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Testemunhas de (in) defesa e a Prova de Justiça

No documento PR WALLAS JEFFERSON DE LIMA (páginas 118-121)

09 de janeiro de 1647. Luís Ferrão retirou-se com Godinho para com ele conversar e preparar sua defesa. Para tanto, ambos analisaram o libelo acusatório361 em que constava o resumo das culpas do réu. Já fazia 65 dias que estava preso nos cárceres do tribunal. Naquele mesmo dia, o réu contestou o libelo acusatório, defendendo-se por meio de três artigos.

Primeiro, destacou seus gestos católicos. Afirmava ser um cristão batizado e que sempre foi temente a Deus, buscando guardar Suas ordens. Confessava e comungava, respeitando os preceitos da "santa fé católica"362. Frisou ainda seu comparecimento assíduo às missas, sublinhando que sua vida sempre foi exemplar.

Segundo artigo. Insistiu que "nunca em tempo algum comunicou com pessoas de ruim fama na matéria das culpas que se lhe imputam de sodomia". Enfatizou que seu trato e conversa eram sempre com "pessoas religiosas e de exemplar vida", o que por si só, era um sinal de que não cometia "o pecado nefando que se lhe imputa"363.

Por fim, reiterou ser natural de Setúbal, onde desde menino vivia no meio de pessoas religiosas. Detalhou sua adolescência, afirmando que se mudou para Lisboa aos quinze anos de idade, mas que continuou tendo os mesmos hábitos que possuía em sua terra natal. A casa do seu pai e os primeiros anos de sua adolescência regressavam, sem dúvida, à memória de Godinho, passando em sua cabeça as brincadeiras da infância, os amigos e a cidade onde nasceu. Também asseverou que viveu no Brasil com "grande honestidade de vida e em grande temor de Deus", e que tudo que se lhe imputavam era "falso e imposto por seus inimigos"364.

Para confirmar que suas alegações tinham fundamento, Luís Gomes Godinho nomeou mais de dez testemunhas de defesa: o padre Francisco Ramos e suas irmãs e

361 “Sabendo o réu ler, se mandará dar o traslado do libelo, para que inteirado do que nele se contem,

possa dar melhor informação ao Procurador, que lhe há de formar sua defesa". Cf. Regimento de 1640, p. 784-785. É importante lembrar que apesar de se retirar diante da presença dos inquisidores, o réu não ficava sozinho com seu advogado. A Inquisição enviava um espião que ficava responsável por ouvir todas as conversas entre Godinho e Luís Ferrão. Esse fato é atestado pelo autor de Notícias recônditas: "E com estas razões despedem o letrado [Procurador] e com elle vai o prezo para outra casa, aonde tambem assiste hum continuo, ou vigia, para que o letrado, e o prezo não possão falar huma palavra de que na meza se não tenha noticia por aquelle continuo, ou vigia, que para isso o mandão. Assenta-se o letrado, e o vigia em suas cadeiras, e o prezo, sem chapéo, em hum tamboretinho (...). Cf. VIEIRA, Antônio. Noticias reconditas do modo de proceder a Inquisição de Portugal com os seus prezos. p. 66. grifos nossos.

362 Cf. ANTT, IL, Proc. 4565, fl. 50v. 363 Cf. ANTT, IL, Proc. 4565, fl. 50v. 364

sobrinho; Maria da Silva, sua irmã; Matias da Silva, filho de sua irmã; Pero Peixoto da Silva Cruz e seu criado "o Costa"; Rui de Mello, criado de D. Álvaro; Catarina de Sousa, moradora da Rua do Carvalho Velho; Luís Gomes Neto, requerente de negócios à tinturaria; João de Sousa, escrivão do estanque do tabaco; Antonio da Silva, esposo de Antônia do Monte365.

No dia 10 de Janeiro de 1647, Godinho solicitou novamente a presença de seu advogado, argumentando que possuía outras testemunhas que poderiam dar "prova de sua defesa". Foram nomeadas, então, as seguintes pessoas: Gaspar Temudo, da calçada do Pe. de Navais; Manoel Pereira, setubalense morador de São Nicolau366; João de Oliveira, escudeiro de Dona Melícia; Luíz Vaz, setubalense morador em Lisboa à rua da Caldeira; Pero Fernandes, sombreireiro ao Anjo; Manoel Fernandes; Antônio Fernandes, padre na Cutilaria; Gonçalo Gonçalves; Domingos de Barros, criado de D. Álvaro Manoel; Jácome da Costa; Rodrigo Saardinha e Antônia da Costa, couveira na Ribeira367.

Depois de pronta, a contestação do libelo foi entregue aos inquisidores naquele mesmo dia. Estava concluída a primeira etapa de sua defesa. O réu, consequentemente, retornou aos cárceres do Tribunal. Agora, era a vez de o Santo Ofício ouvir todos os testemunhos e averiguar se tudo aquilo que Godinho afirmava era verdade368.

Era manhã do dia 30 do mês de março de 1647 quando a Inquisição recebeu Gaspar de Oliveira, de idade de sessenta anos, ao que o inquisidor Pedro de Castilho prontamente se preparou para ouvi-lo. Disse a testemunha que conhecia Luís Gomes Godinho há dois ou três anos, quando o réu ainda morava com Martim Afonso Mariz. Afirmou que já nesse tempo Godinho possuía fama de cometer o "pecado de molícies", sendo que esse mesmo "pecado" teria sido praticado até mesmo com ele. Quando questionado acerca dos três pontos apresentados pelo réu, que questionavam o libelo, simplesmente "disse nada"369.

Na mesma audiência compareceu o senhor Manoel Pereira, marceneiro de idade de vinte e sete anos. Seu testemunho não diferia muito do de Gaspar de Oliveira. Afirmou que conhecia "muito bem" o réu, dado o fato de ele ter também nascido em

365 Cf. ANTT, IL, Proc. 4565, fl. 51, 51v.

366 Era uma das vinte freguesias portuguesas; ocupava o centro da Baixa de Lisboa. 367

Cf. ANTT, IL, Proc. 4565, fl.54.

368 O Santo Ofício só passou a ouvir as testemunhas indicadas por Godinho após as contraditas. Os três

depoimentos (Gaspar de Oliveira, Manoel Pereira e Gaspar Temudo) ocorreram apenas no dia 30 de Março de 1647.

369

Setúbal e também "por haver cometido com ele [Godinho] o pecado de molícies dois anos a esta parte"370. Todavia, diferentemente do testemunho anterior, Manoel Pereira confirmou que Godinho era "um bom cristão", pois o viu por diversas vezes "rezar pelas contas371". Nada mais disse acerca dos outros pontos de defesa do réu.

Naquele mesmo dia, a Inquisição também ouviu o testemunho de Gaspar Temudo, sapateiro de idade de cinquenta e cinco anos e morador da cidade de Lisboa. Disse apenas que conhecia Godinho porque lhe fazia o calçado. Seu testemunho nem ajudou nem atrapalhou a defesa do réu. Fez, de fato, apenas figura de corpo presente. Em relação aos três pontos destacados pelo réu para contradizer o libelo, "disse nada"372. Os depoimentos sucederam-se quase sempre semelhantes, perfeitamente conformes e davam poucos pormenores precisos acerca do comportamento cotidiano de Luís Gomes Godinho; assim, diante daquele universo muito especial criado pelo julgamento, nenhuma das testemunhas se atreveu a dizer algo que de fato favorecesse o réu.

É importante destacar que os amigos, mesmo os fiéis companheiros, embora confraternizassem com Godinho, sentiam impaciência, se não humilhação, por serem convocados para defenderem um homem acusado de alguma prática ilícita. Se tinham alguma palavra ou afirmação que favorecesse a defesa do réu, ela não veio à baila. É razoável supor que muitas das testemunhas se sentiram intimidadas diante dos inquisidores. Na verdade, algumas delas, ao invés de defenderem as afirmações do réu, acabaram por envolvê-lo ainda mais nos tentáculos da Inquisição. Atores ou instigadores do drama do réu, elas fortaleceram ainda mais as acusações do promotor.

Era dia 28 de Janeiro de 1647 quando novamente o Promotor entrou na sala de audiências do Tribunal. Já fazia 84 dias que Godinho encontrava-se alijado pelo Santo Ofício. Os dias passavam e ele sentia que sua situação apenas piorava. O Promotor apresentou à mesa inquisitorial a chamada Prova de Justiça373, peça processual que

370 Cf. ANTT, IL, PROC, 4565, fl. 57.

371 Contas: "O Rosário da Senhora, como também o Terço, e a Coroa, pode-se chamar, rezas, preces,

devoções(...)". Cf. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino. v. 9, p. 257.

372

Cf. ANTT, IL, Proc. 4565, fl. 58, 58v.

373 Cf. ANTT, IL, Pro. 4565, fl. 60, 60v, 61, 61v, 62. "Tal ato processual consistia em trazer ao

conhecimento do réu alguns trechos das declarações prestadas pelos denunciantes e pelas “testemunhas da justiça”, calados os nomes e circunstâncias que pudessem lhe indicar a identidade daqueles que contra ele depunham". Cf. FERNANDES, Alécio Nunes. A construção da verdade jurídica no processo inquisitorial do Santo Ofício português, à luz de seus Regimentos. p.522. Vale ressaltar que antes de ser publicada a Prova de Justiça, os Inquisidores acusaram Godinho de usar de "má consciência" (fólio 60v), dado o fato de não querer confessar suas culpas. Novamente foi admoestado a assim fazer, ao que o réu se negou.

continha as acusações já descritas no libelo, porém, de maneira bem mais detalhista. Eram publicadas caso o réu continuasse a negar as acusações da mesa e/ou se os inquisidores entendessem que ele estava sendo diminuto374. A Inquisição aceitou todas as denúncias do Promotor.

Após ser lida a Prova de Justiça para o réu, ele ainda continuava resistindo. Negou todas as acusações que lhe eram imputadas375. Mas, não por muito tempo, pois Godinho já demonstrava sinais de cansaço. Decerto, passou a entender que poderia passar vários dias, meses ou anos encarcerado se não confessasse logo. Em breve, pensava, poderia sofrer piores torturas do que prisão e coerção psicológica. Godinho passava a entender os métodos da Inquisição: tempo, paciência, medo. Quanto mais interrogatórios e menos confissões, mais o réu sentia que o processo se alongava. A solidão pesava. A prisão trazia incômodos. A vergonha diante da família e dos amigos o entristecia. Sentia insegurança em relação ao seu próprio futuro. Diante de tudo isso, e aparentemente sem amigos que o defendessem, Godinho via-se cada vez mais enredado nos tentáculos do Santo Ofício, de forma que não lhe restava alternativa, senão a de confessar.

No documento PR WALLAS JEFFERSON DE LIMA (páginas 118-121)