3.3 Discussão oral e escrita dos textos propostos
3.3.2 Texto 2
O segundo texto distribuído aos nossos entrevistados foi o texto Eso (Mario Benedetti) e, na sequência, distribuímos também o terceiro texto (La salvación, Adolfo Bioy Casares). O procedimento foi de forma semelhante ao aplicado ao primeiro texto, no entanto, nesta segunda abordagem, os alunos tiveram que responder um único questionário escrito, pois nosso objetivo era também verificar se houve comparação entre os dois textos.
As observações quanto aos procedimentos de leitura já estão descritas no início deste capítulo, de modo que partiremos direto para análise das discussões ocorridas.
Os textos propostos nesta fase da pesquisa apresentam um caráter mais denso, apesar de serem mais curtos. O primeiro trata de uma questão histórico-social e o segundo é um texto de cunho filosófico.
De uma maneira geral, as referências históricas do primeiro texto foram as maiores propiciadoras da não compreensão do texto, que teve a declaração de 38 dos 85 informantes, de que compreenderam mais ou menos ou não compreenderam. Em uma das turmas (2º ano), durante a leitura individual, uma aluna explicou para os demais quem eram Hegel e Marx, de maneira que a turma toda declarou haver compreendido os dois textos.
Já nas outras turmas, a falta de compreensão foi atribuída em maior parte à falta dessa referência histórica e também ao desconhecimento do vocabulário apresentado nos textos, como um aluno declara: “Eu não sabia o significado de algumas palavras e faltou o conhecimento, informação sobre Marx e Hegel”.
Os microcontos apresentados estavam na íntegra, no entanto, os alunos expressaram oralmente e através dos questionários a sensação de que os textos estavam incompletos e de que faltava alguma informação importante para compreendê-lo. Ao perguntarmos oralmente sobre a dificuldade de ler o texto 1 em comparação aos textos 2 e 3, muitos alunos declararam que o texto 1 era mais completo e por isso mais fácil de compreender. Ao declararmos que, ao contrário do que eles estavam pensando, apenas o texto 1 não estava completo, pois é um capítulo de um livro, todos se mostraram surpresos. A sensação de incompletude gerada pelos textos pode ser observada a seguir
-“O primeiro texto mais ou menos, parece que falta algo, mas o segundo texto não consegui compreender”;
- “Me pareceram vagos, sem final definido”;
- “Teria que ter mais coisas, a continuação da história”;
- “o 1º falta conteúdo pois não sabemos o que o preso faz, ou seja o que ensinaram a ele, por isso a dificuldade de compreensão”.
No caso da última citação, percebemos a dificuldade em preencher os vazios referenciais contidos na obra, uma vez que o conteúdo a que se refere a aluna deveria ser preenchido pelo leitor através de conhecimentos históricos que levariam à compreensão da situação de tortura exposta no conto.
O caráter filosófico do texto 3 foi levantado na discussão oral como uma forma de elucidar o texto, já que, oralmente, a maioria de todos os entrevistados declarou ter dúvidas a respeito do texto. Tivemos uma média de dois alunos por turma que fizeram comentários pertinentes que demonstravam realmente haver compreendido o texto 3. Tal dificuldade foi relatada em respostas tais como
- “Entendi, mas ‘La Salvación’ ficou um pouco obscuro, digamos assim.
[continua ao relatar a dificuldade] A maior dificuldade está no segundo texto, tem um caráter filosófico, acho que para minha melhor compreensão, uma pesquisa ajudaria”;
- “La Salvación é muito complicado e não consegui entender mesmo depois de ler 2 vezes”;
- “Não sei. Talvez pelo fato do personagem ficar filosofando”.
Uma aluna declarou oralmente que sabia que o primeiro texto era uma piada, mas como não estava compreendendo, não conseguia achar a graça. De maneira semelhante outros alunos declararam
- “Mais ou menos. Entender a moral da história”;
- “Não compreendi os textos. Não consegui acompanhar a idéia”;
- “Conseguir entender ‘a moral’ da história. Os textos tem intertextos que não retratam o meu mundo, isso faz com que eu não tenha a mesma leitura que alguém que teve acesso a esses intertextos.”
Nesta última declaração percebemos que o aluno manifesta o seu conhecimento sobre a necessidade de conhecimento prévio para a realização de uma leitura satisfatória.
Também a insatisfação por não conseguir realizar a leitura foi expressa por uma das pesquisadas
- “O 2º não tem parágrafos para que se entenda melhor, está bem confuso, li duas vezes não entendi e quero não precisar ler o mesmo texto novamente, é muito ruim.”
Essa mesma entrevistada, ao ser perguntada se precisou de algum auxílio para compreender o texto e qual foi o tipo de auxílio, declarou: “Pensar demais”.
Esta resposta nos leva a duas concepções de leitura: a de que a leitura por prazer não deve apresentar nenhum tipo de dificuldade e/ou não deve fazer pensar e também nos remete ao citado por Bordini e Aguiar (1993), Kleiman (1993, 2004b) e vários outros autores a respeito do prazer do texto estar vinculado muitas vezes ao conteúdo mais próximo da realidade do leitor.
Para todos os textos trabalhados fizemos a pergunta “Você levaria este texto para uma aula de língua espanhola? Por quê e para qual nível de língua?”.
Para o texto 1, a maioria dos entrevistados respondeu que levaria, variando entre alunos de 5ª série e até alunos do ensino superior. A maior concentração de propostas de trabalho esteve entre alunos do ensino médio. Já para os textos 2 e 3, a maioria disse que não levaria. A justificativa girou em torno da dificuldade dos textos, da necessidade de referenciação e complexidade linguística apresentados, pois os próprios teriam que compreender melhor o texto para depois levá-los para sala de aula. Também o gosto do leitor foi expresso nessa escolha, em casos como
-“somente depois de ter entendido completamente para poder explicar inclusive os contextos históricos presentes neles”;
- “Não levaria, não gostei dos textos”;
-“O texto ‘La Salvación’sim, ele tem elementos gostosos para serem comentados. Já o outro, ‘Eso’, não é de fácil entendimento, logo, não levaria para uma turma de língua espanhola, apenas para uma turma de literatura”
-“Não. Porque achei um texto de difícil compreensão. E os alunos precisariam de conhecimento de outras áreas, outras disciplinas”
Apenas uma entrevistada se mostrou completamente favorável ao texto, sem fazer ressalvas que impedissem o uso dos textos 2 e 3 em sala de aula:
- “Sim. Por serem contos, permitem trabalhar diferentes gêneros textuais em sala de aula, assim como recursos lingüísticos presentes, a ironia e o humor. Além disso, os textos possuem um vocabulário rico e mais avançado. Levaria para uma turma de nível intermediário”.
A declaração desta entrevistada demonstra uma concepção mais ampla do trabalho com a leitura em aula de língua estrangeira, uma vez que trata de abordagens diversas do texto.
Diferente do que aconteceu com o texto 1, a discussão em grupo dos textos 2 e 3 apresentou maior uniformidade entre os níveis das turmas participantes. Como a maioria dos entrevistados declarou oralmente que ainda tinha dificuldades sobre o texto, o posicionamento crítico diante dos textos se viu diminuído em um primeiro momento e se igualou em termos de séries uma vez que as dificuldades foram sanadas.