doutoramento de Liliane Ramone |Programa de Pós-Graduação em Linguística | Universidade Federal do Rio de Janeiro 65 nomeação de uma sequência de aproximadamente 5 figuras, a pesquisadora retomava à figura não nomeada para que o participante a nomeasse. Para melhor entendimento do teste ABFW, pequena parte do fichário de figuras foi ilustrado (Figura 6).
Figura 6: Figuras de teste ABFW. As figuras são apresentadas ao participante que tem a tarefa de nomeação das figuras. Retirada de https://www.google.com.br/search?q=abfw+figuras&safe.
Resultados
Os resultados do teste encontram-se na tabela 2 abaixo. Dos 66 sujeitos avaliados com suspeita de alterações de linguagem, 14 apresentaram alterações somente referente ao traço de sonoridade (como em ‘vaca’ x ‘faca’). Deste total um sujeito apresentou alterações referentes a mais de um traço (sonoridade e ponto de articulação, como em ‘vaca’ x ‘faca’ e ‘calo’ x ‘talo’). Outros quatro sujeitos apresentaram omissão da vibrante /r/ isolada na palavra (‘barata’) ou em grupos consonantais (‘braço’). Do total avaliado, 47 crianças não apresentaram nenhuma alteração de linguagem. Desta forma, foram confirmados com algum tipo de alteração, 28% dos casos, sendo 22% no traço de sonoridade.
Tese de Doutoramento de Liliane Ramone |Programa de Pós-Graduação em Linguística | Universidade Federal do Rio de Janeiro 66 Descrição alteração Participantes
traço sonoridade 14
sonoridade + outras 1
outras alterações 4
sem alterações 47
Tabela 2: Resultado Teste ABFW em 66 participantes. Na primeira coluna o tipo de alteração encontrado e na segunda a quantidade de participantes afetados.
Discussão
A literatura aponta o desvozeamento (alterações no traço de sonoridade) como a manifestação de maior incidência dentre os desvios fonológicos. (LAMPRECHT, 1993; KESKE-SOARES, BLANCO e MOTA, 2004; BACHA, 2004; CRISTOFOLINI, 2008; BRITTO, 2010; DE SOUZA, 2011; MELO et al., 2012; BERTICELL et.al,. 2013).
Esta afirmação pode ser evidenciada nos dados encontrados neste trabalho. No entanto, destacamos a baixa incidência do fenômeno do desvozeamento na população inicialmente selecionada para esta tese. Dos 423 indivíduos na faixa etária de 9-12 anos apenas 3.5% apresentaram o desvozeamento. Ainda que a incidência seja baixa, esses indivíduos merecem atenção especial. O desvozeamento pode fazer parte do processo de aquisição e o indivíduo, ao longo do processo, será capaz de atingir o padrão alvo do falante nativo adulto.
No entanto, alguns sujeitos, mesmo sem apresentarem alterações fisiológicas, não atingem o padrão alvo do falante adulto referente ao traço do vozeamento na faixa etária esperada. Mota (2001) relata que, ainda que os desvios sejam corrigidos ao longo do processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, eles podem deixar sequelas de ordem linguística. Sendo assim, ainda que tais indivíduos estejam em um processo
Tese de Doutoramento de Liliane Ramone |Programa de Pós-Graduação em Linguística | Universidade Federal do Rio de Janeiro 67 transitório de inadequação do traço do vozeamento, um olhar sob seu processo peculiar de produção e percepção da fala pode levar-nos a compreender por que esses indivíduos são nativos entre nativos e minimizar o impacto das inadequações fonológicas na vida diária.
As alterações referentes ao traço de sonoridade podem se manifestar em fonemas oclusivos ou fricativos. O número de ocorrências foi analisado nos sujeitos selecionados e os resultados se encontram na tabela 3.
Modo de articulação Número de ocorrências
Oclusivas 26
Fricativas 28
Tabela 3: Resultado ABFW correlacionando o modo de articulação e número de ocorrências nas alterações referentes ao traço de sonoridade.
Podemos notar na tabela 3 que praticamente não houve diferença entre os resultados de ocorrência de alterações no traço de sonoridade nos fonemas oclusivos e fricativos, nos 15 sujeitos que apresentaram as alterações. Isso significa que o desvozeamento pode ser evidenciado tanto em oclusivas quanto em fricativas, o que justificaria um estudo enfocando o desvozeamento correlacionando tanto oclusivas quanto fricativas. Uma vez que apresentam características acústicas e articulatórias distintas, este estudo apresenta separadamente, os resultados das características acústicas de oclusivas e fricativas.
Conclusão
O teste ABFW foi, sem dúvida, instrumento eficaz para selecionar os participantes deste trabalho, à medida em que apontou alterações de fala no traço de sonoridade. Foram
Tese de Doutoramento de Liliane Ramone |Programa de Pós-Graduação em Linguística | Universidade Federal do Rio de Janeiro 68 encontradas alterações tanto em oclusivas quanto em fricativas e o sentido predominante das trocas foi de vozeada para não vozeada.