A mortalidade da broca-do-café causada pelos óleos vegetais, óleos minerais e ICA apresentou diferenças estatísticas (F7:39 = 6,49; P = 0,0001) (Tabela 2). Os óleos minerais Naturol® e Assist® e os óleos vegetais de canola, milho, soja e girassol apresentaram os menores valores de mortalidade de H. hampei, variando entre 13,6 a 30,3% (Tabela 2). As maiores mortalidades da broca-do-café foram observadas para o ICA e o óleo de mamona, não havendo diferenças entre esses, que causaram 40,8 e 53,7% de mortalidade, respectivamente, na concentração de 3,0% v v-1 (Tabela 2). O extrato da torta de mamona a 3,0% m v-1 não teve ação inseticida sobre a broca-do-café (Tabela 3).
O ICA e o óleo de mamona apresentaram os valores de CL50, 6,71 e 3,49% v v-1, respectivamente, para a broca-do-café (Tabela 2). Apesar de não haver diferença entre os valores de CL50 do ICA e do óleo de mamona, a razão de toxicidade do óleo de mamona em relação ao ICA foi de 1,92 vezes (Tabela 2). A reta de concentração- mortalidade não apresentou diferença quanto ao grau de inclinação para ICA e o óleo de mamona, tendo comportamento semelhante da mortalidade da broca-do- café em função das concentrações dos óleos (Tabela 2).
Tabela 2. Mortalidade corrigida (%) de fêmeas da broca-do-café por óleos vegetais, óleos minerais e pelo inseticida contendo azadiractina a 3,0% v v-1 e concentração letal média (CL50), a 25 ± 1 ºC, UR de 60 ± 10% e fotofase de 12h.
Óleos Mortalidade1 N2 Inclinação ± EP3 CL
50 (IC a 95%)4 (% v/v) RT505 χ2 (GL)6 Naturol® 13,6 ± 2,99 b 75 - - - Assist® 16,0 ± 5,71 b 75 - - - Canola 25,4 ± 5,54 b 75 - - - Milho 26,5 ± 4,10 b 75 - - - Soja 29,0 ± 2,89 b 75 - - - Girassol 30,3 ± 7,46 b 75 - - - ICA7 40,8 ± 5,68 a 574 1,71 ± 0,25 6,71 (5,35 – 8,87) - 4,05 (5) Mamona 53,7 ± 4,68 a 521 1,65 ± 0,33 3,49 (2,65 – 5,52) 1,92 2,08 (4)
1Médias (± EP) seguidas pelas mesmas letras minúscula na coluna, não diferem entre si ao nível de
5% de probabilidade pelo método de agrupamento de Scott-Knott.
2Número de insetos usados no bioensaio.
3Erro-padrão (médias seguidas por mesma letra, na coluna, não diferem entre si pelo erro-padrão).
4Concentração letal (CL50) e intervalo de confiança da CL50 a 95% de probabilidade (IC a 95%)
(médias seguidas por mesma letra, na coluna, não diferem entre si pelo IC a 95%).
5Razão de toxicidade = maior CL50/menor CL50.
6Qui-quadrado e graus de liberdade.
7Inseticida contendo azadiractina (ICA) – Sempre Verde Killer Neem® (SVKN)
No caso dos óleos minerais Naturol® e Assist® e dos óleos vegetais de canola, milho, soja e girassol, a ação desses pode ter sido por recobrimento dos espiráculos do inseto causando asfixia e, consequentemente, a morte. Essa asfixia do inseto devido ao bloqueio dos espiráculos e/ou traqueias tem sido relatada por alguns pesquisadores como o principal modo de ação de óleos minerais e em alguns casos
para óleos vegetais (HALL & HARMAN, 1991; LAW-OGBOMO & EGHAREVBA, 2006; STADLER & BUTELER, 2009; EGWURUBE et al., 2010; BUTELER & STADLER, 2011). Os óleos podem causar também redução na dureza da cutícula, como observado em Anthonomus grandis Boheman (Coleoptera: Curculionidae), induzindo mudanças estruturais (STADLER et al., 2002). Esses autores encontraram uma correlação entre amolecimento da cutícula e toxicidade de óleos, estando esta associada ao aumento da mortalidade.
Tabela 3. Mortalidade corrigida da broca-do-café por derivados da mamona, a 25 ± 1 ºC, UR de 60 ± 10% e fotofase de 12h.
Derivados da mamona Concentração Mortalidade1
Extrato da torta 3,0% m v-1 0,0 ± 0,00 B
Óleo 3,0% v v-1 53,7 ± 4,68 A
1Médias (± EP) seguidas pelas mesmas letras maiúscula na coluna, não diferem entre si ao nível de
5% de probabilidade pelo teste F.
O óleo de mamona pode ser diferenciado físico-quimicamente em relação a outros óleos vegetais, principalmente devido ao elevado teor de ácido ricinoleico e à alta viscosidade (Tabela 1). O óleo de mamona é constituído em 88,04% por ácido ricinoleico, e este apresentou ação sobre a morfofisiologia dos ovários e das glândulas salivares de Rhipicephalus sanguineus (Latreille) (Acari: Ixodidae), evitando dois processos importantes: o de reprodução e o de alimentação (ARNOSTI et al., 2011a, 2011b; SAMPIERI et al., 2013). Para a broca-do-café acredita-se que a mortalidade esteja correlacionada com alta viscosidade do óleo de mamona, pois essa característica confere a esse óleo maior capacidade de cobrir os insetos, bloqueando os espiráculos e/ou traqueias e, consequentemente, causando a morte por asfixia. Para óleos minerais essa característica física está relacionada tanto com a ação inseticida quanto também com fitotoxicidade; no entanto, tais relações ainda não foram descritas para óleos vegetais (STADLER & BUTELER, 2009; NICETIC et al., 2011).
A atividade inseticida do óleo de mamona já foi comprovada para pragas como S. frugiperda, H. zea e P. xylostella (RAMOS-LÓPEZ et al., 2010; BESTETE et al., 2011; RONDELLI et al., 2011; TOUNOU et al., 2011). Entretanto, para a broca-do- café apenas o extrato de folhas verdes (2,2 g L-1 de água fervida) foi avaliado,
apresentando redução no número de indivíduos por amostra analisada após 72 horas da aplicação (PÉREZ et al., 2012). Para o óleo de nim (Dalneem®; 0,1% v v-1 de azadiractina; Empresa: Dalneem Brasil, Itajaí, SC) observou-se redução do número de grãos brocados por H. hampei devido à mortalidade e repelência (DEPIERI & MARTINEZ, 2010). Os autores encontraram até 88,3% de mortalidade quando fêmeas de H. hampei e os grãos de café foram pulverizados com uma solução aquosa de óleo emulsionável de nim a 1% v v-1. Constataram também que o número de grãos brocados foi menor quando aplicado o óleo de nim (13,8%) comparado à testemunha (64,6%).
O ICA e o óleo de mamona apresentaram valores de CL50 mais baixos para outras pragas quando comparados à broca-do-café. Tal fato pode ser observado para adultos de Rhizopertha dominica (F.) (Coleoptera: Bostrychidae) em que o produto NeemAzal® - T/S (Ingrediente ativo: Azadiractina (1%); Empresa: Trifolio - GMBH Company, Lahn-Dill-Kreis, Alemanha) apresentou uma CL50 de 148 ppm (0,015%) após 7 dias (EL-LAKWAH et. al., 2011) e para adultos de Prostephanus truncatus Horn (Coleoptera: Bostrichidae), onde o extrato de folhas de nim obtido em éter de petróleo apresentou uma CL50 de 0,040% após 5 dias (MUKANGA et al., 2010). Com relação ao óleo de mamona, a CL50 para lagartas de S. frugiperda foi de 4,83 x 103 ppm (0,483%), valor 7,22 vezes menor que o apresentado neste trabalho para H. hampei (RAMOS-LÓPEZ et al., 2010).
3.3.3 Poder residual do óleo de mamona
Os resultados apresentaram interação entre os fatores concentração do óleo de mamona e dias após a aplicação sobre a mortalidade da broca-do-café (F25:179 = 2,22; P = 0,0018) (Figura 2, Figura 3).
Analisando a mortalidade de H. hampei em função das concentrações do óleo de mamona, observou-se que para a mortalidade da broca-do-café liberadas 0, 1, 3, 4 e 5 dias após a aplicação do óleo de mamona ajustou-se ao modelo linear (R2 = 74,87% e P = 0,0260; R2 = 76,22% e P = 0,0232; R2 = 79,42% e P = 0,0171; R2 = 80,23% e P = 0,0158; R2 = 83,00% e P = 0,0115, respectivamente), ou seja, há um
aumento da mortalidade em função do aumento da concentração do óleo de mamona (Figura 2). No entanto, para inoculação após 2 dias a mortalidade de H. hampei manteve-se constante em função das concentrações, com média de 10,83% de mortalidade (Figura 2). Essa tendência de aumento da mortalidade em função do aumento das concentrações também foi verificada quando se utilizou extrato acetônicos de folhas de Piper hispidum (Piperaceae) (25 mg mL-1) para o controle da broca-do-café (SANTOS et al., 2010).
0 dia após a aplicação
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 0 20 40 60 80 100 Y = -2,78+ 9,26X [R2 = 74,87%; P = 0,0260]
1 dia após a aplicação
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 0 20 40 60 80 100 Y = -1,06 + 7,41X [R2 = 76,22; P = 0,0232]
2 dias após a aplicação
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 M o rt al id ad e (% ) 0 20 40 60 80 100 Y = 10,83ns
3 dias após a aplicação
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 0 20 40 60 80 100 Y = -0,29 + 3,44X [R2 = 79,42%; P = 0,0171]
4 dias após a aplicação
Concentração do óleo de mamona (%)
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 0 20 40 60 80 100 Y = -3,97 + 6,37X [R2 = 80,23%; P = 0,0158]
5 dias após a aplicação
Concentração do óleo de mamona (%)
0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 0 20 40 60 80 100 Mortalidade observada Mortalidade estimada Y = -1,92+ 4,26X [R2 = 83,00%; P = 0,0115]
Figura 2. Efeito residual do óleo de mamona sobre a broca-do-café, dias após a aplicação em função
0,5% de óleo de mamona 0 1 2 3 4 5 0 20 40 60 80 100 Y = 3,35ns 1,0% de óleo de mamona 0 1 2 3 4 5 0 20 40 60 80 100 Y = 9,70 - 1,91X [R2 = 85,85%; P = 0,0079] 1,5% de óleo de mamona 0 1 2 3 4 5 M o rt al id ad e (% ) 0 20 40 60 80 100 Y = 9,74 - 1,61X [R2 = 82,74%; P = 0,0119] 2,0% de óleo de mamona 0 1 2 3 4 5 0 20 40 60 80 100 Y = 8,81ns 3,0% de óleo de mamona
Dias após a aplicação
0 1 2 3 4 5 0 20 40 60 80 100 Y = 31,50 - 4,39X [R2 = 86,89%; P = 0,0067] 2,5% de óleo de mamona
Dias após a aplicação
0 1 2 3 4 5 0 20 40 60 80 100 Mortalidade observada Mortalidade estimada Y = 11,28ns
Figura 3. Efeito residual do óleo de mamona sobre a broca-do-café, concentração em função dos
dias após a aplicação, a 25 ± 1 ºC, UR de 60 ± 10% e fotofase de 12h.
A mortalidade da broca-do-café causada pelo residual do óleo de mamona para a concentração de 0,5, 2,0 e 2,5% v v-1 não se ajustou a nenhum modelo, mantendo- se constante ao longo do tempo, com média de 3,35, 8,81 e 11,28% de mortalidade, respectivamente (Figura 3). Entretanto, para as concentrações de 1,0, 1,5 e 3,0% v v-1 a mortalidade de H. hampei ao longo do tempo apresentada pelo residual do óleo
de mamona ajustou-se ao modelo linear (R2 = 85,85% e P = 0,0079; R2 = 82,74% e P = 0,0119; R2 = 86,89% e P = 0,0067, respectivamente), ou seja, há uma redução da mortalidade em função do tempo (Figura 3). Tal fato implica numa perda da ação inseticida do óleo de mamona com o decorrer do tempo, aliada também a uma baixa mortalidade devido à ação indireta do óleo. Esse está presente no ambiente, mas não em quantidade suficiente para provocar alta mortalidade da broca-do-café comparado a quando se faz aplicação direta sobre a praga (Tabela 2).
O conhecimento da persistência dos inseticidas botânicos no ambiente é de extrema relevância, pois a broca-do-café permanece praticamente todo seu ciclo de vida dentro do fruto do café, o que a torna uma praga de difícil controle (VEGA et al., 2014). Assim, para que uma molécula inseticida atinja as fêmeas da broca-do-café é necessário que deixem os frutos, o que normalmente ocorre de setembro a dezembro, período de trânsito da broca, quando essa sai à procura de alimento (DAMON, 2000).
Assim como no presente trabalho, os efeitos residuais do óleo de mamona revelaram significativa diminuição na mortalidade larval de P. xylostella com o tempo entre a aplicação e a liberação de insetos (TOUNOU et al., 2011). Esses fatos podem estar relacionados com a baixa persistência do óleo de mamona, necessitando de pesquisas que visem melhorar tal característica. Em comparação com os inseticidas químicos sintéticos, inseticidas botânicos são relativamente instáveis e a degradação é, consideravelmente, mais rápida quando expostos a elementos, tais como a luz, a temperatura e o ar (GANGWAR, 2012; RADWAN & EL-SHIEKH, 2012; TUREK & STINTZING, 2013). Uma vez que os compostos químicos da planta tenham sido removidos do compartimento de proteção como resultado de métodos de extração destrutivos, os componentes estarão sujeitos a danos oxidativos, transformações químicas e/ou reações de polimerização (MIRESMAILLI & ISMAN, 2014). Além disso, com idade os extratos de plantas podem perder qualidade de alguns de seus atributos, tais como odor, sabor, cor e consistência (TUREK & STINTZING, 2013). A diversidade de composição dos extratos botânicos e a instabilidade dos constituintes podem tornar os inseticidas botânicos inadequados para aplicações, principalmente quando se deseja efeitos residuais durante longos períodos de tempo (GANGWAR, 2014; MIRESMAILLI & ISMAN, 2014). Deste modo, principalmente no caso da broca-do-café, que
apresenta hábito críptico, estudos sobre o poder residual de inseticidas botânicos é um fator importante para que se tenha sucesso no manejo dessa praga com produtos oriundos de plantas.
3.4 CONCLUSÃO
- O ICA e o óleo de mamona causaram as maiores mortalidades da broca-do-café. - O extrato da torta da semente de mamona não apresentou toxicidade sobre H. hampei.
- O óleo de mamona apresentou baixa persistência no ambiente.
- A partir dos resultados obtidos constata-se que o óleo de mamona causa mortalidade da broca-do-café, provavelmente devido ao bloqueio dos espiráculos, impedindo a respiração desse inseto.
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4 CAPÍTULO IV
COMPATIBILIDADE IN VIVO ENTRE Beauveria bassiana (BALS.) VUILLEMIN E ÓLEO DE MAMONA SOBRE Hypothenemus hampei (FERRARI)
RESUMO
Estudos do grau de compatibilidade in vivo entre o fungo entomopatogênico Beauveria bassiana (Bals.) Vuillemin (Ascomycota: Hypocreales) e o óleo de mamona são importantes na preservação deste entomopatógeno e, consequentemente, na manutenção do equilíbrio ambiental dentro do sistema agrícola. Desta forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar a compatibilidade in vivo entre o óleo de mamona e B. bassiana sobre a broca-do-café. Foi utilizado o isolado CCA-UFES/Bb-4 de B. bassiana nas concentrações de 0,0 (controle), 1 x 104, 1 x 105, 1 x 106 e 1 x 107 conídios mL-1. As concentrações do óleo de mamona foram as seguintes: 0,0 (controle), 0,5, 1,0, 1,5, 2,0, 2,5 e 3,0% v v-1. Foram avaliadas as mortalidades total e confirmada e os dados submetidos à análise de variância. Para verificar o efeito das concentrações de B. bassiana e das concentrações do óleo de mamona, foram submetidos à análise de regressão, ao nível de 5% de probabilidade. Óleo de mamona apresentou efeito antagônico sobre B. bassiana reduzindo a mortalidade da broca-do-café. Houve redução da mortalidade de H. hampei causada pela interação entre B. bassiana e o óleo de mamona, em função do aumento da concentração do óleo de mamona. Para concentrações mais elevadas de B. bassiana observou-se menor interferência do óleo de mamona.