OS PRINCÍPIOS OPERADORES DA COMPLEXIDADE
2.7 O Tetragrama Operacional da Complexidade
“Ordem e Progresso”, diz o lema da bandeira Nacional. Positivista e Republicano, o lema exprime dois conceitos máximos , representantes daquele pensamento e do que ele propunha.
Estudamos no primeiro capítulo o papel da “Ordem” na ciência positiva. Pois Edgar Morin em sua Teoria da Complexidade não deixou de examinar este elemento fundamental da ciência clássica, que em muito se confunde com um modelo positivista de ciência.
Morin dedica muitas obras para discutir a relação entre Ordem e, seu termo contrário nêmesis, Desordem. Em todas elas Morin afirma que há uma indisociabilidade entre Ordem e Desordem. À primeira vista isso nos parece difícil de compreender, mas Morin demonstra com paciência, examinando a semântica de cada termo, que não pode haver uma Ordem que descarte a Desordem.
Morin afirma que o próprio Universo é uma prova da relação Ordem – Desordem. O Universo se organiza, desintegrando-se. Primeiro nos parece caótico em sua alocação de astros, para depois parecer ordinário numa suposta eternidade que se vê, por sua vez, questionada pela teoria da expansão e desintegração de astros e sistemas planetários.
É possível, ainda, vermos a relação Ordem – Desordem se alternando no mundo natural (reprodução celular e morte) assim como no mundo histórico social. Um exemplo deste último seria a confrontação histórica entre os anseios humanos de paz comercial e de guerra e destruição. Poderíamos citar a Pax Romana, na antiguidade, e as invasões bárbaras que destruíram conhecimentos de arquitetura e urbanismo ainda hoje perdidos.
O problema proposto por Morin é estritamente dialógico. A relação Ordem – Desordem está em nossa compreensão, e Edgar Morin propõe que, para superarmos a negação desse antagonismo necessário e complementar, temos que nos incluir na nossa visão de mundo, pois somos também elementos de junção da Ordem – Desordem.
71 Para seguirmos, precisamos descobrir o que Edgar Morin entende por Ordem e Desordem. Iniciando pelo primeiro, Morin associa Ordem à determinação e coação. (Ora coação é um elemento jurídico e desejamos retomar este debate no próximo capítulo, pois a coação é o que dá eficácia à norma jurídica e, no entendimento de Ordem Moriniano, a qualquer lei que se pretenda universal.
(...) As organizações produzem ordem, sendo co-produzidas por princípios de ordem e isso é verdadeiro para tudo aquilo que é organizado no universo: núcleos, átomos, estrelas, seres vivos. São organizações específicas que produzem sua constância, sua regularidade, sua estabilidade, suas qualidades etc. (MORIN, 1998, p.198)
Ainda associados a ordem, seja eventual ou diversamente, lidamos com o conceito de estabilidade, constância, regularidade, repetição, chegando à idéia de estrutura e ao conceito de que a ordem é muito mais do que lei. É o que Morin chama de “ordem enriquecida”.”A idéia enriquecida de ordem demanda o diálogo com a idéia de desordem; foi efetivamente o que se passou com o desenvolvimento de estatísticas e dos diversos métodos de cálculo que levam em conta a aleatoriedade” ( MORIN, 1998, p. 199 )
Aplicando a Teoria da Complexidade, Morin fala em uma Ordem que seja Complexa. Isto se dá pela existência de várias formas de Ordem e ao fato da Ordem não se opor às singularidades. A própria Universalidade da Ordem é uma singularidade, pois nosso universo tem nascimento e desenvolvimento singulares (até chegamos a chamar de singulares as coações próprias da Ordem do universo).
Ainda defendendo uma Ordem Complexa, Morin cita a Ordem singular dos seres vivos que é produtora de singularidades. A singularidade de um sistema é a estrutura que o organiza. Assim temos que a Ordem demanda a Organização. A própria idéia de “sistema” está ligada à de organização.
A organização e a Ordem possuem entre elas a noção de estrutura, mas não podemos reduzir uma à outra, embora devamos compreender que a organização
comporta e produz a Ordem. “Uma organização constitui e mantém um conjunto ou “todo” não redutível às partes, porque dispõe de qualidades emergentes e de coações próprias, e comporta retroações e qualidades emergentes do “todo” sobre as partes” (MORIN, 2000, p 198)
Percebemos que estamos lidando com os princípios operadores da complexidade, ora dialógico – na compreensão da interação Ordem – Desordem – ora hologramático quando buscamos a relação entre o todo e as partes no sistema organizacional. Por isso Morin já não apenas chama a Ordem de Ordem, mas de Ordem Complexa, pois vista por uma nova lógica.
A organização, por sua vez, pode estabelecer sua própria constância, organizações ativas, das máquinas, das auto-organizações e, enfim, dos seres vivos. Podem estabelecer sua própria regulação e produzir suas estabilidades. Melhor nos ensina Morin:
(...) as organizações produzem ordem, sendo co-produzidas por princípios de ordem, e isso é verdadeiro para tudo aquilo que é organizado no universo: núcleos, átomos, estrelas, seres vivos. São organizações específicas que produzem sua constância, sua regularidade, sua estabilidade, suas qualidades etc. Assim a idéia enriquecida de ordem não só não dissolve a idéia de organização, mas também nos convida a reconhecê-la. (MORIN, 2000, p 199)
Mas a organização também se comunica com a Desordem. Investiguemos o que Morin compreende por Desordem e como começamos a fechar um modelo de tetragrama entre Ordem, Organização, Desordem e Interação.
A primeira coisa que precisamos entender sobre Desordem é que ela não é o acaso, somente. A Desordem é mais que o acaso, mas comporta o conceito de acaso. Morin considera a Desordem um conceito mais rico do que o conceito de Ordem, pois na desordem encontramos dois pólos: Um estritamente objetivo e mais fácil de delimitar, outro subjetivo que exige um olhar complexo.
73 O pólo objetivo da Desordem se comunica com as noções de agitação, dispersões, colisões, irregularidades e as instabilidades. Também os desvios que aparecem num processo, que o perturbam e transformam, assim como os choques aleatórios, acontecimentos, acidentes, desintegrações, desvios e erros.
Já pelo pólo subjetivo da Desordem, Morin afirma que há uma relação com a indeterminabilidade do espírito. Há aqui uma ponte muito estreita entre o conceito de Desordem e o de Incerteza que observamos ainda neste capítulo. De modo ilustrativo Morin cita que a Desordem se mostra na energia (especificamente no calor ), na realidade subatômica (no já citado problema da imprecisão de Heisenberg) e na própria teoria da origem acidental do Universo.
O conflito clássico e lógico entre ordem e desordem, se dilui quando observamos a interação complexa, entenda-se dialógica, entre estes dois conceitos. Nos diz Morin:
(...) a maneira clássica de exorcizar o acaso ou a desordem: é defini-lo como encontro de séries deterministas interdependentes. O próprio fato do encontro, entretanto, supõe um meio com caracteres aleatórios; constitui, por isso, um fato de desordem para as séries deterministas afetadas e nelas podem provocar desordens e perturbações. ( MORIN, 1998 p 200 )
Não podemos saber se as incertezas provocadas pelos fenômenos que nos parecem aleatórios resultam da insuficiência de recursos, ou de meios do espírito humano, que nos impede de encontrar a ordem oculta na desordem aparente. Mas podemos perceber que estes conceitos dialogam muito mais do que aparentemente negando um ao outro.
Morin denomina de tetragrama o modelo de inteligibilidade que nos possibilita , de modo dialógico e recursivo, associar Ordem, Organização, Desordem e Interação como elementos de um mesmo real, que se completam, se permitem e são interdependentes entre si.
Este tetragrama permite-nos conceber que a ordem do universo se autoproduz ao mesmo tempo em que este universo se autoproduz, por meio das interações físicas que produzem organização, mas também desordem. Esse tetragrama é necessário para conceber as morfogêneses, porque foi nas turbulências e na
diáspora que se constituíram as partículas, os núcleos e os astro; (MORIN 2000, p 2004 )
Em nosso ensejo de apresentar os princípios e conceitos da Complexidade, para a posteriori confrontá-los com o fundamento positivista do ensino do Direito, não poderíamos deixar de apresentar, mesmo que em linhas breves, como o vital conceito positivista, o de Ordem, se apresenta, em uma complexa noção, uma abstração que envolve , inclusive, seu oposto: a Desordem.
Neste resumo do pensamento complexo, só nos resta entender o conceito de homem e como ele se comunica com todos os demais conceitos que abordamos até então.