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TEXTO E INTERPRETAÇÃO – O(S) EFEITO(S)-LEITOR

2 CONSTRUÇÃO DO CAMPO TEÓRICO: OLHARES OBLÍQUOS

3.1 TEXTO E INTERPRETAÇÃO – O(S) EFEITO(S)-LEITOR

Pensar o texto abrindo-se para a interpretação, coloca-nos na posição de considerar o processo interativo de construção de significado, na medida em que “não há sentido sem interpretação” (ORLANDI, 2004, p.11). Deste modo, devemos levar em consideração a cooperação do leitor, como princípio ativo da interpretação, que estabelece uma relação tênue com o quadro gerativo de um referido texto.

O indivíduo, na qualidade de sujeito-leitor, se constituiria, na concepção de Orlandi (2001), por intermédio da relação que estabelece com a linguagem. Podemos considerar, segundo a autora, que o efeito-leitor seria produzido na própria materialidade textual, pressupondo, portanto, para sua ocorrência os gestos de interpretação de quem o formulou e, logo, a memória do sujeito que exerce o ato de ler.

7 Termo utilizado por Orlandi (2001) para designar as múltiplas possibilidades de leituras face os diversos tipos de textos.

[...] Como os sentidos não são indiferentes à matéria significante, a relação do homem com os sentidos se exerce em diferentes materialidades, em processos de significação diversos: pintura, imagem, musica, escultura, escrita, etc. A matéria significante – e/ou a sua percepção – afeta o gesto de interpretação, dá forma a ele (ORLANDI, 2004, p.12).

O que pretendemos salientar aqui é que a materialidade mesma do texto propicia um jogo de gestos de interpretação do sujeito-autor perante o suposto leitor via memória discursiva – interdiscurso, já que a construção de significado constitui-se por meio da filiação a redes de memória, como Pêcheux (1982 apud ORLANDI, 2001, p.60) observa “[...] pode haver ligação, identificação ou transferência, isto é, existência de uma relação abrindo a possibilidade de interpretar. E é porque há essa ligação que as filiações históricas podem-se organizar em memórias, e as relações sociais em redes de significantes”.

Para González de Gomes (1993), a representação seria o produto de idéias e concepções que os sujeitos devem ter em torno de certas realidades no seu campo semiótico.

A linguagem, “solo do conhecimento”, permitiria um modo de interpretação através da pluralidade de significados. Sendo assim, devemos ressaltar, segundo a autora, que “[...] a questão do acesso aos objetos e a reflexão acerca das condições de experiência são substituídos pela questão de fatyum da linguagem e pela reflexão acerca de suas condições de interpretação”.

Para melhor situar essa questão do espaço de interpretação, vamos ressaltar a dialética acerca da intentio operir (intenção do texto) e da intentio lectoris (intenção do leitor) a partir do conceito leitor-modelo de Umberto Eco (1983; 1993a). É importante destacar que para o autor seria possível abordar a intenção relativa do texto em função da leitura prévia do leitor/espectador.

Desta forma, o texto seria um dispositivo capaz de prever um leitor-modelo, sendo que, o leitor empírico da ação permaneceria agente responsável por depreender conjecturas em relação ao tipo de leitor-modelo postulado para o objeto textual. Dito de outra forma, o

leitor-modelo seria uma estratégia textual na qual “[...] o texto é um objeto que a interpretação constrói no decorrer do esforço circular de validar-se com base no que acaba sendo o seu resultado” (ECO, 1993a, p.75).

A noção de leitor-modelo aponta para um sujeito capaz de interações múltiplas em relação ao objetivo geral do texto para decodificar uma mensagem verbal, o que pressupõe uma idéia de dialética do leitor em relação ao texto ou vice-versa.

[...] quando um texto é produzido não para um único destinatário, mas para uma comunidade de leitores, o/a autor/a sabe que será interpretado/a não seguindo suas intenções, mas de acordo com uma complexa estratégia de interações que também envolve os leitores, ao lado de sua competência na linguagem enquanto tesouro social [...], ou seja, as convenções culturais que uma língua produziu (ECO, 1993b, p.79-80).

O objeto textual postula necessariamente uma cooperação do leitor como condição primordial para a própria atualização a partir do processo de leitura, o que suscita a potencialidade significativa e a comunicação concreta do referido texto. A compreensão de significações do discurso, segundo Bakhtin (1997), ocorre apenas como elemento abstrato de um fato.

[...] Ver e compreender o autor de uma obra significa ver e compreender outra consciência do outro e seu universo, isto é, outro sujeito (um tu). A explicação implica uma única consciência, um único sujeito; a compreensão implica duas consciências, dois sujeitos. O objeto não suscita relação dialógica, por isso a explicação carece de modalidades dialógicas (outras que não puramente retóricas).

A compreensão sempre é, em certa medida, dialógica (BAKHTIN, 1997, p.338, grifo do autor).

Orrico (2004) salienta que a configuração da construção de significado nos aproximaria do processo de recuperação de informação que abrange, por conseguinte, o eixo da recepção – entre o emissor, o receptor e o contexto – pela associação do significado à informação, visto que a construção de significado ocorre mediante a interação discursiva. Tal observação nos leva aos produtos discursivos formulados por um determinado grupo social denominado por Charaudeau (2004b) de comunidade discursiva por suas características de

base, como, um conjunto de objetivos acordados pelos membros e os mecanismos de intercomunicação entre os atores do grupo.

Assim, a análise dos processos de interpretação torna, de certa forma, visível a relação entre os eixos da tríade e o efeito de sentido entre locutores. É importante destacar nesse caso que o sentido só é possível por intermédio da própria interpretação. Dessa forma, o texto, enquanto objeto simbólico e unidade de análise, permite múltiplas formas e diferentes possibilidades de leituras dos atores envolvidos, em determinadas situações sociais, proposta esta abordada a seguir.

3.2. O PAPEL DA MEMÓRIA NO PROCESSO COGNITIVO DA