3 PESQUISA EXPERIMENTAL
3.4 Instrumentos, procedimentos de testagem e de tratamento dos dados
3.4.3 Testes para verificação da memória e funções executivas
3.4.3.2 Testes de funções executivas
As funções executivas são mecanismos guiados por objetivos gerais que modulam a operação de diversos subprocessos cognitivos e com isso regulam a dinâmica da cognição humana. As expressões "funções executivas" e "funções do lóbulo frontal" são muitas vezes usadas como sinônimas. Entretanto, como apontado por Baddeley (1996), as expressões referem-se a aspectos distintos, já que a primeira considera os aspectos funcionais do executivo central, enquanto a segunda expressão considera sua possível localização anatômica. Ainda segundo Baddeley, a expressão “funções do lóbulo frontal" parece pouco útil, já que o lóbulo frontal é uma área cerebral muito grande, responsável por outras funções além daquelas atribuídas ao executivo central. Miyake et al. (2000) lembra ainda que há divergências de localização anatômica apontadas em pacientes com lesões no lóbulo frontal.
As funções executivas são consideradas um processo cognitivo top-down exigido, quando não é suficiente contar apenas com comportamentos automatizados.
Neste estudo, investigamos dois processos cognitivos que constituem o núcleo das funções executivas: inibição de respostas preponderantes (supressão controlada das respostas automatizadas e de distratores) e monitoramento e atualização das representações na memória de trabalho (armazenamento de curto prazo e ativa manipulação da informação). Cada um desses processos foi investigado por meio de tarefas específicas, descritas a seguir. É importante destacar, entretanto, que ainda que cada uma das tarefas enfoque uma das funções executivas, não se tem a pretensão de propor tarefas “puras”, que meçam uma função executiva de forma isolada. Todos os participantes da pesquisa (120 sujeitos) realizaram os testes que serão descritos na sequência.
3.4.3.2.1 Atualização e controle das representações verbais na memória de trabalho (MT)
A função de atualização consiste em modificar (atualizar) continuamente o conteúdo da memória de acordo com o input (entrada) de novas informações. O objetivo do Teste de atualização e controle das representações verbais na memória de trabalho (APÊNDICE Q), adaptado de Mengarda (2004; ver ainda DANEMAN;
CARPENTER, 1980), utilizado nesta pesquisa, é acessar a atualização e o
monitoramento das representações na memória de trabalho, e ao mesmo tempo avaliar o span verbal da memória de trabalho de crianças, antes e durante a alfabetização. O material consiste em uma sequência de frases lida pela pesquisadora (7 sequências de 3, 4 e 5 frases) as quais o participante deve repetir na mesma ordem apenas a última palavra de cada frase, no caso deste teste um número de 1 a 5 (GABRIEL, 2014).
Começou-se pelos exemplos, que foram sequências de duas frases. Depois, passou-se às sequências de três frases. Se o participante acertou 4 das 7 (4/7) sequências de três frases, passou-se às sequências de quatro frases. Para as sequências de quatro frases utilizou-se o mesmo princípio, e assim sucessivamente.
A pesquisadora deu as seguintes instruções: “Esse é um jogo de memória. A gente vai ver quantas palavras tu consegues guardar na memória. Eu vou dizer umas frases que terminam com um número e tu precisas ouvir com atenção e guardar os números na ordem em que eu tiver dito. O número vai ser sempre a última palavra de cada frase e tu precisas dizer só os números na mesma ordem em que foram apresentados. Espera ouvir toda a sequência de frases para depois repetir. Por exemplo, se eu disser: 'Meia dúzia são seis; Os dias da semana são sete’, a resposta vai ser? Seis – sete. Isso mesmo."
Outros exemplos para treino: a) O aniversário da Ana é dia nove. Os dias da semana são sete. Resposta: nove – sete. b) As patas do gato são quatro. Mãe só tem uma. Resposta: quatro - uma
O teste é composto por sequências de 3 a 5 frases, cuja última palavra (sempre um número) deve ser repetida na ordem correta ao final da sequência. Considerando que para cada número de frases (palavras a serem repetidas), há 7 sequências, temos um total de 21 sequências. Computamos cada sequência reproduzida corretamente como 1, ao passo que as incorretas foram computadas como zero. Assim, o escore máximo possível por participante é 21.
O teste foi realizado individualmente em uma sala silenciosa, a sessão foi gravada em áudio para posterior conferência e a íntegra das frases usadas nesta tarefa está disponível no APÊNDICE Q.
3.4.3.2.2 Teste de controle inibitório: Stroop Task
J. Ridley Stroop (1935), interessado em investigar o efeito da interferência ou inibição, criou uma tarefa para medir o tempo de resposta necessário para ler os nomes das cores comparado ao tempo para nomear as cores elas mesmas. A fim de avaliar o possível efeito de interferência, Stroop manipulou as cores do estímulo, apresentando, por exemplo, a cor vermelha escrita com tinta azul. Essa manipulação aumentou o tempo de reação na leitura de palavras causada pela presença conflitante da cor incongruente com o significado da palavra lida. Ao realizar a tarefa, o leitor precisa inibir um estímulo (a cor) e concentrar-se apenas na leitura das palavras.
O Teste de inibição Stroop Task - Tarefa Stroop - utilizado nesta pesquisa é uma adaptação da tarefa clássica de J. Ridley Stroop (1935). A tarefa utilizada nesta pesquisa não usa palavras, mas sim números, por isso é chamada de Counting Stroop. Como na tarefa original, ela tem o objetivo de avaliar o controle inibitório deliberado dos participantes em respostas dominantes, pois é necessário inibir o significado do número e concentrar-se apenas no número de aparições do numeral ou de outro objeto na tela (ALBRECHT et al, 2008). Por outro lado, nesta pesquisa a tarefa foi aplicada com crianças em fase anterior e inicial de alfabetização, portanto a associação entre o número e a quantidade por ele representada talvez ainda não esteja automatizada.
No teste Stroop Task utilizou-se uma versão computadorizada desenvolvida para Macintosh. As variáveis medidas foram o tempo de resposta e o número de erros (medidas pelo próprio programa computadorizado). A tarefa começou com as seguintes instruções dadas pela pesquisadora ao participante. “Nós vamos fazer um jogo de atenção no computador. Funciona assim: Em cada aparição na tela, você vai ver um, dois, três ou quatro sinais. Podem ser números ou outros desenhos. Mas atenção, o que eu quero pedir a você é que, para cada aparição de números ou outros desenhos na tela, você indique, o mais rápido que puder e sem se enganar, quantos números ou desenhos apareceram. Não importa qual é o número ou desenho que aparece. O que conta é o número de vezes que eleaparece. Portanto, é só contar o número de sinais, itens, objetos. E você vai ouvir ao mesmo tempo uma voz falando um número. Se esse número corresponde ao número de sinais, você aperta essa tecla aqui (Q ou A); se a voz falou errado e o número que falou não corresponde ao número de sinais, você aperta essa outra tecla aqui ( ; :). Vamos treinar? Não esqueça de só
prestar atenção ao número de vezes que um número ou desenho aparece, pouco importa o que ele é, e de que você deve responder o mais rápido possível.”
As teclas indicadas para serem pressionadas no caso de respostas certas ou erradas foram marcadas no teclado com papéis autocolantes vermelho (não corresponde) e verde (corresponde). Foram realizados 40 ensaios de treino, com feedback verbal da pesquisadora, entretanto, durante a sessão de coleta de dados, não houve feedback da pesquisadora.
O teste apresentou três blocos, contrabalançados aleatoriamente entre sujeitos (controle computadorizado, dentro da programação da tarefa). No bloco congruente, o número de itens equivale ao número que aparece na tela e à palavra ouvida (2 2);
no bloco incongruente, o número de itens é diferente do número que aparece na tela e da palavra ouvida (1 1 1); no bloco neutro, aparece um símbolo neutro, por exemplo
&&&, e a palavra ouvida é “3”.
A computação dos dados, ou seja, o tempo de resposta e o número de erros por participante foi efetuada pelo próprio programa computadorizado.
Portanto, aplicamos 7 testes para identificação dos conhecimentos em leitura, 4 testes para verificação da memória e 2 testes para verificação das funções executivas. Na seção a seguir, apresentaremos os resultados obtidos.